Imagem: John Wayne

A humanidade está atravessando uma mudança de paradigma.

Até poucos anos era um consenso que estávamos entrando na era da informação, do capitalismo digital, das novas redes de comunicação, de uma nova globalização e que tudo mudaria, mas é claro que nem todos gostam de mudar e mesmo quem gosta pode se assustar se as mudanças forem muito intensas e passar a resistir a elas.

Entre as coisas que se alteram temos a nossa percepção de masculinidade e de feminilidade que, por alguns motivos que não vou abordar aqui, acabaram entre os principais pontos de resistência do velho paradigma e de expansão do novo paradigma.

Antes de continuarmos é propício refletir um pouco sobre ideologia. O que é, se é evitável, se é desejável ou indesejável.

Ideologia é um Sistema articulado de ideias, valores, opiniões, crenças etc., organizado como corrente de pensamento, como instrumento de luta política, como expressão das relações entre classes sociais, como fundamento de seita religiosa etc.

Fonte: Aulete – Ideologia

Ou seja, ideologia, nesse contexto é tanto a visão que prevaleceu até fins do século passado de que as habilidades, características, personalidade e qualidades das pessoas são definidas por seu sistema reprodutor; quanto a percepção contemporânea que aponta os fatores culturais como os mais fortes, e talvez exclusivos, que formam nossa personalidade e capacidades.

Ou seja, havia a ideologia de gênero segundo a qual uma pessoa com pênis deveria ser firme, pouco sensível, agressiva e líder enquanto uma pessoa com vagina deveria ser gentil, frágil, submissa, emotiva, pouco racional, fisicamente frágil, dependente.

No cinema os personagens de Rock Hudson reforçavam a ideologia de gênero que negava sua própria orientação.

Essa ideologia está sendo substituída por outro sistema articulado de ideias, valores, opiniões e crenças (mais ideias do que opiniões e crenças, para sermos mais precisos) que reconhece que, se o sexo de uma pessoa tem influência na construção das suas capacidades e qualidades ele é secudário.

A bem da verdade, o senso comum entende por ideologia um sistema de crenças sem conexão com os fatos ou com a natureza das coisas, que é imposta culturalmente distorcendo a essência do que somos.

Stallone Cobra 1986 – Rotten Tomatoes

Nesse sentido o que nós teríamos como Ideologia de Gênero é o que vimos por alguns séculos até as últimas décadas do século passado e hoje estariam usando erradamente a expressão “ideologia de gênero” justamente para criar uma falácia do espantalho para manter a ideologia imposta até recentemente e impedir o avanço de uma “anti-ideologia” que nos permite assumir controle das nossas capacidades, potencialidades, habilidades e qualidades.

Podemos ver a ideologia de gênero em ação na construção da masculinidade no cinema, por exemplo, como comentam Max Valarezo e Edson Castro (do canal Manual do Homem Moderno) nesse vídeo do canal Entre Planos:

No vídeo eles também citam alguns exemplos de quebra do paradigma da antiga ideologia de gênero e do surgimento de uma visão fluida e não estereotipada da sociedade em vários filmes e séries.

Em Missão Impossível a cada sequência no deparamos com um Ethan Hunt mais falível e mais dependente dos seus companheiros de equipe, inclusive uma mulher.

Ainda no século passado há diversos exemplos da quebra da ideologia que define o homem como forte e infalível como O Poderoso Chefão (Mike Corleonoe) e O Clube da Luta, no entanto, a ideologia de que “se é homem é forte, é um modelo se ser seguido” já estava tão predominante que muitas pessoas adotaram os personagens como modelos. O mesmo aconteceu no início desse século no Brasil com o personagem Capitão Nascimento, que é um exemplo de colapso do homem sob a pressão de se ajustar a um estereótipo imposto.

Mais recentemente talvez a série com maior quantidade de representações modernas de homens é Brooklin 99, bem explicada nesse vídeo também do Entre Planos:

Todavia essa série não é o único exemplo pois é inevitável a transição de uma ideologia de gênero que restringe as possibilidades das pessoas, além de fomentar ódio (contra o que não se ajusta ao estereótipo como nerds, homossexuais, mulheres que não aceitam o homem que se enquadra nessa ideologia de gênero) para outra que nos permite mais liberdade e controle individual.

Esse, a propósito, é o motivo desse artigo estar aqui e não na Galeria de Espelhos (que é onde falo de cinema): A pressão memética por um ecossistema social que permita mais variações de comportamento é uma força inexorável que nos conduz a uma civilização mais fluida, menos binária.

Se considerarmos que “ideologia” se aplica somente a um sistema de crenças, ideias, opiniões e valores impostos que impedem o desenvolvimento natural da consiciência, então podemos dizer que foi apenas pela força da ideologia de gênero que criamos jaulas culturais para homens, mulheres e demais pessoas, principalmente ao longo dos séculos XIX e XX já que as manifestações de gênero foram muito mais ricas na maioria das outras culturas e épocas.

Com o avanço de uma abordagem mais racional e com mais bases em fatos e impulsionada pelo amadurecimento da ciência, da filosofia e, claro, da própria sociedade que busca representatividade, lugar de fala, direitos e voz podemos ver exemplos de abordagens mais livres para a natureza das manifestações de gênero em praticamente qualquer produção cinematográfica ou para streaming (vamos combinar que a TV está moribunda, tá?).

Podemos pegar desde séries de heróis como Agentes da Marvel a séries baseadas em quadrinhos da metade do século passado como Sabrina e Rivendale ou de filmes de ação como os estrelados por Dwayne Johnson a desenhos para adolescentes como She-Ra e encontraremos a transição de paradigma da era da ideologia de gênero para a era sem ideologia ou da ideologia de que somos definidos por nossa vontade e meio cultural e não por nosso aparelho reprodutor.

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