Tenho adiado esse post por entender que minhas ideias estão incompletas, mas decidi que é hora de colocá-las à prova da transcrição para um texto organizado e para a opinião de outros.

Demofobia no contexto que vou explorar a seguir é o preconceito contra o “povão” e um impulso de se considerar parte de uma elite dentro do seu próprio país.

Tenho estudado televisão (não gosto de assistir, mas o esforço é necessário) por entender que ela ocupa o papel central na construção do tecido da sociedade, ou seja, ela tem a presença suficientemente universal para levar os mesmos códigos culturais a cada grupo social.

É claro que a Internet já cumpre um papel importante no agrupamento de certas minorias, inicialmente as chamadas nerds ou geeks, mas grupos de meninas adolescentes que gostam de maquiagem e Hanna Montana também encontram na Rede um ponto de encontro mais eficiente que a TV.

Entretanto esses grupos se integram a outros maiores e isso é essencial para nos sentirmos parte da sociedade e até parte da civilização conforme alguns símbolos se tornam universais, como o X-men ou o Homem Aranha.

No Brasil (e provavelmente também nos EUA, Inglaterra, Itália, França e muitos outros) temos uma clara plarização entre as classes consideradas privilegiadas e as classes C, D e E definidas como povão e frequentemente acusadas de serem responsáveis (e alvo) da programação vulgar da televisão.

Sabemos que o canal de televisão mais assistido do país, inclusive no restritíssimo nicho das casas com tv por assinatura, é a Rede Globo. Portanto os “privilegiados” e os “diferenciados” estão conectados não só pelos mesmos programas, mas também pelo mesmo canal.

Big Brother, novelas, Zorra Total e similares em outros canais ao que parecem atraem o mesmo percentual de expectadores em cada um dos grupos.

Ao mesmo tempo não é difícil pegar um trem na periferia do Rio e esbarrar com pessoas das classes C, D e talvez E discutindo política, física e energia nuclear com boas bases de informação (eu mesmo testemunhei isso).

Essa longa introdução é para chegar às perguntas à seguir:

  1. Nossa população está emburrecendo?
  2. A TV é projetada para emburrecer o povo?
  3. Como evitar que a TV emburreça o povo?
  4. Se a maioria de nós vê os mesmos programas que “o povo” estamos emburrecidos?

Me parece claro, antes de mais nada, que, no esforço de nos sentirmos especiais e privilegiados cedemos a uma demofobia que nos leva a diminuir pessoas que não são diferentes de nós.

Também desconfio que há uma transferência de responsabilidade: assim como alguns grupos religiosos culpam deuses pelo que acontece de ruim pois são incapazes de assumir a própria responsabilidade, nossa sociedade se esforça em responsabilizar a TV (principalmente a Globo que detém um certo monopópio técnico) por o restante das pessoas não viverem de acordo com a NOSSA opinião.

A demofobia já pode ser notada inclusive em outras camadas econômicas da sociedade criando uma extratificação por outras regras: povão deixa de ser medido pelo poder aquisitivo para ser medido por “participo ou não da cultura popular”.

Há riscos bem óbvios nisso. Não se trata de nacionalismo, mas é importante que os grupos sociais tenham culturas em comum pois temos longa programação instintiva de conflito entre tribos, tensão que pode ser intensificada pelo movimento de espectro mais amplo em direção a uma aldeia global para atender às necessidades de propagação da cultura (memes) ou pelo menos em decorrência do estreitamento das distâncias pelas tecnologias de comunicação.

Como disse no início. Essas são ideias em andamento e receio que estejam bem mal organizadas, mas ainda tenho uma reflexão a deixar aqui para alimentar reflexões futuras.

Que rumos podemos esperar que a TV siga em resposta a essa demofobia? Tendo o objetivo de atrair audiência para auferir mais lucros, ela criará cada vez mais nichos em suas grades de programação fortalecendo a fobia ou algum dispositivo da sociedade acabará promovendo um caminho oposto?

Ok, esse é um jeito completamente nonsense para terminar esse post, mas desde que pensei em escrevê-lo estou com essa música na cabeça, afinal a sociedade será muito mais madura quando todos percebermos que cada um de nós tem uma rico e brilhante universo interior, então…

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