Muita gente que não gosta de tecnologia nos alerta para os perigos da TV, dos videogames e dos computadores / Internet. A propósito raramente eles entendem que computadores e Internet são duas coisas tão diferentes quanto comutadores e conversa pelo telefone…

Que tal então alguém que considera essas tecnologias como parte importante da evolução humana falar do que há de ruim nelas?

Na TV

Nós humanos provavelmente criamos a Internet por causa dos problemas da tv, dos jornais e das revistas. Aliás nós criamos todas essas coisas por um motivo…

Há aspectos físicos negativos no uso da televisão como os olhos vidrados e mal lubrificados, a radiação e os movimentos restritos que eles fazem para ver as imagens na telinha pequena, mas há problemas maiores na TV.

O maior deles é o seu poder de massificação. Ela nos tira a nossa individualidade ao apresentar uma programação que não pode ser personalizada e muitas vezes é feita tentando agradar tanto adultos quanto velhos e jovens, cultos quanto incultos, ricos e pobres.

Ela foi um bom instrumento para diluir fronteiras e nos igualar em um momento que precisávamos ser igualados, mas esse momento passou.

A programação fortemente voltada ao estímulo ao consumo talvez seja seu maior dano no momento e as maiores atingidas são as crianças que são erotizadas, “adultizadas” e levadas a crer que nada são se não possuem mais do que os outros.

Visite o instituto Alana (http://www.alana.org.br)  e informe-se sobre a proteção das crianças contra os comerciais.

O poder de propagação de memes da TV também é um problema em um momento de transição como o que vivemos onde o medo, o preconceito e o pessimismo são sentimentos predominantes e se multiplicam assustadoramente na mídia antiga sem que nós possamos interceder já que se trata de um fluxo unilateral de informação.

De nada adianta falar em monstros sem indicar antídotos! No caso da TV já citei um: a Internet e sua capacidade de nos reunir e nos dar voz. A propósito a primeira pessoa a me alertar para isso foi o Nepomuceno: http://cnepomuceno.wordpress.com/.

Nos videogames

Acredito que nós inventamos os videogames porque precisávamos de duas coisas: desenvolver nossa capacidade de abstração e a velocidade do raciocínio e reflexos.

Esse é o que tenho maior dificuldade para criticar.

Bem, eles são feitos para satisfazer nossas necessidades psicológicas de sucesso, mas nos oferecem sucessos virtuais que normalmente (a menos que seu trabalho seja testar jogos) não nos oferecem qualquer outro sucesso além de ter chegado ao final do jogo e ficado um pouco mais apto a lidar com conceitos abstratos e mais veloz ao raciocinar.

Temos visto jovens e adultos que facilmente se viciam nos jogos como se fossem drogas químicas que agem diretamente em seu centro de prazer.

Não é difícil alguém satisfazer uma vida de fracassos com os sucessos em jogos.

Existe também a violência e os problemas de saúde por causa dos estímulos rápidos, luminosos e barulhentos, mas esses são problema sem conhecidos e, francamente, não considero a violência dos games um problema, mas uma catarse para quem vive uma situação em que não tem como extravasar de outro jeito. Os desastres acontecem justamente quando os games não bastam para aliviar toda a pressão causada pela família ou pelo meio.

O remédio? Conversar com as crianças, não se deixar seduzir pelo sucesso fácil dos games (adultos tb caem nessa armadilha) e apresentar programas alternativos e divertidos. Ah! Por conversar não me refiro a “ensinar que aquilo é ruim”, mas falar sobre a vida mesmo, sobre o que eles gostam, o que não gostam, o que gostariam de fazer nas férias… Conheça seus filhos.

Na Internet

Ela é o mais importante instrumento para criar a era do conhecimento, mudar a estrutura social e política da nossa civilização (já ouviu falar em hiperdemocracia?) e até o mapeamento das nossas ligações sinápticas. Alguns a consideram a quarta maior modificação da nossa espécie em sua história e talvez a mais intensa das quatro.

Justamente por isso ela trás uma série de problemas muito sérios.

O primeiro (sem ordem específica) é o problema do fluxo de informação.

