Esclarecimento: minhas especialidades são nas áreas de teoria da informação e esse post discute o que nós, que somos organismos meméticos (que se desenvolvem criando, replicando e modificando informação, conhecimento e comportamento) precisaríamos para sobreviver e florescer em ambientes em profunda transformação cognitiva como a humanidade no século XXI. No entanto a mente humana tem suas especificidades e as ideias que trarei aqui terão que ser analisadas e alteradas sob os crivos da pedagogia e psicologia.

Esclarecimento 2: Quando comecei a escrever esse post pensava apenas na importância de uma educação adequada para encontrar um emprego, mas os dois vídeos do WhyMaps (agora no canal COTEC) anexados no final me fizeram perceber que o problema é muito mais sério: a economia global não se sustenta se não prepararmos as classes médias para se moverem para um sistema de qualificação focado em atividades de alto nível humano (em contraste aos limites das inteligências artificiais). Diante disso reflexões como as que seguem se tornam essenciais. Faça as suas também.

O Desafio do ambiente

Isso já é bem conhecido: as profissões atuais podem não existir quando os jovens saírem da faculdade, os conhecimentos aprendidos nos níveis fundamentais provavelmente não nos preparam nem para os estudos universitários do futuro e muito menos para as profissões novas que vão surgindo conforme a civilização se reconfigura.

Da estrutura política até a estrutura econômica, das instituições que conectam as pessoas às culturas que alimentam a diversidade humana, da moral à ética e até mesmo conceitos básicos como identidade e sexualidade estão se reconfigurando.

Temos, então, que talvez o maior desafio do ambiente seja justamente sua fluidez… Na verdade, enquanto escrevia esse post, saíram os dois vídeos do WhyMaps/Cotec adicionados no final e percebi que estava sendo otimista em minha análise esquecendo um aspecto ainda mais crucial: a substituição de todo trabalho que envolve apenas inteligência por robôs. Lembrando que um software como o filtro de timeline do FaceBook também é um robô inteligente.

Sendo assim podemos dizer que o maior desafio emocional do ambiente é sua fluidez, mas o maior desafio prático é a nossa preparação para lidar com as atividades humanas que se tornarão as principais posições de trabalho nos próximos 20 anos.

Felizmente esse post é justamente para lançar algumas sugestões de ferramentas cognitivas para nos ajudar a desenvolver as 5 principais competências para o futuro listadas nos dois vídeos do COTEC (passei a limpo no final).

Destaque: A economia que ainda financia a política e a mídia persiste sendo a da revolução industrial levando a políticos que procuram um retorno à estrutura de ensino pré Paulo Freire sacrificando o estudo de filosofia e sociologia que são justamente essenciais para a próxima fase. Quem tem menos de 40 anos precisa tentar impedir esse retrocesso a todo custo. Quem tem mais de 40 e não é um monstro egoísta também.

Ferramentas para uma mente mutante

Não vou enrolar agora, vamos direto ao assunto.

São cinco as competências que acredita-se que precisamos desenvolver, mas como seria um ensino capaz de potencializá-las? Mais importante, há algo que possamos fazer enquanto os governantes não são acordados para o que pode ser o nosso maior problema?

Confissão de erro: Há anos digo que a recuperação do equilíbrio climático é o nosso maior problema porque é o único que pode realmente nos levar à extinção, no entanto percebo agora que para entendermos nosso clima e fazer as mudanças tecnológicas e, principalmente, sociais precisamos antes de um novo viés, uma nova forma de ver o mundo e isso só vem por uma educação que nos permita ser mais flexíveis, mais mutantes.

Outro ponto importante é que ser mutante não é da natureza humana, não no nível que precisamos ser agora, como falei no vídeo Novos Mutantes e o Medo da Morte.

Então precisamos de ferramentas, antes de mais nada, que nos torne capazes de ser mais mutantes e, depois de ferramentas que nos ajudem a desenvolver a mente mutante que passamos a ter.

Como se tornar um mutante

A percepção de identidade me parece ser o nosso maior obstáculo para sermos mutantes.

Há muito tempo, na Universidade Holística, fiz um exercício em que éramos convidados a listar nossas características mais importantes, uma por ficha.

Aliás faça isso mentalmente, pode imaginar que cada característica está gravada em um pequeno tijolo de madeira. Pense calmamente em como cada uma delas vão compondo quem você é, quem os outros pensam quem você é e quem você deseja ser.

Pode parar de ler e dedicar um tempo a isso. Olhe pela janela, coloque um vídeo de um drone sobrevoando uma floresta, o que for bom para te ajudar a viver esse momento intensamente.

Feito? Selecione o parágrafo abaixo para ver a instrução seguinte.

Uma a uma atire-as ao fogo de observe-as desaparecendo e imaginando quem você é se não tem mais aquilo.

Mudar é uma pequena morte, como aprendi com Erich Fromm em Medo à Liberdade (infelizmente só achei em Inglês), mas é claro que mudamos e gostamos de mudar algumas coisas. O que é difícil, e essencial nesse momento, é mudar certos pilares que usamos para nos definir.

