Debate Desconectar para Conectar #FestaLiterária

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O debate se deu hoje no colégio São Vicente de Paulo, no Cosme Velho. Fiquei sabendo por uma conhecida na pequena Internet (Instagram) e fiquei bem interessado em ver o que seria dito em um evento para pais, mães e adolescentes (poucos adolescentes) em um colégio.

As falas (destaquei pontos de cada uma no final) foram bem interessantes, mas senti falta de respostas mais práticas para como desconectar, de que desconectar, no que conectar e como.

Também senti falta de indicação de artigos e fontes onde se aprofundar e de onde encontrar as pessoas que participaram do debate, de preferência sites como esse aqui, mas já serviriam suas presenças na pequena Internet (mídias sociais).

Quem sou eu?

A maioria das pessoas que passam aqui não me conhecem, então um brevíssimo resumo: sou uma pessoa cibernética, hiperconectada desde o século passado, que já discute a transformação das redes sociais em mídias sociais desde 2014 e a necessidade de moderar a exposição de crianças e adolescentes aos espaços online, ou mesmo distrações em tela, desde 2008.

Esse site tem mais de 700 posts, a maioria sobre esses temas, então resumir é sempre um desafio, mas vou me esforçar.

Do que desconectar e a que se conectar?

Vamos começar pela conclusão porque temos pressa (mas desenvolvo ao longo do post).

Temos que nos desconectar do que nos desconecta: de mídias sociais desviam a nossa atenção das interações humanas; de buscadores que nos desconectam do nosso senso crítico (pior ainda quando oferecem resumos de IA generativa); da nova “Televisão Digital” (artigo importante sobre como as mídias sociais se tornaram um tipo de TV piorada). E nos conectar a redes sociais online como o Fediverso ou criadas em aplicativos de mensagens como o WhatsApp ou o Signal. Podemos nos conectar também escolhendo bem as séries a assistir e discutir com família e amigos. O espaço cibernético tem regiões das quais devemos nos desconectar, mas também regiões que nos conectam.

Temos que nos conectar ao que conecta. Uma característica das redes sociais de fato, como eram atém por volta de 2014, é que elas facilitavam os encontros offline. Desde o século passado, quando BBS tinham encontros presenciais mensais com centenas de frequentadores que conversavam diariamente online. Quando o Twitter era Twitter, as pessoas marcavam teatro, cinema e eventos presenciais que reuniam dezenas, centenas de amizades “virtuais”. A conexão cibernética não é um problema e não acontece em redes sociais que não são mediadas por algoritmos cujo objetivo é nos desconectar do mundo e nos conectar a ela.

Em outras palavras: a conexão humana pode e deve ser potencializada pela conexão digital. Isso me lembra de um post de 2005 no meu blog pessoal onde as pessoas trocaram mais de 400 mensagens falando dos riscos do uso de Rivotril e ajudando umas às outras. Seres humanos se conectam naturalmente, desde que não exista uma máquina interferindo.

O que falar de conexão para adolescentes e seus responsáveis?

Vejo dois pontos de partida iniciais essenciais:

  1. Busque boas fontes e se informe com profundidade. Um post, uma palestra, um debate, servem no máximo para fornecer uma lista de tópicos e de fontes. Vídeos de 30 segundos em mídias sociais servem para muito menos ainda;
  2. Entenda o objetivo da plataforma que está usando e assuma controle do fluxo de informações e estímulos. Tanto quanto possível, entenda, reduza ou mesmo elimine a curadoria algorítmica do seu conteúdo. Algoritmos comerciais geralmente são corrosivos…

Quase tudo mais é consequência e nos leva a medidas práticas.

Por exemplo, para assumir o controle do fluxo de informações e estímulos podemos nos perguntar: esse tempo valeu a pena? Me aprofundei em alguma das coisas que vi? Como estou me sentindo agora, satisfeita, ou sedenta por mais?

Uma recomendação preciosa é classificar e guardar o que for interessante. Isso pode ser feito até em um arquivo de texto no seu dispositivo, em notas ou, até mesmo, se preferir, em papel! Caso em que exercitamos duas coisas ao mesmo tempo: a observação do que está alimentando as nossas mentes e o ato lúdico de escrever à mão.

Resistir é inútil?

A sensação de que estamos no fim da história (spoiler: não estamos) e que “já está tudo dominado”, que temos que nos render às mídias sociais, nos leva ao conformismo, mas essa sensação está errada.

