Imagem: Revoada de estorninhos – Atenas – 2008 – por Muffinn (Cc)

A classe média está levando os filhos de volta para a escola pública.

O artigo acima informa alguns fatos, como o aumento de 5 para 11% de alunos na escola pública oriundos de escolas privadas e apresenta algumas hipóteses como dificuldade para pagar a escola particular e inserir os filhos em um ambiente mais diversificado e cidadão.

Muitos pontos, no entanto, ficam obscuros como o movimento contrário, de alunos da rede pública para a privada.

Vamos falar nesses pontos mais adiante pois o fenômeno, seja por que motivo for, pode ter um impacto relevante em nossa estrutura social.

Já em 2011 quando alguns poucos estudantes e professores principalmente do ensino universitário se misturaram com moradores de rua e outras camadas sociais no reflexo brasileiro do fenômeno occupy podia-se notar o efeito da aproximação daqueles estratos sociais, culturais e econômicos.

Hoje vivemos uma polarização construída ao longo de décadas.

Há mais de 35 anos eu já estudava em colégio particular e o hiato entre nós e os alunos de escolas públicas era abissal. Pobres iam para as públicas, ricos para as privadas… Em termos de cidadania e valores humanistas os trocadilhos com privada são bem válidos. Mas esse é outro assunto.

Quando os “ricos” (classe média não é rica) voltam a se misturar aos pobres (já não mais tão pobres, principalmente em relação às possibilidades de acesso ao conhecimento) temos um fator de alteração do tecido social difícil de medir, mas com impactos cumulativos determinantes. O mesmo que aconteceu com a aproximação da das classes em bailes funk e antes em torno do samba.

Eram como válvulas de escape de pressão social agindo no sentido de manter sementes que aguardam períodos férteis para se desenvolverem. O fenômeno é cíclico na história, mas vivemos um período em que ele é muito necessário.

Por isso escolhi para o post a imagem de uma revoada de pássaros.

Sociedades precisam de alguma coordenação para funcionar e essa coordenação é tão melhor quanto mais espontânea, ou seja, sem ser conduzida por um “líder” e sim pelas interações sociais naturais.

A diminuição das fronteiras e divisões geográficas entre as diversas camadas da sociedade quase sempre será positiva a médio e longo prazos. Por isso, a propósito, a praia e a Internet como espaços públicos abertos a todos são tão importantes, mas esse também é um assunto para outros posts.

Por outro lado, é claro, não podemos romancear o fenômeno, como o próprio artigo alerta, é possível que as melhores escolas públicas acabem loteadas pela classe média mais alta empurrando os outros para escolas piores. Isso sem falar que o país, que já não administra de forma ideal o ensino, pode simplesmente não conseguir absorver um possível êxodo.

O ponto chave é que devemos observar os próximos movimentos. Guardei o artigo no Delicious.com/roney para acompanhar os nomes chave de pessoas e instituições.

Tenho visto que, e o artigo também fala nisso, o número de escolas públicas fazendo experimentos educacionais bem sucedidos tem aumentado “apesar da crise” como tanto se fala. Apesar dela e dos rumos do governo (situação e oposição) estarem longe do necessário nas áreas de educação, pesquisa, ciência e tecnologia.

Frequentemente aponto a alienação das nossas classes mais ricas como um dos grandes problemas no caminho do nosso desenvolvimento: a escola está ruim? Pago privada. Transporte ruim? Compro carro.

Qualquer movimento que aproxime esse estrato da estrutura pública pode deixar heranças de comportamento que… Aliás temos visto pela mobilização de ocupação dos estudantes de São Paulo (que já se estende em ocupações em outros estados) que as classes supostamente mais dóceis já mudaram de comportamento há tempos.

Enfim, esse é o tipo de notícia que pode parecer uma curiosidade, mas tem potencial para catalisar mudanças sensíveis a médio prazo.

Pin It on Pinterest

Share This

Compartilhe!

Mande para suas redes sociais