Aula com Thiago Novaes.

Texto de apoio: Inventar a Gratuidade

Como me faltou tempo para ler o texto antes de assistir a apresentação das ideias do Thiago decidi que vou comentar a aula antes de ler o material acima e a extensa bibliografia sugerida por ele durante a exposição.

O que ele nos apresentou foi um trabalho em andamento, uma reflexão sobre os conceitos de mercadoria e dádiva ou eu diria, bem comercializável e bem comum.

Ninguém cobra pela luz do sol, pela… … Bem houve um tempo em que não se cobrava pelos recursos naturais que existiam em abundância como a água, o ar, o nosso código genético, nossa cultura e outros recursos que existiam sem que alguém tivesse que trabalhar para produzí-los.

Sim, eu sei que cultura não acontece sem trabalho, mas tenho a tendência de contestar isso, e creio que o Thiago Novaes também.

Conforme Thiado a dádiva contrapõe  a reciprocidade, a memória, a história, as relações sociais e a representação pessoal à funcionalidade técnica e de relação entre coisas da mercadoria.

Bem, nesse caso a Apple está ai para nos lembrar que não existem mercadorias… Ou pelo menos que as coisas que são mercadorias não são capazes de acumular valor suficiente para sustentar uma sociedade de consumo, mas essa é uma opinião minha que entra bem em conflito com a do Thiago.

Se os principais produtos de consumo são experimentados como dádivas (iPhone, Macs, iPods, BMWs) eles não podem ser gratuitos como nos sugere o bom senso (e os movimentos modernos da cibercultura assim como a necesidade de livre reprodução e modificação dos memes) sem que a economia se modifique totalmente dando fim ao capital, ou há outro cenário possível que não estou vendo?

No momento aposto mais em uma nova ética onde as mercadorias serão distribuídas livremente e o usuário pagará o valor que ele crê que ela tem, mas essa é uma cultura muito difícil de imaginar em bens materiais.

Temos que lembrar que o preço artificialmente alto é um dos fatores culturais que valorizam uma mercadoria e, sinceramente, não vejo uma tendência das marcas perderem seu poder no imaginário humano apesar de imaginar que a exigência de qualidade também cresça. Os Sony Vaios são um exemplo similar aos Macs no mundo PC.

Voltando à aula…

Creio que para buscar uma ligação da produção humana com as dádivas o Thiago parte de uma premissa muito feliz: a reprodução assistida.

Se hoje podemos comprar óvulos ou semen, se podemos alugar barrigas para criar nossos filhos e chega-se a extremos como o do Michael Jackson que supostamente teria alugado uma barriga para gerar um filho com o sémen do Macaulin Calkin que seria dele então a relação de herança genética está sendo superada pela de herança memética que no caso o Thiago chamou de experiência (acho impressionante que ninguém fale em memética mesmo quando a pesquisa se enquadra tão bem no conceito! Talvez o míope seja eu e a teoria toda seja uma tolice! Hehehehe!).

Quando enxergamos o DNA como bem comun e passamos a entender que podemos ser majoritariamente definidos pela experiência então muito mais do que as leis terão que ser mudadas. Em uma extrapolação do raciocínio (se acompanhei bem) todo o conceito de propriedade e valor precisa ser colocado em cheque.

Parece-me que para Thiago Neves a produção cognitiva (mas lembro que o design e outros valores que se agregam às mercadorias também são produções cognitivas) não pode pertencer a ninguém, ou melhor, tem que pertencer a todos e assim ser livremente distribuída e, nesse caso, o copyleft seria o modelo perfeito e futuro que devemos almejar, mas não consegui perceber como seria resolvido o problema do capital.

Durante toda a aula falou-se muito na questão da produção de dinheiro para pagar as necessidades básicas (comida, moradia, saúde, lazer), mas já começo a me questionar por quanto tempo o capital girará em torno do dinheiro. Só não consigo pensar em uma “moeda” de troca que substitua.

No entanto, do ponto de vista de unidades de informação (memes) que precisam de um meio onde possam ser criadas, reproduzidas e modificadas livremente entendo que seja necessário que os humanos não precisem gastar tempo criativo com besteiras como “ganhar 100 dinheiros para comer hoje”

Algumas frases que anotei:

  • Temos a centralidade da técnica no contemporâneo
  • A pessoa é um conceito centras no pensamento do Thiago
  • DNA é informação, é bem comum
  • De acordo com o Intelectual Property Watch 70% do nosso código genético foi patenteado (como???)
  • Somos definidos pela experiência (citou Gattaca, o melhor filme de ficção da década de 90)
  • A pessoa tem filiação materna e social
  • Comparação da alma exterior em relação ao tótem indígena e a troca de arquivos online
  • Estamos testemunhando um avanço exponencial da produção da consciência
  • A lei brasileira compara a produção da consciência a bens imóveis
  • A linha de produção aliena subjetivamente enquanto o trabalhador não tem visão do conjunto e objetivamente quando ele não tem como obter o produto final
  • O robô ou ciborgue, preparado para para executar todo trabalho para o qual foi desenvolvido não é o modelo ideal e sim o mais aberto a mudanças (lembrei do projeto Oxygen do MIT)
  • Nota minha: a obsolescência programada pode ser criada pela necessidade memética de modificação
  • Copyright é a naturalização das idéias (e nasceu em função de Mozart)
  • Em 1850 surgiram os editoriais de jornais cujo objetivo era criar uma opinião pública domesticando a opinião popular. Com o advento da comunicação global e principalmente a Internet vê-se um resurgimento da opinião popular (uso as palavras pública e popular com sentido óbvio, mas não sei se está no sentido acadêmico correto).

Bibliografia

Me lembrem de catar os links.. Agora tenho que ir a um aniversário…

  • Entre a dádiva e a mercadoria – Marcel Mauss
  • Hightech Gift Economy: Richard Barbrook
  • Futuros Imaginários, das máquinas pensantes à aldeia global – idem
  • Uma ética para a civilização tecnológica – Hans Jonas
  • O Gênero da Dádiva – Marilyn Strathern
  • Do modo de existência dos objetos técnicos – Simondon 1958
  • Nova Monadologia – Jean-Clet Martin
  • Sociologia de um gênio – Elias, Norbert
  • A subversão do princípio da publicidade – Habermas (Thiago considera essencial)
  • Profanações – Giorgio Agamben (dica de @luiza_alguma_coisa)

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais