O termo “Era da Distração” pelo jeito tem se tornado mais comum nos últimos dois anos e… Para tudo! Vou puxar o último parágrafo do post aqui para baixo para poupar o leitor, leitora, leitore de seguir todo o meu raciocínio:
Não existe uma Era da Distração, pois o que há é o desenvolvimento de uma forma de capitalismo da atenção, como alguns têm chamado, que se estabelece pelo desenvolvimento e sequestro de plataformas com o intuito de nos distrair de tudo o mais. Sejam as mídias sociais (sugiro ler mais abaixo sobre a diferença entre mídias e redes sociais), seja nos streamings e até nos buscadores que, em vez de nos trazer artigos bem escritos e profundos, nos traz primeiro resumos feitos por IAs GPT sumarizando o senso comum. Falar em “era da distração” leva o foco e responsabilidade para nós, para cada pessoa. O que vivemos é uma Era de Sequestro Intencional e Planejado da Atenção e não da distração. A propósito leia também os links de apoio depois do post.
Você também pode querer pular direto para a conclusão.
Pronto, agora pode seguir para o parágrafo a seguir, que seria o primeiro.
O termo “Era da Distração” pelo jeito tem se tornado mais comum nos últimos dois anos, muito embora já se encontre o termo em 2015 em artigos como Estamos na ‘era da distração’ – entenda o valor de se desconectar na revista Galileu, um pouco antes das redes sociais serem transformadas em mídias sociais, que são máquinas de absorção e fragmentação da atenção. Eu mesmo já me preocupava, em 2008, com o nosso preparo para lidar com o aumento do fluxo de estímulos quando comentei as ideias de Valdemar Setzer.
Mas vamos direto ao problema, que já dei spoiler acima: A maioria dos artigos recentes que achamos nos buscadores, talvez feitos consultando IAs GPT, que pasteurizam o senso comum, falham em identificar os mecanismos e categorias de distração.
A culpa, quase sempre, é jogada numa suposta natureza das “redes sociais” e notificações de dispositivos eletrônicos.
O primeiro grande problema é que essa descrição não corresponde à realidade. Essas não são características naturais, são estratégias projetadas com o fim de transformar a experiência online em uma experiência de produção, trabalho involuntário e consumo, principalmente de consumo, mas também de produção quando nos induzem a buscar não interações sociais ou mesmo informações, mas a nos vender como consumíveis online, ou seja, nos vemos planejando as nossas publicações não para nos conectar a pessoas amigas ou a novas pessoas, mas como se fôssemos produtos a vender (sem nos pagar) nas timelines infinitas de pessoas desconhecidas.
O trabalho involuntário merece um parágrafo, muito embora não esteja diretamente ligado ao sequestro da atenção: quando curtimos, comentamos, compartilhamos ou mesmo deixamos um conteúdo rolar na nossa frente, estamos fazendo o trabalho gratuito e involuntário para a plataforma de mídia de classificar, avaliar enriquecer, propagar as mídias que lhe darão lucro astronômico.
Já falei aqui muitas vezes na necessidade de distinguir mídias e redes sociais, em como algoritmos transformam redes em mídias sociais e do futuro da Internet Social através do Fediverso, mas vale a pena resumir em um parágrafo para poupar seu tempo.
As redes sociais foram um fenômeno iniciado nos BBS, IRC e News Groups desde os anos 90 do século passado e se expandiram rapidamente pela Internet e dando origem aos blogs e a plataformas de redes sociais por volta de 2004 desse século porque interação social é um impulso natural e fundamental humano, mesmo online. Eram como praças onde fazíamos amizades, onde levantávamos bandeiras, apresentávamos ideias e fazíamos a conexão entre as realidades online e offline. Apenas uma pequena parcela da civilização socializava online e talvez realmente apenas uma pequena parcela da humanidade tenha o perfil para socializar online, assim como muitas pessoas não socializem bem em grupos com muitas pessoas e prefiram interações mais íntimas.
No entanto, as pessoas que estabeleciam redes sociais online frequentemente tinham mais influência offline que as pessoas que não se expandiam por esses espaços.
Vendo o potencial disso, foram sendo experimentadas redes sociais comerciais online que pensavam em como capitalizar e utilizar essa influência. Hoje vemos o enorme mercado de influencers, que, quase todos, foram reduzidos a vassalos ou mesmo a servos de enormes plataformas de mídia. Alguns ganham bem, mas todos precisam se submeter aos algoritmos e se tornaram parte dos mecanismos de sequestro da atenção. Bem, ao menos alguns deles realmente trazem bom conteúdo. Alguns estão na minha página de recomendações.
As redes sociais foram sendo transformadas em algo que não é mais rede, nem é mais social, é uma forma nova de televisão (recomendo o artigo do Derek Thompson linkado mais abaixo).
E nós com isso?
Frequentemente as pessoas me dizem que não adianta, que o mundo é assim, que somos escravizados (nunca usam essa palavra, acho que se percebessem que estão descrevendo isso mudariam de ideia) pelos gigantes da mídia.
Isso infelizmente vale para a coletividade, para 30, 40, quem sabe 80% da civilização; no entanto, você que está lendo esse post não é a civilização, você é uma pessoa que tem o poder de decidir não se deixar escravizar. Você pode selecionar bons filmes e séries para assistir, pode decidir ler o artigo inteiro em vez de apenas a captura da manchete e do lead dele compartilhado em alguma mídia social, você pode experimentar passar uma hora numa praça vendo o tempo passar e descobrir que foi melhor do que uma hora vendo vídeos curtos injetados no seu inconsciente por algoritmos cuja meta é sequestrar a sua atenção e influenciar seus desejos, vieses e sentimentos.
Links
- Da Era da Informação à Era da Distração – Como Recuperar o Controle da Nossa Atenção (2025)
“O que antes era uma forma de conexão genuína tornou-se uma engrenagem cuidadosamente projetada para nos prender, explorando nossas vulnerabilidades psicológicas.” - Detox Digital: 7 Hábitos para Recuperar o Foco na Era da Distração (2025)
- A Era da Distração, por José Renado Nalini na Academia Paulista de Letras (2024)
“Estamos criando uma geração com déficit de atenção ambientalmente induzido pelo controle incessante e obsessivo das distrações digitais sobre a criança.” - Everything Is Television – Derek Thompson
(Agradeço à Lounge42 pela indicação!)


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