Photo by Eric Muhr on Unsplash

Até a Campus Party desse ano eu achava que biohacking era mais uma subcultura excêntrica como body modification, então passei com uma amiga por uma bancada onde haveria um workshop e ela comentou que não fazia ideia do que era isso e fui pesquisar alguns dias depois. Não deu para ver o workshop.

Estou assumindo aqui minha ignorância porque imagino que, se uma pessoa que dedica 80% do seu tempo pensando em cibercultura e nos rumos da sociedade hiperconectada tem preconceito talvez muita gente tenha.

E biohacking é essencial para que tenhamos controle sobre nós mesmas e até liberdade, mas vamos aos poucos.

A primeira coisa que fiz foi buscar quem entenda e estude o tema, a gente já viu no que dá quando as pessoas decidem que podem inventar suas próprias visões de mundo coff-coff terraplanismo coff-coff.

Tive indicações de livros e autores (no final do post), artigos e um grupo no Telegram onde estou aprendendo sem falar nada por que preferia falar através desse post (link em breve se eles deixarem).

A primeira coisa que notei é que o preconceito com biohacking é tão errado quanto a maioria dos preconceitos. O nome pode ser usado em ficção ruim, mas a área de estudo e, principalmente as pessoas estudando, são muito sérias indo desde os curiosos como eu, até gente fazendo suas teses de mestrado e doutorado na área.

A segunda coisa que notei é que se encaixa perfeitamente em uma civilização marcada pela disputa pela atenção.

Se por um lado a Internet está repleta de organismos que procuram dominar nossa atenção cognitiva como o Facebook, a Netflix, o YouTube, por outro temos também organismos offline disputando nossa “atenção alimentar” e física sem se preocupar se realmente está nos oferecendo os alimentos, remédios, roupas, exercícios de que precisamos.

Mas o que é Biohacking?

No parágrafo anterior dei a pista da aplicação dele para mim, que explicarei melhor mais adiante, mas biohacking vai muito além disso, tenho muito a estudar, e certamente errarei se der uma definição agora, então vou ficar com uma definição geral para outras pessoas leigas como eu.

Biohackers ousam fazer perguntas como: Como podemos usar a tecnologia de forma independente para melhorar nossas habilidades naturais, saúde ou bem-estar? Como podemos inaugurar uma era em que não apenas consertamos o que está quebrado, mas melhoramos a nós mesmos e nosso mundo?

Da descrição do Meetup 2019 do Biohacking BR

O biohacking, então, está bem ligado a outras áreas que são alvo de preconceito, como o transhumanismo, e se propõe basicamente a nos tornar melhores através do domínio e modificação dos nossos processos biológicos indo do sono à alimentação passando pelo uso de substâncias (como o café ou farmacêuticas).

Você pode achar estranho, mas se pensar duas vezes verá que é efeito do preconceito porque todos nós fazemos tudo isso, mas sem a abordagem científica necessária. Das dietas aos remédios passando por estimulantes.

Ainda outro dia minha sogra apareceu bebendo uma bebida isotônica que ela com certeza não precisa, mas “dizem que é bom para hidratar”.

Quando usamos relógios que medem nossa frequência cardíaca, nos integramos aos nossos celulares e escolhemos um tênis de alta tecnologia já estamos entrando nos campos do tranhumanismo e biohacking, a questão é fazer isso conscientemente e bem informadas.

Você também pode se preocupar com as questões éticas de melhorar a suposta perfeição humana desenvolvida pela evolução ou criada por algum deus, no entanto nós não vivemos mais caçando e coletando nas savanas africanas e, mesmo que você goste do delírio de que o Universo tem seis mil anos, praticamente tudo mudou em nosso entorno, da composição do ar até a organização social e do conhecimento.

Nós não somos mais adequados ao mundo em que vivemos e não podemos esperar um milhão de anos para desenvolver sensores rfid em nossos dedos ou que algum deus resolva aparecer para fazer nosso upgrade.

Assim como precisamos desenvolver uma cibercultura capaz de lidar com os aspectos culturais da nossa civilização, precisamos de tecnologia biohacker para nos ajustar fisicamente à civilização.

Ah! Retornar para as cavernas pode ser o seu caminho pessoal, acho até belo e fascinante, mas não acontecerá com a civilização inteira: vamos continuar nos reunindo em grandes cidades, ainda que elas se tornem inteligentes e ecologicamente sustentáveis.

Além disso, se sobrevivermos à escalada dos idiotas (aqui em referência ao filme idiocracia), o nosso próximo passo está fora do planeta. Claro que apenas para bem poucos de nós, mas ainda assim teremos que adaptar nossos corpos à vida no espaço ou em outros planetas. Isso não é sci-fi.

Como usar o biohacking?

Lembre-se que ainda sou um mero neófito, certo? No entanto não seria certo fazer esse primeiro post sobre biohacking e não refletir sobre aplicações práticas.

Suponho que você já desconfie do uso que tenho em mente: estou menos preocupado em modificar meu corpo para se integrar ao meio cibernético (como implantes RFID) do que em atender suas necessidades naturais de nutrientes e exercícios. Meu foco, podemos dizer, é “natureba” e até aqui creio que o biohacking pode ser o estudo ideal para desenvolver esse conhecimento.

Todavia estamos em um ambiente novo que exige adaptações também, inclusive das funções mais básicas como alimentação, e ainda mais claramente dos ritmos circadianos, por exemplo, pois é impossível dormir ou ter atividades do mesmo jeito que tínhamos nas florestas e savanas.

Essa é a segunda via e, suponho, a mais comum: usar o conhecimento da nossa biologia para nos ajustarmos às exigências da vida dentro da civilização.

Isso pode ir do controle dos ciclos de sono para alguém que trabalha em vários fusos diariamente até o cultivo de kombucha para uso probiótico (e, me surpreendi, fazer um tipo de couro).

Me parece que o biohacking, ao combinar o estudo de biologia com a ética hacker (compartilhamento, descentralização, melhoria do mundo…), se apresenta como um conjunto de conhecimentos e técnicas com objetivos benignos e flexíveis o bastante para atender a uma enorme variedade de aplicações. Provavelmente farei posts a cada uma que for descobrindo e achar que entendi o suficiente para compartilhar aqui.

Referências

  1. Team Human, Douglas Rushkoff
  2. The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biolog, Ray Kurzweil
  3. Nosso Futuro Pós-Humano, Francis Fukuyama
  4. From Transgender to Transhuman, Martine Rothblatt
  5. The Transhumanist Wager, Zoltan Istvan
  6. Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene, Donna Haraway
  7. O Explorador de Abismos: Vilém Flusser e o Pós-Humanismo, Erick Felinto e Lucia santaella
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