Considero um pouco perigoso quando nosso critério de autoridade se baseia na indicação de um político e de um empresário.

Depois de ler Sapiens, de Yuval Noah, fiquei incomodado com sua tendência a misturar fatos e evidências com opiniões pessoais o que aproxima seu pensamento do jornalismo pseudocientífico.

Nessa entrevista não é muito diferente.

Primeiro vou deixar bem claro que concordo que a crescente influência de sistemas de Inteligência Artificial (como os robôs do Twitter que apoiam candidatos políticos) e o conhecimento desenvolvido sobre a civilização através de Big Data por empresas como Google, Apple e Facebook são perigos reais.

No entanto Yuval escorrega em vários pontos.

O primeiro é ao falar nos perigos individuais quando essas empresas não estão interessadas em mim ou em você, mas em desenvolver conhecimento sobre o funcionamento de massa de acordo com diversos indicadores.

Um exemplo disso é quando você pensa em um produto, sem falar dele ou buscar por ele online, e começam a aparecer propagandas daquele produto. Provavelmente o que aconteceu é que o robô de marketing acabou de enquadrar você (corretamente) num grupo de interesses.

Transformar esse fenômeno em ameaça pessoal é uma boa forma de vender livros, mas péssima ferramenta para prever o futuro ou decidir como conduzir nosso desenvolvimento.

É importante notar que você não percebe nada quando ele erra. Essas IAs ainda estão muito longe de serem eficientes. Se fossem Trump não teria vencido as eleições já que os maiores poderes do Big Data não queriam sua eleição.

Outro ponto em que Yuval muito provavelmente está errado é na substituição de trabalho humano por robôs. Tudo indica que por muitas décadas, talvez para sempre, teremos uma simbiose entre humanos e IAs.

Estamos diante de um momento de ruptura sem precedentes ao mesmo tempo que enfrentamos o que talvez seja a maior ameaça de extinção nos últimos 100 mil anos: a mudança climática. Sem Inteligências Artificiais trabalhando colaborativamente com Humanos podemos não superar esse desafio.

Mas voltando a Yuval. O conceito de homo deus, além de apelativo (homo digitalis talvez seja mais adequado), deve ser observado com mais responsabilidade.

Ao lado da inteligência artificial caminham robôs industriais, além disso temos o fator memético (que ele cita em seu primeiro livro) que precisa do máximo de “máquinas de memes” para se desenvolver.

Ou seja, para a indústria, para a economia e para obedecer a impulsos meméticos é muito provável que toda a civilização se torne homo digitalis.

Os “códigos” que nos controlam seriam outros, e não seriam novidade.

Toda cultura, todo impulso cognitivo é um código que nos controla. Foi isso que nos tirou, como ele observa corretamente em Sapiens, de uma situação superior (caça e coleta) para uma inferior (agricultura).

Esses códigos levam culturas estrangeiras e internas a entrar em conflito obedecendo ao instinto humano e memético de competição do mais apto e do mais adaptável.

Os maiores desafios que nossa civilização enfrentará em virtude do Big Data e da simbiose com máquinas muito provavelmente está além do nosso horizonte no momento. Yuval tenta ver além dele e, ainda que isso seja útil, não deve ser tratado com mais urgência do que os desafios dentro do alcance da nossa visão.

O historiador Yuval Noah Harari, um dos pensadores do momento, reflete sobre como a inteligência artificial e o ‘big data’ transformarão a natureza humana

Source: “Facebook e Apple poderão ter o controle que a KGB nunca teve sobre os cidadãos” | Internacional | EL PAÍS Brasil

Salvar

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais