… do que as corporações cibernéticas querem que saibamos.
Já tenho falado sobre pequena e Grande Internet tem um tempo e, ultimamente, vemos cada vez mais criadores de conteúdo da pequena Internet (a que está nos cercados das corporações cibernéticas e controlada por algoritmos como Meta, Google e Microsoft) reclamando que lá está cada vez pior para eles e mais enlouquecedor para nós. No entanto, são pouquíssimos que nos convidam a simplesmente ir para outro lugar.
A culpa, se é para impingir culpa, não é das pessoas que tentam trazer seus trabalhos para nós na Internet, a culpa é dos governos e da mídia, que não fazem o papel de evitar que monopólios nos capturem, mas, em última instância, a culpa mesmo é das corporações cibernéticas, que investem literalmente bilhões em mídia e lobby. Siga o dinheiro.
Em tempo: sim, estou chamando as big tech de corporações cibernéticas.
Primeiro que o nome mais popular dá uma impressão de domínio da alta tecnologia, o que não corresponde à realidade (esse é um papo longo, por ora peço apenas que acredite ou que pesquise um pouco sobre de onde vem os maiores avanços científicos e tecnológicos), segundo que não é um nome nada descritivo e terceiro que está em outra língua.
Assim como temos corporações midiáticas, jornalísticas, cinematográficas, temos também corporações cibernéticas, ou seja, que procuram monopolizar o acesso ao ciberespaço e às ferramentas da civilização cibernética, como aplicativos de produtividade, busca de conteúdo, entretenimento online e até os sistemas e aparelhos necessários para ter um lugar na civilização cibernética (celulares, computadores e seus sistemas operacionais).
Isso nem é algum tipo de teoria da conspiração, é simplesmente como funciona o mercado, sempre buscando o monopólio a menos que os governos e mídias impeçam, afinal dominar um mercado garante a maximização dos lucros. A China praticamente monopoliza as matérias-primas para fazer baterias e circuitos eletrônicos, por exemplo.
Você está vendo algum esforço real para impedir o monopólio dos recursos cibernéticos? A imposição de vender as operações do TikTok nos EUA para a Oracle é um exemplo justamente do contrário, vale lembrar. A Oracle e os irmãos Alyson são donos de uma parte substancial da mídia nos EUA.
Mas, antes de ir para a próxima sessão tenho duas boas notícias:
- Apesar de não ser tão visível existem iniciativas políticas e governamentais para regulamentar as corporações cibernéticas. A Europa chama mais atenção nessa área;
- A base da civilização cibernética já está fora das corporações: o Linux. 70% de todos os sites da Internet, todos os 500 maiores supercomputadores do planeta, 71% dos dispositivos móveis (celulares e tablets android) rodam algum tipo de Linux. E você pode usar no seu computador caseiro também!
É aqui que escolhemos uma bifurcação…
Tenho visto muita gente parar nesse ponto: os monopólios estão estabelecidos e tem que aceitar que não tem privacidade, que o resto da Internet está morta e que tem que se submeter. Ponto.
A humanidade realmente passou por muitos períodos assim. Não gosta do senhor feudal? Que se dane! Não tem terra sem senhor feudal, otário. Todo lugar tinha um rei, um faraó, um déspota qualquer.
Mas a Internet não é assim: o espaço é infinito e em duas horas você cria sua própria terra, que pode ser um site como esse, uma rede social integrada ao Fediverso, um podcast, um jornal, uma mala direta… O que a sua imaginação quiser.
A prisão existe, mas não são barras que nos impedem de sair, é o véu frágil de uma mentira muito bem plantada, a de que o que está fora dos domínios das corporações cibernéticas é invisível ou morto, no caso das Meta e suas mídias sociais ou dos buscadores, ou incompatíveis no caso de aplicativos de produtividade.
E essa fragilidade dos monopólios é que procuram evitar que nós percebamos.
Nem precisamos abandonar abruptamente o mundo cibernético controlado das corporações como seria o caso de abandonar o jugo de um senhor feudal levando nosso gado e sementes para um futuro incerto.
Podemos reocupar lentamente a Grande Internet criando um site somente para colocar os links para as nossas mídias sociais ou mesmo para organizar melhor nele o que publicamos lá na pequena Internet. Podemos colocar um pé nas redes sociais federadas e nos conectar pessoalmente de novo (muito embora eu, apesar de ser habitante de redes socais, ache que a maioria precisa mesmo é de conexão offline). Podemos pegar o computador que seria descartado porque não vai rodar o Windows, colocar o Linux Mint ou Zorin e ver nossa máquina velha virar uma máquina nova (estou agora mesmo em um notebook veeeelho).
Enfim, não precisamos correr para as montanhas somente com as roupas do corpo, podemos, gradativamente, expandir os nossos horizontes.
A coisa mais importante é não ficar para trás…
De uns tempos para cá esse é um dos grandes alarmes: você vai ficar para trás! Você vai ficar para trás!
Acontece que, quase sempre, a urgência é para usar uma ferramenta, geralmente IAs GPT e seus desdobramentos: agentes de IA e IAs agênticas. Coisas que qualquer pessoa aprende em dois dias.
A gente fica para trás mesmo quando deixamos de nos conectar ao mundo e não quando não sabemos usar uma ferramenta.
Existem milhares de excelentes fontes de informação na Grande Internet, milhares de nichos de mercado a explorar e, tão importante quanto isso, a mesma cultura de diversidade e coletividade que sempre existiu.
Se ambientar a outras culturas leva algum tempo. Criar redes de conexão, reputação, leva tempo.
Quem está aceitando o mundo restrito das corporações cibernéticas enquanto um universo inteiro de tecnologias, pessoas, culturas se desenvolve ao redor é que está ficando seriamente para trás.
Ainda está em tempo de começar devagar, com calma, quase turisticamente, mas em 5 ou 10 anos pode ser avassalador ter que correr atrás do tempo perdido. #ficaadica


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