Tenho dito que o maior desafio individual que teremos que superar nesse século é o desenvolvimento de uma cultura que nos permita filtrar o fluxo virtualmente infinito de informação a que somos expostos.

É verdade… É bem provável que sejamos memeticamente programados para ser máquinas processadoras de informação sem vontade própria.

No entanto há um desafio coletivo que talvez esteja na raiz da doença mais séria que enfrentamos: a crise da empatia nos torna angustiados e depressivos.

Justamente a empatia que é uma das grandes diferenças entre o animal humano e os demais.

Justamente a empatia que está intimamente ligada à longevidade (vídeo de Dan Buettner sobre o segredo da longevidade no TED)

Antes de dar más notícias tenho que dizer que, ao contrário do que muitos dizem, não creio que o vilão da falta de empatia seja a Internet apesar dela ter peso nesse sentido em um ponto pelo menos, falarei dele mais tarde.

O contato por telefone, carta, chat (gtalk, messenger), Skype, troca de presentes nos jogos sociais do Facebook não nos tornam frios e distantes. Muito pelo contrário.

O contato com outros humanos sem poder ver suas expressões ou mesmo interagindo com eles somente através das suas criações virtuais (como uma fazendinha do Facebook) nos torna capazes de levar nossa capacidade de empatia a um novo estágio.

As redes sociais online são um dispositivo que tem nos ensinado a ter mais empatia.

Isso sem falar na forma como ela (a Internet) facilita a intimidade de quem tem relacionamentos offline (Stefana Broadbent no TED)

Apesar de tudo isso o Mundo extremamente contectado que temos hoje (e mal vimos o começo do fenômeno) cria um paradoxo na empatia: o da oferta infinita que derruba o valor da amizade para zero.

Se bastam 10 minutos online para encontrar em um novo grupo de amigos com interesses semelhantes aos nossos por que vamos nos submeter aos momentos difícies das amizades? Por que vamos fragilizar nossos relacionamentos dizendo aquelas coisas difícies que o amigo precisa ouvir, mas não vai gostar?

Some isso ao contato constante, afinal já não é mais tão fácil se afastar das pessoas pois elas continuam aparecendo nos status dos amigos em comum no Facebook, são retuitadas e seus posts aparecem sem nosso Reader quando alguém gosta do que leu.

Preste atenção, pois não estou dizendo que nas décadas de 50 e 60 é que havia intimidade e empatia, não é bem verdade. Tinha mais pois havia menos opções de amigos então nos dedicávamos mais a eles, mas o problema já existia e me parece ser antes um efeito colateral de cidades superpovoadas e sem uma estrutura celular capaz de criar o senso de vizinhança (se bem que tive a sorte de passar a infância no Bairro Peixoto que é um tipo de oasis nas entranhas de Copacabana – RJ).

Nós humanos, como a maioria dos outros animais, precisamos da conexão emocional com os outros, precisamos da empatia que é a capacidade de se sentir no lugar do outro.

Zumbis. Isso nos leva aos zumbis 🙂

Além e muito acima do problema da facilidade para criar novas redes sociais offline (seja mudando de boate, academia de ginástica ou perfil no Orkut) está o medo patológico que temos uns dos outros.

Em uma cidade com seis milhões de habitantes não há somente uma infinidade de possibilidades para formar novos grupos sociais, há uma infinidade de rostos por quem não temos a menor empatia e, pior, podem ser assaltantes, psicopatas ou somente vizinhos chatos que colocam as caixas de som na janela nos obrigando a ouvir músicas que odiamos.

Tudo isso alimenta justamente a anti-patia e vamos nos sentindo cada vez mais afogados em um mundo de pessoas diferentes e incompatíveis conosco e com nossos amigos.

Em uma tentativa pouco eficaz corremos para redes sociais online onde tentamos nos cercar de milhares de amigos, contatos ou seguidores. Tudo para achar que não estamos sós, que somos parte de um grupo forte e numeroso.

Esse é o problema. Tem pouco a ver com memética (exceto pelo fato que memeticamente é bem provável que sejamos impelidos a continuar construindo redes de relacionamento cada vez mais extensas) e muito a ver com o nosso crescimento desordenado.

É claro que eu jamais traria um tema tão assustador à baila se não tivesse algumas ideias de como começar a resolvê-los.

A melhor solução é utópica: mudar a organização das cidades para facilitar a formação de grupos de amigos mais coesos, vizinhos.

Felizmente a maioria das utopias pode ser alcançada a pequenos passos e a reestruturação das nossas cidades provavelmente será um processo vital do século XXII (felizmente pretendo viver alguns séculos).

Penso em outras formas de amenizar o paradoxo da empatia formando grupos mais coesos simplesmente pela força da nossa sabedoria: temos que perceber que ter os mesmos amigos por muitos anos é uma parte importante, senão essencial, da nossa saúde mental, física, social e até espiritual.

O grande desafio nesse caso, ao contrário do que surge do fluxo de informação, é coletivo.

Se pretendemos afastar os espectros da depressão e ter uma vida mais saudável devemos começar a conversar sobre isso com os amigos e escolher aqueles que estão dispostos a seguir a mesma jornada. E não precisa muitos. Basta quatro ou cinco grandes amigos, afinal na década de 60 aparentemente a média eram 3…

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