Hoje 62 pessoas detém mais de 50% dos recursos capitais do planeta. A distância entre os astronomicamente ricos e os demais está aumentando e não dimuindo.

Esses são argumentos usados para mostrar que estamos a caminho de uma civilização pior do que a do século XIX, com o que não concordo, mas ao longo do texto ficará claro por quê.

Tenho dito bastante que estamos vivendo o fim do capitalismo por força de uma visão política e econômica de “direita” que na verdade é mais conservadora e reacionária que de direita, aliás as duas características se tornaram praticamente a definição de direita, com o que também não concordo.

Em essência o pensamento de direita é capitalista e o capitalismo consiste, em essência, a organização social, política e econômica em torno do capital.

Hoje a maioria dos bens mais valiosos são abstratos, são meméticos, como o design de um relógio, o significado social de uma marca e informação sobre nosso perfil coletivo (quais são os desejos e como influenciar os consumidores) além de áudio, vídeo e livros que circulam por streaming.

Claro que as indústrias de armas, de petróleo e algumas outras, de comidas (que nem sempre alimentam) e remédios por exemplo também são enormes… Apesar de comida e remédio provavelmente terem mais valor cultural que material deixando-nos com armas e petróleo mesmo.

Enfim, é claro que o capitalismo de átomos, de coisas materiais, ainda é gigantesco, mas é inegável e irrefreável o avanço do capitalismo de bits, digital, memético.

Concentração de capital é anti-capitalista

Nesse cenário o capitalismo saudável seria aquele em que todos os consumidores teriam poder de compra para consumir seus fluxos de entretenimento (vídeo, música, redes sociais) e dispositivos para navegar pela civilização digital.

Não é interessante gastar recursos por 15 anos desde o nascimento das pessoas até elas poderem ser engrenagens mal pagas do sistema de produção sem participarem do sistema de consumo, nem enquanto crescem, nem enquanto trabalham.

A distribuição do capital deveria ser a redentora da escravidão, mas não é porque não vivemos uma era capitalista.

Sob esse ponto de vista vivemos realmente um Feudalismo Corporativo como o (um tanto exagerado) cenário descrito por Sean McFate (parece nome artístico):

Senhores da Guerra Bilionários – Sean McFate

Esse vídeo me foi indicado no Twitter por um amigo.

É possível supor uma distopia em que uma elite astronomicamente rica governe acima dos países, principalmente quando olhamos para o Brasil e vemos a ascensão de milícias ao governo, que são bem semelhantes aos mercenários citados no vídeo.

No entanto o quadro que vejo, e creio que já existe, é um capitalismo ainda dividido em Elois e Morlocks como na sociedade utópica/distópica de A Máquina do Tempo.

Temos dois capitalismos convivendo praticamente sem interseção: um de bens de valores altíssimos (barcos, hotéis, restaurantes entre outros) e outro onde os apartamentos, para dar uma medida, não chegam a 100 milhões de dólares.

Sim, pode parecer que estou fazendo o corte muito por cima, talvez a pessoa que tem um imóvel de 50 milhões de dólares queira se sentir no topo do capitalismo, mas manterei assim pois vejo um capitalismo para umas 500 mil pessoas no mundo e outro para o restante.

Essa estrutura pode funcionar, essa estrutura pode até perdurar por séculos, mas desde que o capitalismo chegue a todas as pessoas permitindo que ela possam dedicar mais tempo a lazer que a trabalho, ou pelo menos 1/3 do seu tempo para viver.

Sem um acesso mínimo aos confortos modernos começando pelo saneamento, segurança, saúde, educação, moradia, mobilidade e seguindo pelo lazer, cultura e diversidade (abrindo espaço para vivermos nossa individualidade) haverá tensões crescentes e, do ponto de vista capitalista, perda de oportunidades de aumenta o fluxo de capital.

Analisando pelo ponto de vista memético não consigo ver a supressão do hiato, não consigo ver uma estrutura socialista sem mega-corporações. isso é incompatível com o ambiente que fomenta o aprimoramento individual e coletivo para fazer prevalecer a sua cultura assim como é o ambiente hostil que nos melhora geneticamente.

Claro que podemos assumir conscientemente nosso desenvolvimento genético e memético. Isso parece estar em curso em relação ao desenvolvimento genético, mas não vejo sinais, e talvez até seja impossível, de um processo semelhante com o nosso desenvolvimento cultural, memético.

Acontece que hoje a concentração de capital problemática não está nem nos hiper-ricos, mas em corporações ainda acomodadas ao trabalho escravo e letargicamente acomodadas aos seus processos de produção e comercialização.

Elas tem feito lobby com governos para se manterem letárgicas impedindo o fluxo de capital para os trabalhadores e esse deve ser o desafio conforme atravessamos esse período de 8 ou 10 anos com governos de “extrema-direita” que servem a esses interesses.

Photo by Freddie Collins on Unsplash

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