Sugiro comparar a nossa situação atual aos tempos do feudalismo: Mídias Sociais são grandes feudos para os quais prestamos serviço como escravizados, ou seja, por migalhas de estímulos sucessivos e efêmeros, informamos que conteúdos atraem mais atenção, produzimos conteúdos que alimentarão aquela empresa de mídia, classificamos e modificamos os conteúdos dela. E ainda cedemos a nossa atenção para ver vendida a anunciantes sedentos de influência.

Se escapamos daqueles feudalismos, escaparemos do feudalismo capitalista digital!

Outros caminhos da Internet

Precisamos falar nas diversas Internets. O lugar-comum é dizer que “A Internet”, mas devíamos falar em pelo menos duas Internets. Tenho chamado de pequena Internet e Grande Internet.

A Internet que temos criticado, que nos apresenta enormes desafios é o que tenho chamado de pequena Internet, a Internet moderada diretamente por algoritmos, como mídias sociais (Facebook, Instagram, TikTok, etc), buscadores comerciais (Google e até DuckDuckGo) ou indiretamente, como o jornal que se submete aos algoritmos de busca e aos padrões de temas das mídias sociais. É pequena porque lhe falta diversidade.

A Grande Internet é a que sempre esteve lá. Esse site faz parte dela (desde 2008). É a Internet de Redes Sociais (Mastodon, Fediverso), mídias independentes como jornais e podcasts (tem algumas sugestões na minha página de recomendações), sites pessoais, sites e revistas especializados, IndieWeb… Ela é vasta em diversidade, aprofundamento de temas e talvez seja tão populosa quando a pequena Internet, já que é difícil avaliar a demografia, tanto da pequena, quanto da Grande Internet.

No entanto, o que importa não é a quantidade, mas o tipo de conteúdo, e veja que não estou julgando qualidade, mas sim diversidade.

O que fazer com as mídias sociais?

Ouvi várias vezes no debate sobre adiar a entrada nas mídias sociais. NÃO! Simplesmente vire as costas e vá embora delas. Seja você uma pessoa adulta e mais ainda uma pessoa adolescente. Entendo que não é fácil, mas leve isso em consideração.

Pense nas mídias sociais, que não deviam ser chamadas de redes sociais (a própria Meta afirma que suas plataformas não são sociais), como um mediador das suas relações humanas e acesso à informação. Ele decide o que você vê e quando de acordo com o algoritmo, que age no interesse dessa plataforma como um censor, uma censura. Além disso, a plataforma tem planos e vieses políticos muito bem definidos e desfavoráveis para o meio ambiente, a sociedade, o emprego…

Se já vemos como frequentemente é muito ruim quando cedemos o acesso a necessidades básicas como saúde, educação, água e luz para a iniciativa privada, imagine ceder a nossa socialização e acesso à informação a empresas que sequer são regulamentadas.

Destaques das falas

O que está destacado com outra cor de fundo são observações minhas. Coloquei um link ou outro também.

Nina

  • Lida com adultos tentando desconectar
  • Como a gente produz memória coletiva, conexão?
  • O hiato entre gerações está aumentando
  • Angústia e inquietação de como lidar com os filhos está aumentando
  • Fala muito em hiper conectividade (post meu de 2012)
  • Entender a natureza técnica: quem faz as plataformas, com que interesse?
  • Não somos mais só consumidores, somos produtores, deixamos nossos rastros
  • O que é hiper conectividade
    • É um pilar do regime sócio-econômico capitalista liberal
    • Acontece em um mundo de desenvolvimento tecnológico nos últimos 300 anos
    • Domina a interações na própria forma de nos colocarmos no mundo: Temos que registrar online ou não aconteceu
  • Todo consumo comunica. Comunicação está nas práticas mais subjetivas da nossa vivência íntima
  • Não podemos cair no “Não tem mais jeito”
  • Hiper conectividade tem que ser tratada como compulsão (eu diria que a compulsão ocorre quando ela é mediada por algoritmos)
  • Por que temos uma sensação constante de insuficiência?