Com email, rss, twitter, banners e com alcance a praticamente qualquer informação audio-visual ou escrita através dos buscadores (Google) estamos soterrados em dados, perguntas, respostas.

Nossos cérebros e mentes não estão prontos para escutar um palestrante, tecer comentários simultâneos por um microblog, observar o ambiente ao redor e ainda fazer pesquisas para complementar o que está sendo dito pelo palestrante, mas somos impelidos a tentar.

Sem o devido cuidado o preço que nossas crianças pagarão se forem expostas a isso sem o devido acompanhamento será terrível e as veremos com dificuldades de relacionamento, de compreender os limites do que é socialmente aceito e o que não é.

O segundo grande problema que enxergo está no que chamo bolhas sociais que estão ligadas ao conceito de cauda longa.

Só se fala em cauda longa, afinal ainda vivemos na era do capitalismo consumista e não a do capitalismo de serviços da sociedade do conhecimento. Cauda longa é vender para minorias.

Acontece que a Internet facilita a concentração das minorias e podemos ter bolhas sociais de suicidas, sádicos que estimulam o suicídio, anoréxicos, assediadores morais, pedófilos e até seguidores da igreja da eutanásia.

Uma pessoa emocionalmente fragilizada pode dar o azar de cair em um grupo que só a guiará ainda mais para o fundo dos seus pesadelos internos.

Um terceiro problema é a tendência dos velhos memes procurarem cooptar as pessoas para os seus fins consumistas.

Não se trata de paranóia de esquerda, mas o padrão de consumo de bens e a economia de posse está cedendo espaço para um novo modelo de captalismo mais adaptado onde a moeda é a informação, o produto é o conhecimento e a economia é de serviços.

Resistir demais a isso é provocar crises como a atual crise econômica ou de moral.

Estou falando aqui especificamente da onda da mídia social digital que é muito bem conduzida por algumas agências, mas é desastrosa e nociva  em outros casos onde a opinião soberana do indivíduo é comprada.

Esse processo está em plena efervecência e pode nem chegar a se tornar um problema real, mas é uma possibilidade.

Não posso falar da anarquia que é um quarto ponto (e importantíssimo).

Na rede todo mundo pode falar tudo… E arcar com as consequências depois. Ou não.

Alguém pode falar cobras e lagartos de você, podem denunciar um crime legítimo. Como separar o joio do trigo? O que é legítimo do que é abuso?

No momento a lei considera crime praticamente toda forma de liberdade de expressão na Internet e tenta controlá-la e até criminalizar quem simplemente é internauta passando a tentar vigiar cada passo que dá.

O problema é real, tudo pode ser dito na Internet e isso não é sempre bom. É um problema para o qual não tenho remédio, mas a subtração do nosso direito de livre expressão ao criticar um político, um profissional ou uma empresa também não é solução.

Sobre isso leia o engajado blog do Caribé: http://entropia.blog.br

Como matar os monstros

Vejo um único remédio, mas pelo menos é barato, acessível e democrático: converse.

Essas tecnologias não foram criadas por alienígenas ou por meia dúzia de super-vilões, elas foram criadas por nós mesmos (ou pelos memes que nos trouxeram até aqui) para atender as nossas necessidades evolutivas.

Uma tecnologia se sobrepõe a outra. A pedra é substituída pelo papiro, que é substituída pelos lindos volumes de papel feitos a mão por copistas, que são substituídos por eficientes cópias impressas que serão substituídas por artefatos digitais que levarão a escrita a um novo patamar.

A forma de lidar com isso é questionar, conversando a respeito com amigos, filhos e sobrinhos.

“O que você gosta nesse videogame?”, “Como você gostaria que esse desenho terminasse?”, “Qual é o personagem de Harry Potter que vc mais gosta e porque?”.

Fora isso há um vasto mundo de experiências offline! Passeios de bicicleta, escaladas, acampamentos, teatro (que foi muito criticado lá no século IX AC por ser uma mentira contada deliberadamente) e toda sorte de esportes e interações que podemos e devemos experimentar tanto com os jovens quanto com nossos amigos.

O remédio para os monstros da tecnologia é compreendê-los e viver uma vida equilibrada entre o offline e o online, afinal “real” os dois mundo são.

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