Imagem: Les Chatfield – Reading for Bad Weather Cc

Essa semana um amigo meu que é escritor e considera a Internet um tipo de balaio de má literatura me pediu para escrever um artigo respondendo:

Livros na era digital. Quem ganha, quem perde e como estar no primeiro grupo

Será uma tarefa complicada pois ele me pediu fatos e não opiniões, mas ainda é cedo para dispormos de fatos seguros e eu sempre fui uma pessoa de opiniões muito mais do que de fatos pois gosto de olhar para os futuros prováveis ou desejáveis.

Decidi dar a minha opinião e fazer as minhas previsões antes de pesquisar mais a fundo os dados sobre como está o livro nestes primeiros momentos da era da cibercultura onde todo conhecimento se propaga livremente.

  1. Livro é papel com tinta ou são palavras esculpidas contando histórias, transmitindo conhecimento e transforando nossa forma de ver o mundo? O que está em jogo é o fim do livro de papel, não do livro
  2. No futuro próximo apenas livros especiais serão impressos, aqueles cuja arte ou profundidade pedem também a interação lúdica do toque das páginas, do olhar apreciativo da sua lombada na estante
  3. Os leitores (como o Kindle) estarão conectados à Internet e carregarão dezenas ou mesmo centenas de livros que poderemos ler e compartilhar a todo momento com nossos amigos offline e online
  4. Poderemos interagir com nossos livros criando versões alternativas, novos finais e até novos começos para eles. As fanfics já são vastas encubadoras de futuros autores
  5. Alguns desprezam os escritores online como aqueles que não foram capazes de atrair a atenção dos editores e portanto não possuem qualidade, mas essas pessoas desconhecem a meritocracia do Page Rank e da memética das redes sociais que qualificam os bons autores separando-os dos medianos
  6. Assim como a eugenia era uma ação pueril frente à ditadura dos genes que ditam nossa reprodução sem limites estamos também presos aos designios dos Memes que desejam que absolutamente todos possam produzir cultura e conhecimento: a proliferação de escritores e outros artistas fora dos corredores eugênicos da indústria cultural é inevitável
  7. O segredo do sustento do escritor do futuro que deseja viver apenas do que escreve (vários blogueiros já fazem isso com sucesso) está no desenvolvimento de uma nova moral onde pagaremos espontaneamente pelos trabalhos que gostamos pois teremos certeza que é o artista, e não uma empresa, que estará recebendo nosso dinheiro.
  8. As editoras e livros de papel já não são mais uma forma eficiente para levar os livros até o leitor e isso manterá na obscuridade vários bons autores que se submeterem ao modelo antigo enquanto autores medíocres alcançarão grande sucesso graças a sua difusão online (isso já acontece)

Então vamos lá…

Livros na era digital. Quem ganha, quem perde e como estar no primeiro grupo

O quadro atual

Neste momento o espaço virtual vem sendo usado para vender livros de papel.

Podemos visitar páginas especiais de cada lançamento, ler online o primeiro capítulo, seguir editoras no Twitter (@oleitorvoraz da Ediouro) ou mesmo fazer buscas em  livros 100% digitalizados no Google.

No entanto a maioria das editoras e autores faz o possivel para restringir o acesso ao conteúdo dos seus livros o que se nota em uma busca rápida no Google Books: a maioria dos livros tem somente pequenos trechos liberados para leitura online.

À margem dos mercados editoriais surgem blogueiros escritores ou escritores blogueiros que, vez por outra, acabam sendo descobertos pelo mercado editorial e promovidos ao status de escritores de verdade. Boa parte desse mercado é composto por jovens que escrevem fanfics.

No momento a leitura de livros em telas não é tão confortável quanto em papel.

Nos desktops e notebooks o brilho incomoda os olhos e em celulares e PDAs o tamanho das telas dificulta a leitura.

Além disso o processo de digitalização dos livros é mais complexo e demorado do que o processo para músicas e filmes e isso restringe a pirataria de livros aos que chamam mais atenção do público.

Quem ganha

Darwin nos deu essa resposta e Richard Dawkins nos ajudou a perceber que ela também vale para a cultura: o venceder é aquele que se adapta.

O problema nesse momento é perceber realmente como o mundo está mudando.

A Internet mudou o mundo ou foi nossa cultura que mudou e por isso criou a Internet? Ou seja, estamos diante de uma moda que vem de fora para dentro ou de um movimento interno que promove a transição entre paradigmas?

Vamos supor o pior (ou melhor) quadro: os livros de papel e tinta desaparecem totalmente. Quem ganha?

Livros digitais podem ser copiados e pirateados com mais facilidade então ganha quem não tem dinheiro para obter livros ou é desonesto e não deseja pagar pelo que consome.

Livros digitais não tem peso então ganham os estudantes que não terão que carregar vários tijolos de papel para as escolas ou faculdades.

Também são os alunos e estudantes que ganham com a facilidade de busca de conteúdo.

Livros digitais tem margens infinitas. Os leitores poderão fazer vastos comentários sobre o que estão lendo e até compartilhar seus comentários com outros leitores, conhecidos ou não. A leitura de um livro não precisará mais ser um ato solitário e poderemos encontrar outros fãs do que estamos lendo como nunca antes foi possível.

Ganham as editoras que se adaptarem e deixarem de vender papel e tinta passando a interagir com aspirantes a escritores e leitores

Quem perde

Livros de papel proporcionam uma leitura com início, meio e fim. Há toda uma relação lúdica no manuseio do papel então perde-se a liturgia da leitura e da manipulação respeitosa do conhecimento, mas isso é uma opinião e este deve ser um artigo objetivo com fatos e não opiniões.

Falemos então em dinheiro.

Issso depende do futuro:

  • Os livros digitais jamais existirão: quem se atirar nesse mercado investirá tempo e dinheiro que jamais dará retorno
  • Os livros digitais se tornam comuns apenas em certos nichos: perde quem não for capaz de identificar esses nichos
  • Os livros digitais se tornam o padrão do mercado: perdem as empresas que trabalham no mercado atual e não se adapatarem

Um bom exemplo de futuro provável está no mercado de músicas e de filmes.

Enquanto a maior parte da indústria insiste em vender CDs, DVDs e Blu-rays a Apple montou sua loja para vender músicas e filmes digitais. Já faz algum tempo que se tornou a maior loja dos EUA.

É possível também que as editoras passem a privilegiar os autores que obtiverem sucesso na meritocracia online passando a ignorar a intuição e bom senso dos seus editores.

Caso isso aconteça bons autores terão dificuldade de encontrar público se não forem capazes de usar a Internet para se fazer conhecer já que as editoras estarão concentradas somente nos livros que já sabem que serão sucessos de vendas.

Como estar entre os ganhadores

Haverá vencedores fazendo livros de papel e tinta, haverá vencedores fazendo livros de bits. O segredo está compreender a nova cultura.

Quem comprará livros de papel? Quem comprará livros digitais? Qual é a forma correta de chegar a esses compradores? Que títulos cada um deles buscará?

As respostas a essas perguntas valem bilhões de dólares pois são a diferença entre a falência e o sucesso.

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