Eu subestimei Jogos Vorazes. Achei que era mais um romance adolescente onde a menina deslocada é eleita por um vampiro poderoso e purpurinado. Não poderia estar mais errado.

Ainda não li o terceiro livro, mas decidi que preciso comentar a obra antes da sua conclusão, depois voltarei aqui e acescentarei comentários ao final.

Quem assiste apenas o filme dificilmente perceberá como a trilogia Hunger Games é ímpar e merece ser analisada com um olhar mais antropológico.

Tentarei não estragar a graça da história revelando viradas da trama, mas vai ser difícil, então não garanto um post livre de spoilers.

Vamos resumir para quem não faz ideia do que é Jogos Vorazes.

Trata-se de uma trilogia distópica (é o contrário de utopia, ou seja, a gente errou e o futuro se tornou muito pior do que o mundo hoje) que nos leva a uma sociedade que é uma caricatura da nossa ao mostrar um Estados Unidos centenas de anos no futuro dividido entre uma capital e 12 distritos (um décimo terceiro foi destruído em uma revolta 75 anos antes do primeiro livro).

As pessoas que vivem na capital são fúteis, alienadas e consumistas ao extremo além de terem um gosto espalhafatoso para roupas e adereços, enquanto os habitantes dos 12 distritos passam fome e doença ainda que exista tecnologia para criar uma sociedade perfeita.

As diferenças sociais são fruto apenas de um sistema defeituoso que resulta em uma cultura que considera o poder totalitário como algo inevitável na organização de uma sociedade.

Fonte: Divulgação

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Está percebendo como a história é bem diferente?

A história é uma armadilha que se disfarça de algo leve graças às caricaturas e a uma certa inverossimilhança daquela estrutura social (que vai fazendo sentido aos poucos para quem lê os livros): Panem (nação fictícia da história) é o mundo moderno apenas um pouco exagerado.

A tensão da história gira em torno dos Jogos Vorazes, um reality show criado para humilhar e separar os 12 distritos subjugados pela capital.

Anualmente 12 casais de crianças entre 12 e 18 anos são sorteados para serem jogados em uma arena de onde apenas um poderá sair vivo.

Por favor, não tente comparar com Batalha Real, o mangá/filme japonês sobre como a luta pela sobrevivência pode transformar amigos em homicidas ferozes. Jogos Vorazes é sobre… Você pensou política? Não acho.

A estrutura social injusta e a revolta contra ela é apenas o pano de fundo (muito bem retratado no cinema) da história de Katniss, a protagonista.

O livro é todo em primeira pessoa, mas é mais do que isso pois Katniss nos fala todo tempo sobre seus sentimentos, medos, o que pensa dos outros, o que acha que pensam dela e finalmente o que pensa a seu próprio respeito. E ela pensa muito.

Fonte: divulgação

Katniss e sua irmã, Prim – Fonte: divulgação

Há nesse ponto uma possível genialidade da autora que constrói uma personagem que não é melhor que nós, leitores, ela não quer mudar o mundo, não quer enfrentar tiranos, ela só quer ficar bem, só quer cuidar da sua família e amigos.

Quando vemos isso queremos sacudi-la e dizer algo como “O mundo está acontecendo ao seu redor! Você não pode fugir dele!”, mas a própria autora faz com que sua protagonista vá percebendo isso transformando o livro em um manifesto revolucionário.

Perceba que o eixo central da trama está nas transformações psicológicas de Katniss Everdeen. E quem é ela?

Katniss é uma menina de 16 anos que teve que assumir a casa quando o pai morreu em um acidente deixando-a sozinha com 12 anos, uma mãe em estado de choque e uma irmão de 8 anos.

Por quatro anos ela aprendeu a se embrenhar na floresta, caçar e negociar o fruto do seu trabalho no mercado negro da cidade. Tinha um companheiro de caça, Gale poderia ser um par romântico e na verdade é como muitas leitoras o veem, mas desde as primeiras páginas fica bem claro que Katniss é uma mulher que decidiu não investir em outra coisa além da sobrevivência da sua família e para isso ela só pode contar com ela mesma

Katniss não é uma mulher masculinizada, pelo contrário, é feminina como toda jovem em sua faixa etária, mas depender de alguém simplesmente não passa por sua cabeça, não por orgulho, mas simplesmente porque é assim.

Perceba que, em nossa cultura machista, ainda que os homens sejam carentes, eles são vistos como provedores, como auto-suficientes, mas em Jogos Vorazes é a mocinha que assume esse papel enquanto os homens são quase o estereótipo da mulher em nossa sociedade.

Fonte: divulgação

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Por diversas vezes ficamos com raiva da protagonista, ela é imperfeita em todos os sentidos possíveis, é egoísta, de certa forma covarde, desconfiada, fechada e independente a ponto de ser solitária e insensível, mas em sua imperfeição ela se aproxima de nós e tem um senso de responsabilidade e de fidelidade aos amigos e família que a transforma lentamente e a nós junto com ela.

Vemos aos poucos nascer um tipo de amizade cúmplice e fiel que se constrói de uma forma mais ingênua em outras obras como Senhor dos Anéis.

Mas vou explorar melhor esses aspectos no meu blog onde falo de literatura. O assunto aqui são os símbolos culturais (ou memes) que se desenvolvem e são desenvolvidos pela sociedade em constante transformação.

Jogos vorazes é uma obra feminista e feminina e se alinha a outros como Prometheus onde vemos um novo tipo de heroína surgir, uma mulher que não precisa se equiparar aos homens para superar os obstáculos que se apresentam.

Talvez muitos leitores não percebam conscientemente essa natureza feminista na obra, mas ela está lá nos ajudando a gostar da menina que, a despeito da sua situação inusitada e desesperadora, segue adiante sobrevivendo.

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