A evolução segue seu curso regida primeiro pelos genes que, num impulso natural e inconsciente, criam organismos cada mais mais complexos e adequados a perpetuar sua variação, hereditariedade e seleção.

Nossos mares foram um verdadeiro caldo de vida por milhões de anos até que houve a explosão de diversidade que saiu dos mares e se espalhou por toda a Terra.

Desde que os seres criados pelos genes começaram a desenvolver a capacidade de processar informações outro maestro passou a interferir na sinfonia da vida, o Meme.

O fato de termos criado uma civilização, idiomas, livros e diversas tecnologias para permitir que os Memes variem, transmitam hereditariedade e sejam selecionados é uma prova de que há no planeta duas forças conduzindo nossa evolução. E o Meme se tornará a predominante em algum momento.

Hoje temos um novo mar onde a “vida” memética evolui, o mar das tecnologias da Informação e, com a criação da Internet ele começou a transbordar assim como aconteceu com os Genes e eventos como a Campus Party são ricos poços de vida memética onde os seres mais expostos ao seu fluxo de informação se reúnem.

Sei que essa é uma introdução longa e esquisita para o assunto, mas tenho visto tantas espectativas sobre a Campus Party que decidi mostrar como a vejo antes de dizer porque discordo com as afirmações de que ela está vazia de interação ou de consciência.

Vendo do ponto de vista evolutivo um acontecimento como esse não é equivalente a um forum mundial social, mas meramente um espaço neutro onde todo e qualquer Meme tem chance de se reproduzir ou se extinguir.

Por exemplo, antes do Lawrence Lessig falar a favor da cultura Read/Write e contra a cultura Read/Only notei que praticamente todos os campuseiros se distraiam com jogos. Bem, alienação ou sinal de que as ciberpessoas começam a preferir o lazer read/write dos jogos à observação passiva dos filmes e seriados read/only?

A interação entre os campuseiros através do chamado grito de acasalamento (Oooo-Oooo) é uma demonstração de ligações fracas ou de que as tribos isoladas querem buscar símbolos comuns?

Demorei a escrever sobre a Campus Party justamente por perceber que precisarei de muita reflexão e pesquisa para construir uma opinião que respeite essa subcultura que, tenho certeza, será a principal influenciadora dos novos paradigmas.

Durante os 5 dias que participei da festa mal entrei na Internet preferindo me conectar a pessoas e o que vi antes de mais nada foi uma predisposição generalizada em interagir. Depois notei que uma grande parte de quem estava ali era de regiões distantes do país aproveitando para encontrar outros com interesses em comum como é o caso do campeão e o vice campeão mundiais de casemod que moram em cidades pequenas onde certamente não encontram muitos outros casemoders. Ou o caso do pessoal de robótica da Universidade de Guarulhos que colecionam troféus, mas é ali que encontram centenas de novos interessados em robótica.

Vi também que eu não era o único que vagava entre as mesas me expondo aos memes de cada tribo. Talvez as pessoas fossem conduzidas apenas pela curiosidade ou pela possibilidade de lazer (principalmente na área de games), mas estavam ali misturando suas ideias com a dos outros e isso basta para promover a evolução.

Sob uma análise lógica e considerando que os humanos possuem uma consciência autônoma e não uma ainda conduzida por seus instintos pode-se considerar a Campus Party uma triste demonstração de alienação e de falta de mobilização política (e concordo que haveria jeitos de mudar esse quadro), mas os humanos não possuem esse tipo de consciência, pelo menos não na maior parte do tempo e nada nos marca mais do que o que nos dá prazer e é isso que atrai essas ordas de ciberpunks para o pavilhão Imigrantes: o lazer.

Apesar disso e da impressão de que a única coisa comum a todas as tribos era a preferência por se distrair com jogos arrisco afirmar que era uma só tribo com diversas facetas ainda mal lapidadas, mas em franco processo de lapidação ali mesmo naqueles corredores.

Digo que é uma única tribo pois a linguagem é a mesma, os códigos de comportamento são os mesmos e, enquanto ouvi reclamações sobre o caos do forum social, ali francamente, havia um tipo de harmonia ou pelo menos equilíbrio, aliás, maior do que no ano passado.

É claro que não é fácil perceber o que 6 ou 10 mil pessoas estão pensando e posso estar errado, mas isso o tempo dirá.

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