A quarta aula do curso de extensão do Pontão Eco da UFRJ foi com Giuseppe Cocco.

Foi uma aula difícil para mim, que não tenho muita intimidade com as teorias econômicas e por isso mesmo uma das mais úteis e a primeira a estudar mais atentamente alguns princípios do conceito de capitalismo cognitivo.

Material de apoio

A crise da produção intangível

Giuseppe focou sua fala em quatro pontos básicos: a crise financeira, trabalho X emprego, cultura e multidão.

Partindo do consenso de que a crise atual é equivalente à de 1929 no que diz respeito à intensidade das transformações que o sistema econômico terá que passar e observando que até agora não houve uma depressão como a de 29 somente porque houve uma injeção de capital sem precendentes no mercado financeiro, ele passou refletir sobre as diferenças entre as duas crises.

Em 1929 a crise foi causada pelo excesso de produção e a consequente incapacidade do mercado de absorver tantos bens de consumo enquanto na crise atual está ligada à má avaliação não da produção, mas do crédito.

Essa situação, se entendi bem, pode ter sido causada em parte pela dissociação entre trabalho, emprego e produção de bens tangíveis visto que já não há uma clara equivalência do tipo operário monta carro -> indústria vende carro -> consumidor compra carro.

A economia cognitiva e os produtos intangíveis colocam a cultura no centro da economia, cultura no caso dentro do conceito de memética, ou seja, o valor de um óculos, por exemplo, não é definido pelo somatório dos seus custos, mas pelo valor cultural do seu design ou até mesmo somente da sua marca.

Isso também cria um número cada vez maior de trabalhadores sem emprego, como nota-se, por exemplo, no fato do ABC Paulista ter 50% da sua economia centrada no setor industrial em 90 e 75% no cerciário em 2003. Fenômeno que ocorre não porque a indústria se retraíu, mas porque o setor terciário cresceu desproporcionalmente.

A questão do trabalho terceirizado, apesar de importante, não me parece ser o núcleo da crise atual.

Depois de ouvir Giuseppe Cocco e ler alguns dos seus artigos (preciso ler mais) me ocorreram duas coisas.

Em primeiro lugar a economia está construída sobre o equilíbrio entre oferta e procura, ou seja, criação de riqueza poder de consumo dessa riqueza.

No entanto quando um óculos que é produzido por X pode ser vendido por 100X, 1000X graças ao valor agregado a ele por mera cultura ficamos diante de um problema pois a geração de riqueza não está mais ligada ao valor do bem.

É claro que isso acontece a muito tempo, mas o que acontece quando a riqueza sequer é tangível e pode ser reproduzida infinitamente?

As indústrias de jogos eletrônicos, filmes e músicas estão entre as maiores da atual economia (creio que ainda perdem para a de armas) e estão totalmente digitalizadas podendo ser reproduzias sem limites.

Como fica a economia quando a oferta é infinita? O preço do produto tende a zero? Criamos uma nova moral como a explorada por grupos como Calipso, Radiohead e os do circuito tecnobrega?

Giusepe Cocco sugeriu que a crise atual só poderá ser resolvida com uma nova forma de capitalismo e que as tensões dessa transição, assim como as de 29 que criaram o estado nasista, podem não ser resolvidas facilmente.

O modelo de capitalismo atual está moldado no princípio da carência (e isso tiro de Sérgio Amadeu) enquanto a economia cognitiva parece funcionar em um ambiente de oferta infinita.

Vou me esquivar de tentar uma proposta de novo modelo de capitalismo, mas me sinto inclinado a concordar que ele será tão diferente do atual quanto este difere do mercantilismo.

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