Imagem: Captura do site (onde o filme pode ser obtido)

O Documentário The True Cost (disponível também na Netflix) se propõe a fazer uma análise profunda do mercado da moda passando por como ela nos é vendida, como as matérias primas são produzidas e como as peças são construídas, mas acaba nos dando espaço para fazer uma análise profunda do capitalismo moderno.

Vou destacar algumas das informações do documentário para então mergulhar numa análise crítica do capitalismo modernos.

  • Uma em cada 6 pessoas no planeta trabalha na indústria da moda (da agricultura à têxtil)
  • A indústria têxtil é a segunda mais poluente do planeta, atrás apenas da indústria de combustíveis fósseis
  • 40 milhões de pessoas. Esse é o contingente estimado apenas na atividade de costura
  • 10% desses 40 milhões estão em Bangladesh recebendo em torno de US$3,00 por dia de trabalho em condições terríveis porque as leis trabalhistas são cruéis no país e por isso mesmo é lá que a indústria busca mão de obra
  • Nos EUA mais de 80% do algodão é geneticamente modificado para suportar mais agrotóxicos e para impor o monopólio na propriedade das sementes. O quadro é ainda mais cruel em produtores em países em desenvolvimento
  • Nas últimas décadas a indústria de roupas criou o conceito de fast fashion substituindo as quatro estações por mais de 50 nos EUA
  • O consumo de roupas nos EUA subiu 400%

O que é/ o que deveria ser o capitalismo?

Tenho insistido que temos que questionar a própria estrutura do capitalismo. Vivemos uma das maiores transições de paradigma da história da humanidade e estamos vendo todos os conceitos e estruturas sendo rearranjados enquanto as estruturas e quem se sustenta nos conceitos antigos procuram conservar o status.

É hora de repensar profundamente o que é e o que deveria ser o capitalismo. Vou um pouco além do meus discursos recentes e sugerir que deixemos de chamar nossa estrutura econômica de capitalista, pelo menos no contexto desse artigo.

Capitalismo é um sistema econômico fundamentado na geração e fluxo de capital. Não é isso que vemos no sistema econômico que se desenvolveu depois da Segunda Guerra Mundial, ou até da Primeira.

O que temos é um tipo de Corporativismo em que o capital é gerado, mas não flui; ele se concentra em poder de uma parcela cada vez menor da civilização.

Como construir uma sociedade capitalista se ela se divide em três grandes grupos: os ditos 1% (que estão mais para 0,5%) que concentra a maior parte do capital, uns poucos % de consumidores ávidos e uma vasta maioria de produtores de baixíssimo custo/dia?

Em um sistema capitalista e conectado pela Internet veríamos sociedades como a de Bangladesh se organizar para eliminar os intermediários e exportar diretamente seus produtos promovendo uma distribuição de renda cada vez mais equilibrada através do capitalismo.

O que impede isso são principalmente duas coisas: o Sistema Corporativista (e não capitalista) e nossa natureza como máquinas meméticas.

Vamos abrir um parênteses para esclarecer esse ponto porque ele sempre é esquecido: máquinas meméticas

Humanos: máquinas meméticas

Meme aqui nesse blog é o do conceito acadêmico que considera que informação, conhecimento e cultura são regidos pelos mesmos princípios da evolução genética, ou seja, assim como genes competem para sobreviver, se reproduzem e se modificam, também a cultura e o conhecimento se desenvolvem buscando diversidade e sobrevivência.

Nós, pessoas, desenvolvemos uma civilização justamente porque em algum ponto entre 300 e 100 mil anos a capacidade de criar, copiar e disputar culturalmente se tornou uma vantagem competitiva para a sobrevivência dos nossos genes chegando a um ponto em que talvez a evolução da nossa cultura seja mais influente do que a evolução dos nossos corpos (o que não quer dizer que o corpo humano vai “involuir”, certo? Apenas não é mais o fator determinante da nossa espécie).

O resultado disso é que, assim como somos loucos por carboidratos e gorduras (que também foi uma vantagem para nossa sobevivência), comos loucos por diversidade cultural e uma das formas dessa diversidade, talvez a principal, são os adereços que colocamos sobre nossos corpos para construir nossa identidade.

Bem, creio que isso explica as máquinas meméticas no escopo desse artigo. Continuemos as reflexões sobre a necessária transição da economia Corportativista para o que chamarei de Capitalismo Digital (o termo não é cunhado por mim).

Do sistema econômico Corporativista para o Capitalismo Digital

Bem, a primeira impressão é que ele simplesmente não está acontecendo, que a transição de paradigma que já mexeu muito com a propaganda e cenário da política, com a estrutura da mídia, com os pilares das religiões, da moral e das nossas identidades criando uma sociedade cada vez mais fluida e diversificada sequer chega a ser um sopro nas estruturas da economia Corporativista.

Afinal vemos o apego a marcas estabelecidas, vemos uma calça jeans comprada por 50 centavos de dólar receber uma etiqueta e ser vendida por 10 dólares, receber outra etiqueta e ser vendida por 60 dólares.

No sistema Corporativista temos duas massas miseráveis: a força de trabalho explorada e o consumidor ávido por se colocar socialmente mantendo-se na onda memética do momento, seja comprando as roupas ou gadgets mais recentes (vamos incluir carros entre os gadgets), seja consumindo vídeos e imagens que descrevem sua tribo (canais de YouTube, mitos políticos, por exemplo).

Uma dessas massas, como chega a ironizar um apresentador de TV destacado no documentário, gasta o que não tem, para ter o que não precisa e enriquecer aqueles que ela não gosta.

A outra massa, muito maior, simplesmente não consome. Em termos comparativos, simplesmente não consome. Nem produtos, nem cultura, nem educação…

Ops! Correção: cultura todos consomem, todos produzem, somos incapazes de não fazer isso, mas a massa que é mão de obra não consome e nem produz cultura “capitalizável” ou que se converte em capital, exceto quando há apropriação cultural por grandes centralizadores meméticos.

Centralizadores meméticos são como grandes grupos de mídia: por mais que a Internet permita uma vasta e diversificada produção de conteúdo os velhos grupos de mídia continuam sendo como grandes lagos com um alcance horizontal muito maior e portanto disputados por todos.

O mesmo acontece na indústria da moda e pequenas iniciativas que poderiam tanto aumentar a diversidade cultural quanto criar vastas novas áreas de produção de capital e cultura acabam sendo absorvidas por grandes marcas de moda. Muitas vezes com violência, bem, quase sempre.

Além dos obstáculos naturais para ter um grande alcance horizontal é claro que quem detém recursos como capital, contatos e até fazem parte dos mesmos conglomerados industriais, midiáticos e políticos se valem disso para manter o status-quo chegando a eleger políticos tanto em países na periferia da economia Corporativista quando nos países desenvolvidos a fim de impedir ou pelo menos atrasar a transição para um capitalismo de fato, uma economia Capitalista Digital.

E nem falamos aqui na perversidade dos organismos que são propriedade de empresas como a Monsanto que passa a ter a capacidade de praticamente escravizar o agricultor que se vê sem opção além de comprar suas sementes a altos preços, fertilizantes e agrotóxicos que causam grandes danos à saúde dos agricultores e ao meio-ambiente e, claro, os remédios para tratar as doenças causadas pelos agrotóxicos.

Os tentáculos que procuram deter a mudança de paradigma são antigos, estão profundamente entrelaçados na civilização e continuam sendo alimentados com vastos recursos, mas transições de paradigma como a que vivemos são inexoráveis

Por que o Capitalismo Digital é inevitável? E como caminhar para ele?

