A cooperação é um dos principais fatores determinantes do nosso sucesso como espécie e entender os dispositivos que a tornou possível é essencial para entender nossa própria consciência, mas um desses dispositivos pode ter um papel mais decisivo para a construção da nossa estrutura social e das bases que nos fizeram uma espécie capaz de criar uma civilização.

Existe uma lista formal de 5 dispositivos evolutivos para o desenvolvimento da cooperação.

  • Reciprocidade direta: eu te ajudo, você me ajuda
  • Reciprocidade indireta / reputação: eu te ajudo, alguém me ajuda, talvez porque você é popular.
  • Seleção de parentesco: se tenho o impulso de me sacrificar pelos meus parentes preservo os genes que me fazem ter esse impulso
  • Seleção espacial: pode ajudar a entender cooperação inter-espécies. Entre humanos pode estar na raiz das nossas redes sociais (online e offline; realmente devíamos deixar de separar as duas)
  • Seleção de grupo: você se torna mais forte ao favorecer e até correr risco de morrer ajudando a sua tribo.

Me sinto inclinado a ver dois dispositivos no segundo item: reciprocidade indireta e reputação.

A reciprocidade indireta produz grupos mais fortes, mas a reputação é um dispositivo que favorece o indivíduo cuja habilidade não é física, mas social. Ele é capaz de se aproximar dos mais influentes beneficiando-se assim de um pouco das suas vantagens.

Colaboração em troca de reputação é uma forte característica dos símios e nós provavelmente sejamos os mais eficientes nela. Pode ser que esse tenha sido o fator que aumentou nossa identidade individual culminando na criação de nomes, títulos e complexas hierarquias.

No entanto, ainda mais importante que isso, essa pode ser a chave para entendermos porque somos máquinas meméticas tão eficientes e seres tão sociais que derrubam as barreiras entre tribos e culturas.

Também ajuda a entender a cultura da sub-celebridade e porque ela atrai tanto uns e incimoda tanto outros, mas deixarei isso para outro artigo.

Antes torna-se necessário explicar o suposto funcionamento desse mecanismo.

Há milhões de anos tínhamos os indivíduos populares por serem mais fortes e, portanto capazes de trazer mais alimento para o grupo e defendê-lo e os indivíduos que disputavam para ter o privilégio de fazer parte do seu séquito (esses dois grupos não representam 100% dos indivíduos, creio que podemos isolar nesse momento os outros dispositivos de cooperação).

Que tipos de serviços poderiam ser oferecidos pelo séquito? Todos podem coçar, tirar pulgas ou dar banho, mas é necessário saber conquistar a confiança do líder e algo que os outros não possam.

Milhões de anos mais tarde vimos os bobos da corte e vassalos que ofereciam histórias, informação e estendiam a rede de reputação dos seus líderes ao propagar sua fama.

Podemos imaginar que ouve uma linha evolutiva onde, gradualmente, o séquito passou a oferecer cada vez mais vantagens ou serviços sociais e meméticos (ou culturais) para se diferenciar dos demais indivíduos.

Temos agora, entre as questões que se impõe:

  • Quem é o líder a ser agradado pelo séquito?
  • Como as redes sociais se ajustam a esse alvo competitivo?
  • Quais são os serviços culturais que conferem vantagem competitiva?

Referências

  • Artigo de Martin A. Novak na Scientific American de julho de 2012

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