Nessa semana que passou fui a dois eventos sobre IA:
- Painel no Aquário da Casa Firjan com Luna Paladino, Ramon Thurler Palomo e Luiz Obregon sobre o uso de IAs na automação de processos em uma empresa que vende software
- Palestra na Cápsula Senac com Carlos Alberto sobre o uso de IAs agênticas principalmente no marketing
São duas áreas e duas abordagens praticamente sem interseções, logo não se trata de fazer uma versus a outra.
Ambas tem pontos fortes, como alertar para os desafios e riscos do uso de IAs, ambas tiveram abordagens bem práticas mostrando o que estão fazendo de fato.
Os dois eventos eram gratuitos. Fique de olho nos links lá em cima para saber de próximos eventos. A Cápsula Senac, inclusive transmite online.
Como as abordagens dos dois eventos são diferentes elas acabam se completando e por isso decidi comentar os dois em um único post.
Antes um pouco de terminologia
(ou pule direto para o primeiro tópico: IA como ferramenta, IA como parte integrante do negócio)
Existe uma confusão de termos para descrever IAs generativas e ainda não tive tempo de fazer um post-glossário, então vou definir bem rapidamente como tenho me referido a IAs generativas (existem outros tipos de IA como Machine Learning, Deep Learning e Processamento de Linguagem natural para citar as mais comuns).
- IA generativa: gerador de texto que usa uma “representação resumida” de todo conteúdo a que pode ter acesso para gerar um texto, imagem, vídeo, som etc. São a dupla IA + LLM e praticamente só existem hoje em dispositivos locais
- Agente de IA: um passo além da anterior. Elas combinam as LLMs com conteúdo que r
oubaram sem pagar direitos autoraisaham compilam da Internet e recombinam para dar respostas mais consistentes - IA agêntica: consiste em um Agente de IA que “orquestra” uma série de aplicativos para atingir um objetivo. A parte generativa lista os passos a seguir e passa as tarefas para aplicativos, que podem ser outras ias, especializados na tarefa, como um conversor de arquivos do formato PDF para HTML
Pronto, acho que isso basta para esse post.
IA agêntica como ferramenta e como parte dos processos do negócio
O foco da Firjan é orientado para indústrias, para a otimização de processos, logo é natural que as IAs agênticas sejam vistas como parte do processo corporativo costurando as atividades com os operadores humanos no menor dos casos.
Já o SENAC tem como seu principal interesse o pequeno empreendimento e a palestra especificamente sobre marketing naturalmente tende mais ao uso das IAs agênticas como ferramentas que estendem as atividades que o pequeno empresário precisa articular para aprimorar o seu negócio.
Em termos práticos:
- Enquanto o painel na Firjan apresentava agênticas capazes de participar do fluxo de comunicação interna, fazer pesquisa e dossiê de clientes buscando informações sobre eles em várias plataformas executando tarefas mais ou menos mecânicas feitas até aqui por humanos e com o projeto futuro de se estender por todos os processos da empresa,
- A palestra no Senac apresentava possibilidades de uso para, por exemplo, analisar o alcance e resultados de campanhas de marketing do negócio. Atividades que o pequeno empresário muitas vezes sequer podia fazer.
A primeira estratégia pode resultar em grande ganho de vantagem competitiva, seja por permitir avaliações mais profundas, seja para produzir mais volume de resultados (possibilidades de vendas no caso), mas coloca a empresa em uma relação de dependência da empresa que fornece as IAs agênticas.
Cheguei a perguntar no painel na Firjan o que fazer se o preço dos tokens subir 100x, algo que pode acontecer para tentar cobrir o déficit na ordem de 2 trilhões dessas empresas. Existe consciência disso, tanto que eles tinham em mãos um desses servidores para processamento local de modelos de IA, mas isso também tem suas limitações e complexidades.
A estratégia apresentada no Senac mantém toda ou quase toda atividade humana sob gestão humana, o que por um lado reduz os potenciais transformadores das IAs agênticas, por outro preserva a autonomia e a agência criativa humana. Tenho que dizer que é um caminho com o qual simpatizo mais por causa das indefinições em torno da indústria de IAs generativas.
