Me incomoda muito atribuir à esquerda a responsabilidade de ser progressistas e sustentável, então coloco entre aspas para vir aqui lembrar que, se a direita não tivesse se tornado totalmente delirante, ela também teria que assumir esses dois papéis.

No entanto aqui quero falar sobre algo que venho falando desde 2005 (em outro blog pois esse nasceu em 2008): a esquerda também está delirante.

Calma, você de direita e você de esquerda. Não estou nem dando razão à direita conservadora, imoral, corrupta, anticapitalista (concentração de renda é anticapitalista) e nem dizendo que a esquerda está errada. O tipo de delírio que assola a esquerda é um fatalismo que lhe tira forças para enfrentar o que chamam de direita.

Tenho visto há anos muitas pessoas progressistas, que se colocam a favor de uma sociedade justa e sem miséria, uma civilização sustentável, que denunciam os produtos quase assassinos das indústrias de alimentos, moda, combustíveis fósseis e outras, repetindo coisas como:

  • A humanidade tem que acabar, somos o vírus da vida na Terra
  • Gosto mais de animais que de pessoas
  • O apocalipse climático é inevitável…

A propósito eu mesmo já falei nesse último no outro blog em 2009 no post Esqueça a natureza, preserve os humanos. Na época eu achava inevitável o colapso climático e sugeria que a melhor chance de revertê-lo um dia seria preservando a humanidade. Tem muitos erros nele. Felizmente mudei, espero que para melhor.

Basta ver que, um ano antes (nesse blog aqui mesmo) escrevi no post Não há mais esperança:

“A voz que anuncia o fim dos tempos é o grito desesperado dos impotentes cavalheiros do apocalipse, os arautos do desespero que tentam sobreviver minando nossas forças através do terrorismo.”

Aliás… Um dos posts que me fez ter muito mais cuidado ao falar de formas de influência e manipulação das pessoas já que tanta coisa que eu escrevia acabou acontecendo (mas tenho quase certeza que não foi nos meus blogs que aprenderam! Fui apenas mais uma pessoa a perceber o que estava acontecendo).

O delírio da esquerda

Considere os parágrafos acima como uma introdução.

O delírio que vejo minando as forças do progressismo e das possibilidades de uma civilização ao menos sustentável é uma teoria da conspiração: Os “capitalistas” controlam tudo, manipulam as pessoas para consumir mais, para eleger fascistas, consumir todos os recursos da Terra e só nós, uma minoria que não é ouvida, sabemos que o capitalismo precisa acabar.

Aqui é importante, aliás essencial, dizer que não importa que estejamos agindo em resposta a uma teoria da conspiração e portanto um falso monstro, o que importa é que não deixemos de agir! Digo isso por dois motivos e o primeiro é óbvio: enquanto nos mexemos descobrimos erros e acertos, amadurecemos. Uma hora vamos perceber que estamos como os NPCs de um MMORPG atacando um boneco colocado lá pelo inimigo para distrair nossa atenção.

Humm… Devia falar que o inimigo sequer são os capitalistas (no sentido adotado ultimamente, de proprietários dos meios de produção e não de pessoas que aceitam ser engrenagens do sistema capitalista) e sim… bem… o atual sistema capitalista recém citado nos parênteses e que, assim como no suposto experimento de Stanford, assumiu um tipo consciência que nos faz agir de acordo com o que achamos que “ele” quer de nós. Tanto nós “capitalistas” quanto nós socialistas.

Outra comparação útil é com o filme Matrix, que eu adoraria que tivesse levantado essa questão de uma forma mais clara: os rebeldes contra a Matrix faziam, sem saber, parte do sistema.

“No fim do dia…” Hehehehe! Isso é uma piada interna com quem estuda e trabalha com tradução… No final das contas se miramos no alvo errado gastamos nossas energias sem conseguir qualquer progresso.

A provocação “tradutória” é para lembrar da importância de sabermos o que é da nossa cultura, o que é influência e o que é antropofagia… Essa é uma ótima hora para indicar o vídeo Como mudar o passado (parte de uma série), do Normose e a leitura coletiva de Macunaíma com a Tati Leite do Vá Ler um Livro.