São pontos que temos muita dificuldade em olhar criticamente com medo de perder nossa identidade. Um exemplo bem comum é o da fé. Muitos de nós tememos a ciência por medo dela tornar nossa fé inviável ou até de ver a Lua como um corpo de rocha e ela perder seu encanto poético.

No entanto estamos sentados sobre um formigueiro e se não mudarmos conscientemente podemos rolar para um formigueiro pior quando as picadas começarem a doer demais.

Tornar-se um mutante na verdade é um caminho um tanto individual. Um tanto porque pode ser que as pessoas ao seu redor tenham outro caminho, mas certamente há milhões de outras pessoas que seguem a mesma trilha.

Contudo suponho que todos os caminhos passem por dois enquadramentos cogntivos:

  • Consciência de que precisamos mudar: serve também para mudanças menores como parar de fumar ou passar a fazer exercícios. Essa consciência vem pela compreensão que, sem a mudança ficaremos cada vez mais desconfortáveis, mudaremos de qualquer jeito para pior, então é melhor assumir a mudança conscientemente;
  • Perceber nossa personalidade como uma viagem. Esse ponto merece mais do que um item em uma lista.

Quando fiz o exercício lá em cima percebi que o que tenho de mais precioso é o privilégio de estar “assistindo” a vida acontecer. Digo assistindo entre aspas porque a capacidade de observar é o ponto central, mas também participamos do que estamos testemunhando.

Essa pessoa somos nós: a pessoa que experimenta a vida, a pessoa que viaja pelo mundo e vê sua percepção da própria cultura mudar, sua percepção de si mesma mudar, mas que mantém sua identidade através das memórias e experiências que acumula e não pelos hábitos, ideias e características que temos em um dado momento.

Um exemplo pessoal: até os 20 e bem poucos anos eu era uma pessoa que se atrasava. Não sabia bem por que fazia isso, mas me atrasava facilmente 40 minutos até um dia que encontrei com um amigo resignado sob os pilotis de uma universidade onde me aguardava a quase uma hora. Naquele dia percebi que não queria mais ser aquela pessoa e acabei mudando. Hoje desconfio que a resistência é porque eu associava meu atraso à minha tranquilidade. Bem… Não deixei de ser uma pessoa tranquila, mas tinha medo inconsciente de deixar se não me atrasasse. Não seja essa pessoa 😉

Outra forma de desenvolver uma mente mais preparada para mudar é pela prática de meditação, inclusive a recente “atenção plena” que já comentei no vídeo Atenção Plena (duh) porque ela nos ajuda a perceber que somos quem testemunha nossos pensamentos e não os nossos pensamentos em sim e assim nos deixa mais… desapegados do que pensamos e livres para pensar de outras formas.

Recapitulando: Perceber que nos tornarmos mutantes é essencial e contornar o nosso medo de mudar percebendo que nós somos a mente que observa quem somos a cada momento…

Isso ficou claro? Se não ficou reclame nos comentários que edito e melhoro. Todo post é um texto vivo!

Como desenvolver a mente mutante

Uma vez que estejamos prontos para nos tornar mutantes vamos precisar de ferramentas cognitivas para exercitar essa fluidez.

Uma pessoa pedagoga poderá falar em formas de apresentar a matemática, por exemplo, e torço para que seja pedagogicamente viável ensinar que o nosso entendimento da matemática se transforma porque essa foi uma das grandes raivas da minha infância: primeiro me disseram que os números entram inteiros positivos, depois que podiam ser também inteiros negativos e acabou, mas aí vieram frações, irracionais, imaginários… Queria muito que me falassem que iam ensinar aquela parte e que depois abriríamos uma lente para revelar novos tipos de números.

Recorro a essa memória porque é a primeira ferramenta que vejo para exercitar uma mente analítica mutante: encarar todo conhecimento como transitório ou parcial.

Claro que números inteiros existem e não deixarão de existir, assim como a Terra é esférica, mas eles podem se expandir assim como podemos perceber que a Lua é do mesmo material da Terra porque as duas talvez tenham sido uma sinéstia.

O conhecimento é cumulativo, mas se acumula indefinidamente e pode ser revisitado e testado sempre.

Se não compreendemos o conhecimento de que a Terra é esférica devemos retornar a ele para consolidar nosso próprio conhecimento.

Desculpem por usar a questão da “esfericidade” da Terra, mas acho que é necessário invocar aqui um dos delírios mais sem sentido da atualidade para lembrar do risco de uma mente mutante sem outras ferramentas básicas que garantem que o pensamento seja fluido, mas racional.