Foi para chegar nesse ponto que tive que comentar nossa qualidade como máquinas meméticas, se você não leu, por favor, suba um pouco e leia, certo? Mesmo que já conheça o conceito.

Enquanto a economia estava fortemente apoiada na produção de átomos, não havia a possibilidade da automação e nem a facilidade de distribuir a produção pelo planeta era natural que se formasse essa Economia Corporativista e concentradora que vivemos hoje em vez de um Capitalismo de fato (eu sei que muitas de nós odiamos o capitalismo, mas ele me parece inevitável sendo mais fácil humanizá-lo, ainda não escrevi adequadamente sobre isso, mas não se fechem por causa disso).

No entanto, como disse mais acima, o valor de uma calça jeans não é mais definido pelos átomos com que ela é feita, mas com o conjunto de memes são atrelados a ela pela marca. Coisas como “juventude”, “tradição”, “ousadia” ou mesmo “diversidade”.

Além disso grande parte da economia moderna está se movendo para produtos que sequer são feitos de átomos como filmes, vídeos e séries, notícias, músicas e até livros digitais sem falar em nossa atenção e dados comportamentais que compõe o negócio de algumas das maiores e mais poderosas empresas modernas como Google e Facebook.

Claro que continuaremos a consumir átomos, a desejar ter coisas para ilustrar a que tribo pertencemos ou qualidades que nos “diferenciam” (é irônico achar que podemos realmente nos diferenciar em uma civilização de 7 bilhões onde, certamente, haverá milhões com quaisquer das nossas características “únicas”), mas existe um limite para o “mundo natural” como alguns entrevistados se referem no documentário, mas que devemos chamar de mundo real compreendendo que a civilização em essência e de fato é um mundo virtual.

É insustentável um capitalismo de coisas e inevitável o movimento para um capitalismo de bits ou digital em que passemos a encontrar satisfação para nossas necessidades de consumo, reprodução e criação de cultura cada vez mais digital e menos material, o que não quer dizer “deixarmos de ser materialistas” afinal estamos falando aqui de um tipo de materialismo digital… Esse amadurecimento deve ficar para outro momento da transição de paradigma ou até para uma transição próxima.

E como caminhar para um Capitalismo Digital?

Basicamente sempre que eliminamos intermediários, um grupo discriminado se empodera (não digo minoria pois em geral são maiorias como mulheres ou negros. Também não digo “quando os empoderamos” pois já está claro que se as pessoas não forem impedidas elas se empoderam por si mesmas) e pequenos grupos se formam para fomentar, valorizar e desenvolver a cultura local estamos vendo o despertar do Capitalismo Digital.

Sem paternalismos que só restringem o empoderamento, mas compartilhando nossas ideias, experiências e conhecimentos com outros que precisam se levantar a despeito da estrutura do velho paradigma que os pressiona para o chão e replicando em nossos espaços as suas vozes estaremos colaborando para a construção de uma sociedade mais equilibrada, próspera e rica em sua diversidade.

Claro que esse é um caminho com obstáculos incluindo, para os que são definidos como “privilegiados”, ou seja, os consumidores, atravessar a própria mudança de paradigma trocando seus valores consumistas por valores humanos, por cultura, por diversidade.

Temos visto como é difícil para muitos de nós trilhar esse caminho justamente quando todas as estruturas tradicionais se encontram em colapso deixando todas nós inseguras e desejando ardentemente parecer melhores para as outras pessoas e para nós mesmas agarrando os valores antigos.

No entanto é uma questão de sobrevivência. A transição para um paradigma mais fértil para a cultura e para os produtos digitais é inevitável e quem não se adaptar não só sofrerá mais como morrerá mais cedo, produzirá menos filhos.

Felizmente nossa mente é fluida, nosso cérebro é capaz de se reprogramar e não precisamos esperar várias gerações para evoluir: podemos mudar um pouco todo dia e nos tornar pessoas do século XXII ainda nesse século.

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