A Web tem um grande defeito: ela não dá lucro.

Com exceção da indústria de pornografia e lojas online, praticamente todos os outros empreendimentos têm grandes dificuldades em lucrar com suas páginas na Web. Segundo consta, nem o Youtube dá lucro.

Por isso, quando surgiram os aplicativos para celulares e outros dispositivos móveis, e principalmente depois do lançamento do iPad, que levou telas grandes para a mobilidade, a indústria correu rapidamente nessa direção.

Do NYT à Wired, passando pela Marvel, houve uma enxurrada de publicações distribuídas por aplicativos.

Ora, em um aplicativo móvel, você pode controlar a navegação do seu leitor, prendendo-o ao seu conteúdo e garantindo que ele permanecerá mais tempo vendo seus anúncios.

O mesmo vale para as redes sociais online, que lançaram aplicativos garantindo que seus frequentadores permaneçam mais tempo nelas.

Com a fuga de investimentos da Web para os aplicativos móveis, ela pode ir caindo em desuso, perdendo cidadãos lentamente até ser esquecida como o Gopher e, assim, estaria morta. Essa é a ideia em torno dos alertas sobre a morte da Web.

Mas…

Será que nós sabemos o que é a Web?

Tecnicamente, a Web é mais um protocolo ou serviço que se junta a email, ftp, telnet, torrent, voip, irc etc. A propósito é importante lembrar que a Internet é como um oceano de águas livres onde qualquer um pode colocar seu navio para transportar suas coisas. A Web é um desses navios.

No entanto, na prática, a Web se transformou em sinônimo de Internet. Ela é a grande representante dos ideais da cibercultura, como o compartilhamento livre de informação, liberdade de expressão e gratuidade.

A cultura hipertextual, não-linear e livre da Web está no centro das promessas de revoluções sociais, econômicas, culturais e políticas do século XXI.

O velho modelo de mídia de massas é inútil no oceano de caudas longas da Web, apesar de grande parte da mídia ainda procurar os “formadores de opinião da Internet”.

Quando falamos em Web, não devemos pensar em navegadores e páginas html, e sim em todo seu potencial para abrigar a inovação e a transgressão dos sistemas vigentes, permitindo o surgimento de novas soluções para problemas antigos… e novos.

É isso que estaria ameaçado de morte… de acordo com alguns analistas. Não se trata de uma mera mudança de tecnologia como a migração da TV analógica para a digital.

A Web criou ideais ou foi criada por eles?

Nossa civilização costuma acreditar que as mudanças vêm de fora para dentro: jogos violentos nos tornam insensíveis, relacionamentos online nos tornam individualistas e sociopatas.

Uma análise lógica pode invalidar rapidamente essas ideias: uma civilização pacífica criaria jogos violentos? Pessoas felizes com seus relacionamentos offline fugiriam para amigos distantes online?

Acredito que as relações de causa e efeito são justamente o contrário: a Web é como é porque nossa civilização chegou a um ponto em que cada indivíduo deve ter uma voz (todos queremos “blogar” e daí o crescimento vertiginoso das redes sociais online).

As tensões sociais entre países e classes ricas e pobres criaram a necessidade emergencial de transformar o conhecimento em patrimônio livremente compartilhável da humanidade.

Essas características transgressoras da Internet nem mesmo estão restritas a ela. Basta lembrar da jornada do compartilhamento do Napster ao BitTorrent.

Uma das formas como podemos entender a Internet é como uma ferramenta, talvez a mais poderosa, criada pela necessidade de evolução da nossa consciência.

Um fato normalmente aceito sobre processos evolutivos é que eles estão além do nosso controle consciente: a evolução é inevitável… Resistir é inútil.

O que acontecerá?

Como disse, creio que a Internet é a linha de frente do processo evolutivo da nossa civilização e seria uma tolice crer que somos capazes de prever que rumo exatamente ela tomará, mas talvez possamos afirmar que o rumo que ela já tomou será continuado de alguma forma.

Arrisco supor que jornais, revistas e outras formas de distribuição de mídia migrarão para aplicativos móveis.

Os aplicativos móveis migrarão para o desktop, exatamente como a Apple já anunciou recentemente (na próxima versão Lion do MacOS), criando mais espaço para a mídia.
Em resposta surgirá uma “Android Shop” ou “iTunes Store” para a Web, como o Open Web Applications da fundação Mozilla, que preserva os princípios da Web.

Enquanto isso, as pessoas continuarão desejando a possibilidade de se tornar um hit da Web sendo encontradas por milhões de pessoas que assistam seu vídeo ou escreverão em páginas pessoais imaginando que podem ser lidas por todos os internautas. É possível que a Web se torne uma rede dominada por sites pessoais.

No entanto, tudo isso é um exercício arriscado de futurologia, ainda que no médio prazo, e corro o risco de parecer estúpido em apenas alguns anos.

Seja como for, podemos estar seguros de que a Internet é o que é porque a fizemos assim e, enquanto as nossas necessidades individuais e coletivas não mudarem, ela não mudará de rumo.

Links

Wired: The Web is dead
Wired: The Web is dead? A debate

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