Daniel Becker

  • Se considera ativista e valoriza o brincar, o contato da criança com a natureza
  • Estamos diante de um experimento global criado por um grupo de empresas que exploram a suscetibilidade humana ao vício com algoritmos que são IAs, não GPT, mas IAs
  • 94% das crianças entre 3 e 6 anos passam um tempo considerável em telas
  • As habilidades que nos proporcionaram a sobrevivência da espécie estão sendo abandonadas
    • Minha sugestão: encadeamento de pensamento, atenção, criatividade, contato com o mundo físico
    • Contato com a luz do dia
    • Movimentação, exercícios
    • Dormir no escuro, à noite
    • Interação social
    • Afastamento do raciocínio, da criatividade
  • Por outro lado todas essas coisas estão sendo trocadas por 9, 12 até 15h de telas: jogos, mídias sociais, notificações de grupos (WhatsApp, Discord)
  • O lixo engaja. Eu dira que o cringe, o exagero, etc engajam
    • Lembrando que tem empresa que paga para mostrar seu lixo para crianças e outros grupos
  • Danos
    • Desatenção levando a diagnósticos de TDAH
    • Perda do sono
    • Recorte de gênero: misoginia, bullying, pornografia (homens levam até aos 28 anos)
    • Ideologia: Aporofobia, e outras demais fobias, polarização
    • Suicídio aumenta
  • Soluções
    • Família
    • Escola (educação midiática)
    • Comunidade

Paula Martini

  • Condução muito específica do consumo
  • Captura da nossa criatividade e imaginação
  • Será que o nosso presente está correndo atrás das distopias da literatura?
    • Utopia nos move para onde desejamos ir
  • Atuar por futuros desejáveis pelo bem de quem estará vivo por mais tempo que nós (crianças)
  • Tecnologias não são neutras: o botão das mensagens do Instagram não mudou por acaso (suspeito que é para reduzir a interação direta.)
  • Que relação temos com as IAs GPT?
    • Anúncios do Gemini voltados para jovens para capturar as pessoas mais vulneráveis
    • Elas nos chamam para conversar (as GPT), o que é extremamente atrativo para o adolescente, sempre carente de atenção e pertencimento
  • A gente passa horas navegando, mas mal lembramos do que fazemos nesse tempo porque é feito para ser superficial, efêmero
  • Nossa relação vulnerável com as IAs nos leva a uma homogeneização do pensamento
  • Letramento digital é essencial, mas ela usa o termo “desenvolver habilidades do futuro” por ser mais simpático
    • Pensar nas relações políticas, geopolíticas, sociais

Jéssica – 17 anos

Na minha opinião foi a melhor fala porque ela vive e entende a necessidade da conexão digital como os outros não viveram, ou até viveram, mas em outra época, quando era diferente.

  • A perspectiva dela é de quem está imerso no digital
  • Apesar das redes criarem grupos, ela também é um mecanismo que exclui muito se você não está lá
  • É muito cômodo ter acesso ao que quer, quando quer, mas a retirada do celular na escola trouxe muita melhora nas interações dos jovens
  • Percebe que as GPT prejudicam a capacidade de pensar e desenvolver o pensamento
  • Como utilizar essa ferramenta ao nosso favor (celular). Quem é o objeto, quem usa quem?
  • Vamos produzir mais com as ferramentas (GPT), no entanto, sem perder contato com o lado humano

Lia Ludwig

  • Possibilidades de solução
  • Movimento desconecta: famílias que se mobilizam para adiar a entrega de smartphone para os filhos e introdução nas mídias sociais
  • A filha dela, aos 11 anos, era a única não conectada e sofria, desde então, elas agora sofrem dos trampos de ter dado acesso a ela a essas caixas de pandora
  • O Desconecta está em mais de 600 escolas
  • Método:
    • Grupo de letramento digital com os pais
    • Compartilhar posts legais de mídias sociais
  • Temos dois perfis de pais e mães
    • Pequenos: ainda podem reescrever, reposicionar a infância nos trilhos
    • Maiores, que já tem acesso aos dispositivos e Rede: Letramento digital, papos sobre Roblox, etc.
  • E se a gente combinar que, “poxa, vamos adiar? Combinarmos de adiar juntos o smartphone até os 14 e as mídias sociais até os 16?”
    • 50 escolas já se movimentam para esse acordo coletivo

Perguntas e observações

  • A hiper conectividade é uma compulsão quando é controlada por algoritmos externos a nós e com um viés comercial
  • Existem modelos de linguagem e IAs generativas abertas

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Reações no Fediverso

Comentários

2 respostas para “Debate Desconectar para Conectar #FestaLiterária”

  1. @roney

    Eu estava lá

    1. @gfpreger @roney Ahh!! Vacilei! Podíamos ter nos conhecido pessoalmente!

      Ainda vou acabar andando por aí com uma bandeirinha na cabeça: Fediverso presente

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