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Quando o centésimo primo nosso aprende a lavar batatas em uma ilha distante outros começam a ter a mesma ideia em outras ilhas distantes e sem qualquer conexão física ou virtual, afinal não são o tipo de primatas que acessa a Internet.

O registro do fenômeno é de Ken Keyes em O Centésimo Macaco e os Campos Mórficos de Sheldrake (artigo desbancando-o) deve ser uma das hipóteses mais populares na ficção científica para explicá-lo.

Mas por que estou falando em pseudociência aqui?

Há dois bons motivos para… Na verdade três, para trazer esses assuntos.

Primeiro, Muita gente experimenta os campos mórficos

Um longo texto sobre os dois tópicos recebido por WhatsApp de uma amiga inteligente e que admiro me lembrou que eles existiam.

Na adolescência li sobre os dois e achei que faziam todo o sentido, creio até que li O Centésimo Macaco há umas décadas e, como na época não existia a Internet para procurar outras opiniões, acabei acreditando por uns anos.

Faz sentido porque existem realmente coincidências reais.

Uma que sempre cito é a do Cuco do Neil Gaiman em Sandman.

Ele escreveu essa história em quadrinhos com uma versão humana do cuco (eles plantam seus ovos no ninho de outros pássaros depois de assassinar os ovos dos donos do ninho) e quase desistiu de publicar porque viu que um autor americano tinha escrito uma história muito parecida.

As histórias da ciência e até da linguística e da genética estão repletas de coisas desenvolvidas simultaneamente em regiões distantes, então faz muito sentido que exista algum tipo de inconsciente coletivo ou até “registro akáshico” como sugere uma corrente esotérica

Podemos apresentar explicações racionais para todas elas. A ciência, por exemplo, se apoia no conhecimento acumulado, então é natural que pesquisas semelhantes aconteçam ao mesmo tempo. As estruturas linguísticas são todas criadas pelo mesmo organismo, nós, pessoas, e naturalmente vamos caminhando mais ou menos juntas. O desenvolvimento de recursos está ligado ao ambiente: se falta água vários organismos desenvolverão ao mesmo tempo formas de lidar com a falta de água e muitas serão aparentemente iguais.

No entanto a explicação lógica, que exclui uma conexão sobrenatural entre as formas de vida e o Universo é rejeitada pois nós precisamos desesperadamente sentir e provar que estamos conectadas. Compartilhar mais de 90% do código genético com quase todos os outros seres vivos não basta por um motivo intimamente ligado a esse blog:

Nós somos uma civilização memética, nós precisamos sentir conexão da nossa consciência com outras formas de consciência, precisamos de algo que nos diga que a consciência é real e que é uma característica do nosso universo.

Dois, a necessidade de conexão

Somos de carbono, somos genéticos, e organismos vivos disputam com os outros para sobreviver, eles assassinam os filhos dos outros para colocar os próprios filhos sob o cuidado de outros pais mais aptos. Genes são egoístas e procuram exterminar os outros organismos, seja superando-os em número, seja devorando-os.

Por outro lado também somos meméticos e caminhamos para ser mais meméticos do que de carbono.

Um organismo memético não precisa aniquilar os outros organismos meméticos, muito pelo contrário, a combinação entre eles é muito mais livre do que entre organismos definidos por espirais de DNA e quanto mais diversidade cultural, melhor.

Nossos instintos meméticos nos tornam famintos por conexão.

Não é à toa que nos viciamos tão fácil em redes sociais, filmes e séries, tudo isso nos conecta.

Bem… Há os párias que se conectam com outros párias alimentando memes que já deviam ter sumido, como a ideia de que a Terra é plana, mas isso é história para outro momento.

Em vez de lamentar que as pessoas aceitem uma visão mística ou esotérica da realidade devemos festejar que a maioria de nós continue buscando avidamente por conexão tanto com outras pessoas quanto com toda a vida na Terra e até com o Cosmos.

São impulsos como esse que nos trouxeram aqui e, se as pessoas buscam o mágico é porque a ciência não está sendo capaz de transmitir o mesmo encantamento.

Três, precisamos de uma hipótese para seguir

A melhor ferramenta que nós desenvolvemos para compreender a nossa realidade parte de uma hipótese, uma suposição, para testarmos em busca de uma teoria que sirva de base para outras hipóteses.

Temos o falseamento, ou seja, podemos mostrar que campos mórficos não são uma hipótese que pode ser promovida a teoria e que o experimento do centésimo macaco não pode ser reproduzido transformando-o em no máximo em uma metáfora ou um desejo, mas não é disso que precisamos.

Nós precisamos de hipóteses que mostrem como nos conectamos ou, pelo menos, de propostas consistentes para tornar essa conexão real.

Em grande medida a Internet faz esse papel, mas sem uma cultura que veja a diversidade como uma forma de riqueza e não como algo a ser tolerado, a proximidade acaba nos dividindo entre grupos (lembra do impulso genético de garantir a supremacia do seu organismo?) e criando uma civilização polarizada.

Infelizmente, se não é de uma hipótese que precisamos, mas uma mudança de viés, uma nova forma de ver culturas, diferenças e diversidade então o método científico é um tanto quanto inútil. Não estamos mais no reino da ciência, mas no reino do espírito ou da alma.

Uma pessoa cética pode preferir dizer que estamos no campo da mente, da construção de ID, ego, superego, mas isso são só palavras, quantas de nós sabem dar uma definição clara de ID sem consultar? Eu não sei! ;-D

Stanley Krippner, já que estamos mergulhando no esoterismo, em seu Mitologia Pessoal fala em lidar com nossa psiquè através de metáforas, da construção e desconstrução de mitos pessoais sem necessariamente identificar psicanaliticamente as experiências que criaram esse ou aquele trauma, ideia ou comportamento.

Será que precisamos mesmo esperar uma teoria científica, que para ser entendida exigirá uma base educacional bem mais abrangente do que a que temos em geral, sobre como estamos todas conectadas para seguir no rumo dessa conexão?

A construção de mitos como o centésimo macaco, campos mórficos, redes miceliais ou qualquer outro que nos ajude a nos sentir conectadas.

Há quase 10 anos escrevi aqui mesmo um tipo de carta de princípios inspirada na do personagem G´Kar de Babylon 5 que termina assim:

Agora, conectados além de todas as fronteiras artificiais do passado, concordamos com um princípio:


Cada uma das nossas vozes individuais é sagrada
pois cada voz nos enriquece e toda voz perdida nos diminui
Somos a voz da humanidade, a consciência do Universo
A chama que ilumina o caminho para um futuro melhor
“Nós somos um”

Declaração de princípios da cibercultura – Roney

Há mais de 300 mil anos foram sonhos que nos separaram dos outros animais e nos permitiram desenvolver essa fascinante e crescentemente complexa civilização, a única criação da Terra capaz de garantir que a vida continue a existir no planeta, ainda que tenha cometido grandes erros nos últimos cento e poucos anos.

Talvez o melhor caminho para construir conexões e unidade ainda sejam os sonhos e não a ciência.

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