Antes de continuar: esse post não terá spoilers

“Essa é a obra definitiva para antecipar as transformações do nosso tempo”

A vontade de dizer isso é grande, e a afirmação seria verdadeira, mas já disse isso para outras obras e outras pessoas já indicaram tantas outras igualmente impressionantes como metáforas ou antecipações para esse período que estamos atravessando.

Os três volumes de Fundação falam da queda de um império galático de 12 mil anos que seria sucedida por 30 mil anos de caos e barbárie a menos que um plano fosse seguido, plano esse que acompanhamos ao longo das três partes dessa trilogia.

Talvez exista uma boa razão para isso. Talvez estejamos de certa forma passando por uma história muito similar, uma trajetória que muitos tem visto e que está seguindo seu rumo natural.

Eu mesmo tenho revisado meu blog pessoal desde 2002 e encontrado vários posts “proféticos” antevendo coisas que só ficariam evidentes mais de 10 anos depois.

Então o que nos sugere Fundação?

Impérios se formam e florescem por um tempo, mas se acomodam, são corroídos pela miopia que só vê os próprios interesses ou pela acomodação na glória adquirida.

Quando caem eles deixam um vácuo que demora um determinado período para ser preenchido.

Podemos olhar para outras transições. Do nomadismo para a agricultura, das aldeias para as cidades, dos reinos para os impérios, do feudalismo para o capitalismo.

Nas transições vemos períodos mais intensos de guerras e disputas de poder.

Nunca fizemos um planejamento para mitigar os problemas dessas transições e, pelo jeito, não será ainda dessa vez que faremos.

Estamos vendo o colapso de um modelo de civilização.

Cai o capitalismo industrial e surge um capitalismo cognitivo ou digital. Cai, e essa talvez seja mais importante, a classificação do mundo por estereótipos e surge uma classificação fluida, analógica, não binária. Dissolve-se a confiança em nossos instintos e tradições (religiões, sabedoria popular) e ergue-se um misterioso, e muitas vezes arrogante, conhecimento científico da natureza das coisas e das pessoas.

O nosso caminho não é um mistério, mas como em Fundação, a maioria das pessoas não teve tempo ou não percebeu ainda que os modelos antigos já não funcionam mais e há novos em desenvolvimento.

Além do mais… Nada garante que esses novos modelos de pensamento que listei são os corretos. Eu e as fontes que me convenceram podem estar erradas em suas hipóteses e caminhando para teorias frágeis. É muito instável o terreno onde germinam tendências sociais.

Sabemos logo no início de Fundação que um gênio da ciência psico história (restrita a esse universo de ficção) cria duas fundações com o objetivo de reduzir o hiato de transição entre a queda do Primeiro Império Galáctico e o surgimento do segundo de 30 mil para apenas mil anos.

De certa forma essas fundações deveriam preservar a civilização durante o período de barbárie. Seriam como faróis ou registros do passado civilizado que poderiam inspirar a galáxia a se organizar novamente.

Bem, como eu disse, sem spoilers! Leia a trilogia para sabe como funcionam as fundações.

E como seriam as fundações no mundo real?

Podemos nos sentir como se estivéssemos mergulhando no caos, como se as pessoas estivessem todas sendo seduzidas por delírios como a crença de que a Terra é Plana ou que a maior parte da população é estúpida e logo deve ser controlada e explorada por uma elite… O fato dessa elite muitas vezes se curvar diante dos altares da Terra plana ou delírios ainda piores seria cômico se não fosse um tanto desesperador.

Vou lançar então, discretamente, uma reflexão que deveria ter um post próprio: como se opor e resistir à loucura? ao delírio?

Estou escondendo essa reflexão aqui por motivos que explicarei futuramente (ou esquecerei de explicar, hehehehe, mas acho que são bons motivos).

A questão é que não é a ignorância que causa o colapso dos impérios ou das civilizações, é a desconexão entre a sociedade e aquele modelo de civilização.

Temos a obsolescência da cultura e do pensamento antigo se transmitindo através da cultura de massa por toda aquela sociedade.

Atualmente temos uma considerável expansão da diversidade e interesse (não tolerância, interesse) nela além do deslocamento do sonho com o tênis radical para o acesso ao lazer cognitivo (redes sociais são lazer… certo, são distrações cognitivas assim como séries, músicas, clipes, YouTubers) e resta cada vez menos tempo e valor para o sonho com o carrão zero.

No entanto essas mesmas pessoas se sentem inseguras, sem falar que as estruturas de controle dos modelos econômicos e de poder que vão perdendo suas bases é o medo e a insegurança.

É quase trivial fazer com que as pessoas que desejam uma nova civilização se agarrem à antiga se estiverem com medo. O novo repele tanto quanto atrai.

Então o problema não é o fascismo, o conservadorismo, a Terra plana, o fanatismo religioso. O problema é a insegurança e parte da solução é desenvolver uma mente mutante como falei no post anterior, mas a pergunta aqui é se, mesmo inconscientemente, a nossa civilização está criando algum tipo de “Fundação” que nos ajude a atravessar esse período com menos prejuízos.

Creio que aqui vale arriscar uma projeção de quanto tempo seria esse período e, bem, a princípio fui otimista por pura negação. Receio que será preciso algo em torno de uma década para lugar depois que se inicia a queda abandonando-se um governo democrático e elegendo-se um mais conservador e totalitarista.

Por ora a única possibilidade de “Fundação” que enxergo é a formada espontaneamente pela consciência coletiva, ou seja, iniciativas de YouTubers ou podcasters que vão se alinhando em torno de certos temas civilizatórios no sentido de nos dar bases para entender o processo histórico que vivemos e nos sentirmos com menos insegurança. Também vejo grupos de trabalho se formando em universidades e escolas ou seu entorno. Tudo sem uma figura centralizadora o que gera certo caos e certamente estica o tempo que demoraremos para retomar o caminho do desenvolvimento e da democracia.

Outra vertente que pode surgir e até vejo alguns sinais, é das próprias corporações do capitalismo cognitivo desenvolverem dispositivos que mitiguem a sensação de insegurança, que dissolvam a percepção de polarização que transforma o vizinho online (e muitas vezes o offline também) em um monstro no extremo oposto da régua de moralidade.

Não interessa ao mercado cognitivo uma sociedade fraturada, interessa uma que, como nos tempos da TV aberta, consuma alguns produtos culturais comuns a todas gerando um retorno maior para investimentos em cultura de massa. Uma polarização cada vez mais intensa poderia impossibilitar, por exemplo, os blockbusters.

Aliás, aí mesmo, nos blockbusters, vemos o enfraquecimento da polarização quando nota-se que o lado conservador da polarização não tem apelo para promover boicotes a filmes, livros ou artistas que representem de alguma forma a diversidade, que é um dos principais sintomas do progressismo moderno.

Enfim: as “Fundações” que podem nos ajudar a escapar mais cedo dos delírios que assombram grande parte da nossa civilização não são fruto de uma mente brilhante ou mesmo de um grupo poderoso, o que seria péssimo no mundo real (não digo como é na trilogia de Asimov, sem spoilers, certo?), e sim da reação natural das pessoas buscando um novo chão onde fincar os pés (ou a mente) em segurança.

Photo by Chen Hu on Unsplash

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