Qual é o alvo para salvar a Terra?

E, se atacar os capitalistas não adianta (mas podem continuar), o que adianta?

Veja bem, a força que desestabiliza a humanidade é o ódio, o medo, a ignorância, a desesperança e aqui estou listando no sentido inverso do que acho que é a gênese do caos moderno: primeiro vem a desesperança e por último o ódio, mas para recuperar a esperança precisamos desfazer a ignorância, para isso temos que enfraquecer o medo e para reconhecer o medo temos que dissolver os ódios.

Também podemos construir em todas as frentes. Uso a palavra “construir” porque há tempos acredito que temos que desmilitarizar as causas humanas e, em vez de combater o ódio, nutrir a empatia que o dissolve. Em vez de armas contra a ignorância, ferramentas para o conhecimento.

E isso nos leva às boas novas que vi há pouco reunidas no vídeo no fim do post.

A ciência é uma ferramenta incrível. Ela foi capaz não só de se desenvolver crescendo lentamente por milênios em sociedades primitivas que matavam com crueldade os que eram diferentes, mas de se tornar a base da civilização atual. Mesmo sendo contaminada e envenenada por esforços constantes de indústrias que ela ia desmascarando como a de tabaco e, mais recentemente, de comida. Chegou a hora de indicar outra fonte excelente: o site O Joio e o Trigo e seu podcast o Prato Cheio.

“Ah! Roney, mas o cientificismo também é ruim pois nem tudo é ciência. Sem a reestruturação social, cultural, produtiva, de consumo e até das tradições religiosas não tem construção de civilização”.

Certíssimo! E por isso me animei a escrever esse post voltando a esse assunto! Só recentemente tenho visto mais gente, como no vídeo mais abaixo, falar da nova ferramenta que estamos construindo e que, como a ciência, vem crescendo há milênios e sobrevivendo a ecossistemas de poder muito mais violentos que o atual. Pensar em Giordano Bruno pode servir de paralelo: ele era uma voz dissonante que se fez ouvir, não pela ciência, mas pela força da sua mensagem.

Estou falando na tão criticada Internet (que escrevo com “I” em caixa alta porque para mim ela devia ser vista como um lugar: Terra, África…) onde, apesar de todos os investimentos em fakenews e técnicas de marketing questionáveis, florescem e se desenvolvem fontes de reflexão, questionamento e construção social genuínas e construídas sobre redes independentes que desenvolvem o conhecimento. E foi proposital que apenas um link nesse post fosse para um veículo de grande mídia.

Vamos resolver a crise climática

Antes de compartilhar o vídeo que me animou a finalmente escrever esse post é essencial destacar: nós falhamos sim. Falhamos em deter a pandemia e foi justamente uma falha social e política que mostrou que ciência sozinha não adianta. Falhamos em impedir mudanças climáticas que já estão deslocando e matando milhões de pessoas e podem atingir bilhões. Falhamos ao mergulhar em mais uma guerra que pode atingir proporções ainda piores (e envolve disputa por energia fóssil e poluente que devíamos estar abandonando) na Europa / OTAN / Rússia. E falhamos em tantas outras guerras, fomes, falta de direitos fundamentais humanos. A lista é grande e todas as falhas estão além das possibilidades da ciência pois são dos domínios das ciências humanas.

A boa notícia é que temos a ciência necessária (e o vídeo comenta um bocado sobre isso) e, graças ao poder da ferramenta ciência, as tecnologias, além de estarem sendo desenvolvidas, estão sendo aplicadas e avanços consideráveis foram feitos para retardar o aquecimento do planeta (tem outros fatores como a energia renovável estar se tornando mais lucrativa) e ainda temos muitas outras tecnologias em vias de se tornar viáveis.

A outra notícia boa é que já sabemos qual é a outra ferramenta que precisamos: Ciências Humanas.

E que nunca nos esqueçamos que milhões, talvez bilhões de pessoas a mais poderiam ser salvas se tivéssemos amadurecido mais cedo, mas infelizmente não podemos voltar no tempo…

Foto do post por Everett Bartels on Unsplash

Vídeo: Nós VAMOS consertar a mudança climática – Kurzgesagt – In a Nutshell

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