E quais seriam as ferramentas básicas para uma mente mutante além da concepção de que o conhecimento é parcial e transitório? Bem, do meu ponto de vista são áreas de estudo bem claras e definíveis como:

  • Filosofia devia entrar nos currículos escolares nas menores idades possíveis, ou até algum tipo de proto-filosofia já nos primeiros contatos com a escola… Na creche? 😉
  • As matérias básicas atuais (da matemática à biologia passando por história e línguas) apresentadas não como conjuntos de regras ou dados, mas estruturas vivas. Como surge uma língua? Como funciona nosso metabolismo?
  • Interdisciplinaridade: Todas as áreas do conhecimento tem pontos de conexão como cibernética e biologia, matemática e linguística só para falar de algumas relações binárias, mas lembrando que geralmente todas as áreas do conhecimento se juntam para dar significado e explicar cada fragmento de conhecimento.
  • Colaboração: a mente mutante sozinha está fadada a ser uma mente delirante. Precisamos compartilhar nossas percepções e ideias uns com os outros observando que todos temos áreas em que temos mais facilidade (rejeite o preconceito de que, se é bom em uma área, como números, será ruim em outra, como palavras) e podemos potencializar nossas competências e desenvolver as secundárias colaborando.
  • Arte é essencial, claro, mas não limitada ao prazer estético e sim para ser vivenciada também em seus aspectos perturbadores. Nunca apenas como expectadores, mas também como construtores de arte. Costumo dizer que A Arte é o Ar que a Consciência respira. Mas as ciências também podem ser vistas pelas lentes da arte.
  • Psicologia evolutiva. Eu gostaria de dizer memética, ou seja, entender como a consciência e culturas se desenvolvem por dispositivos semelhantes aos dos genes, mas receio que estaria sendo tendencioso, então coloco o estudo antropológico da nossa consciência levando em conta a nossa evolução. Precisamos entender que nossa natureza nos torna suscetíveis a falácias, vieses e percepções comprometidos com nosso ambiente evolutivo e não com o ambiente atual.
  • Games… Sim… Desde as primeiras reflexões que me trouxeram a esse post pensei que games precisam fazer parte da nossa educação mutante. Em primeiro lugar eles são um elemento estrutural e inevitável na civilização (comecei a perceber isso em 2013 e comentei em A Realidade está quebrada) e devem ser compreendidos assim como devemos compreender que características nossas nos tornam vulneráveis à propaganda fascista.

Essa não é uma lista exaustiva e nem mandatória, é um primeiro esboço de ideias já que ainda não consegui me reunir com especialistas do ensino e outras áreas para testar e multiplicar ideias.

E as questões imediatas? Ensino demora 20 anos!

Essa é mais uma falha cognitiva comum, não é mesmo? Se deixarmos para começar a discutir essas coisas em 20 anos demorará 40 e não 20.

Nós estamos 60 anos atrasados. Os sistemas de ensino evoluíram muito à partir da década de 60 do século passado, mas num ritmo lento por causa da necessidade de postos de serviço para o modelo de capitalismo e produção da época.

Então temos que dar atenção prioritária tanto aos problemas práticos da velha política como a falta de transparência e um tipo de formação de quadrilhas quanto para a construção de uma nova política. Para a melhoria da velha educação quanto para a construção de um novo ambiente de aprendizado constante. Para a sustentabilidade da sociedade moderna quanto para a construção de um novo modelo de sociedade com uma pegada ecológica reversa onde equilibramos mais o ambiente que desequilibramos (e aí vai uma mudança profunda de tipo de consumo que só acontece com a mudança do ensino).

É um grande desafio.

Por isso creio que a civilização não pode esperar os políticos alcançarem essas necessidades.

Temos que agir em paralelo. Pode ser criando canais no YouTube, universidades e escolas desde que sejam muito transparentes e sujeitas a formas de avaliação ou teremos a Universidade Da Submissão Feminina ao Patriarcado Divino. Esse é um desafio para o qual ainda não tenho nenhuma sugestão de como abordar.

#MiEmpleoMiFuturo – Vídeos

Os dois vídeos a seguir se preocupam com a substituição de empregos hoje ocupados pelas classes médias por inteligências artificiais apontando o problema que, sim, muitos novos postos de trabalho e ocupação estão sendo criados, mas a nossa educação não está nos preparando para eles.

A contextualização histórica e destaque de desafios centrais como a janela de atenção da política que foca no passado, em parte por já haver mais eleitores acima dos 40 que abaixo em muitos países.

Mais importante são as evidências e estudos que ele apresenta demonstrando que precisamos de um ensino que desenvolva as seguintes habilidades humanas e que não podem (ou demorarão muito) ser reproduzidas por máquinas:

  1. Criação de ideias
  2. Lidar com o imprevisível
  3. Empatia (compreender emoções dos outros)
  4. Pensamento crítico
  5. Trabalho em equipe

Sendo as mais urgentes: Criação de ideias, Lidar com o imprevisível e pensamento crítico. Esse último talvez porque, em um momento de transição cognitiva tão astronômico como o que vivemos apenas um pensamento muito crítico pode nos ajudar a atravessar as barreiras das convicções do paradigma anterior.

Espero que o meu texto tenha oferecido alguns insights de ferramentas para desenvolver essas cinco competências.

#MiEmpleoMiFuturo 1/2: un documental sobre robots, economía, clase media… y el fin del mundo
MiEmpleoMiFuturo 2/2: Mapeando soluções e desafios

Foto no cabeçalho por Yannis A on Unsplash

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