Destaques e cuidados
Estou sendo bem complacente com o uso de IA apesar de ser muito crítico a ele desde 2023, principalmente por causa da natureza das empresas que estão capitaneando o desenvolvimento e pelo marketing que as vende como muito mais do que são e prometendo avanços que são muito improváveis, no entanto os dois eventos mostraram usos que estão sendo funcionais e vivemos em um cenário de crises individuais que podem nos obrigar a fazer uso de IAs seja por imposição, seja para conseguir um pouco mais de competitividade.
Dito isso, fiquei muito bem impressionado com as colocações da Luna Paladino que se preocupou em destacar desde os riscos de atribuir inteligência e emoções às IAs até os dilemas éticos que todos conhecemos, mas passando também pela ideia de “garbage in garbage out”.
Como consultor em gestão do conhecimento há mais de 20 anos esse é um dos alertas mais comuns que faço aos clientes: é crítico entender os seus dados, de onde eles vem, como eles vem e por que processos eles se tornam informação e conhecimento.
No caso dos agentes de IA o conceito também se aplica à base usada para construir o LLM (grande modelo de linguagem) e às fontes que usam, como publicações em mídias sociais e no Redit (que, pessoalmente, preferia que fossem descartadas).
Na Firjan o conceito foi lembrado no primeiro sentido, ou seja, na necessidade de entender e modelar muito bem os dados e processos da empresa antes de tentar introduzí-los em um sistema agêntico.
E esse é o momento para lembrar os alertas de Satya Nardela (CEO da Microsoft) e de um dos CEO da (Palantir – argh) e que também foi lembrado pela Luna: cuidado ao confiar os seus processos a empresas de IA pois, assim como as mídias sociais fazem o mapeamento dos nossos dados para executar ações que tem sido judicialmente e cientificamente sido consideradas muito nocivas para a sociedade, as empresas de IA provavelmente estão absorvendo os nossos processos para, por exemplo, vendê-los como automação para a concorrência ou mesmo lançar um serviço concorrente com o nosso.
Nesse sentido a abordagem que vimos no Senac é inclusive mais segura, pois não entrega a essência do negócio à empresa de IAs agênticas.
E se ficar muito caro?
Vale a pena voltar aqui ao problema: Fala-se em aumento de produtividade em 2 ou mesmo 4x (muito embora muitas dessas medições não levem em consideração a qualidade do aumento de produtividade), no entanto as corporações de IA precisam aumentar muito mais o preço para dar retorno aos investidores.
A resposta para esse dilema tem sido um tipo de “racionamento de tokens”, ou seja, monitorar o gasto para ficar dentro do orçamento, mas essa estratégia traz muitos problemas, principalmente se IAs agênticas estiverem entrelaçadas com muitos processos na empresa.
Suponha que o preço aumente 4x em um cenário onde as agênticas dobram a produtividade. A empresa reduzir a produtividade para metade do que fazia apenas com humanos? Vai paralisar quando atingir o orçamento?
Penso em pelo menos três caminhos a seguir:
- Evitar a dependência das IAs mantendo a capacidade de trabalho puramente humano
- Não atribuir às IAs atividades centrais para a produção da empresa. Por exemplo, confiar o marketing para uma IA, mas não a a produção
- Investir na capacidade de processamento de IA localmente e limitar o uso das IAs às capacidades desse tipo de instalação de IA (já falei em IA local no Boletim Cibernético)
Resumindo
Me senti um pouco mais esperançoso vendo que a consciência dos riscos está presente e se propagando.
Minha opinião continua sendo a mesma:
- Faça os testes:
- Esse uso de IA exercita as minhas capacidades mentais e criativas? Siga em frente
- Estou atribuindo atividades que poderiam estar exercitando a minha mente?
- Mas melhora a qualidade?
- Perde qualidade, mas pouco e ganha em produtividade?
- Seja como for: exercite sua mente em outros momentos
Acrescente a avaliação da perda de autonomia: o que acontece se a IA não estiver disponível?


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