Imagem: Sérgio Rola

Olhamos para o país e nos deparamos com uma imagem desoladora, um paredão de deteriorização que se estende além do que nossos olhos podem ver.

Coberto de janelas que nos permitem entrever as cenas do poder político, corporativo, de marketing, midiático e, felizmente ou infelizmente, a cacofonia de visões dos outros 100 milhões de brasileiros conectados à Internet e que desfilam por nossas timelines filtrados pelos algoritmos das redes sociais e nossas escolhas de contatos (online e offline).

Esqueça a tolice das bolhas que nos afastam. O problema são as bolhas que nos aproximam criando uma torrente selvagem de informação sobre nossas cabeças.

Vivemos um momento de caos em que nossa mente grita desesperadamente por um chão onde possa pisar, nem que esse chão seja a terrível perspectiva de um golpe que derrube a democracia ou a permanência de um governo eleito que percebemos como um tipo de confraria infernal.

Estou sendo muito vago? Coloquemos então pingos nos “is”.

Temos três grupos no Brasil hoje. Dois grandes e um gigantesco.

O primeiro grupo grande vê o governo atual como encarnação ou pelo menos símbolo da corrupção e crê que somente com sua interrupção e, preferencialmente, aniquilação poderemos seguir na erradicação da corrupção no Brasil. E a raiz de todos os nossos males estaria da corrupção.

O segundo grande grupo também vê a corrupção como a raiz de todos os males, mas crê que a retirada do governo eleito não passa de um golpe para colocar outros corruptos no poder (talvez piores) e, além disso, aniquilar o processo democrático de eleição de políticos.

Os dois grupos são compostos pelo que se convenciona chamar de elite econômica e cultural do país. Não ultrapassa, talvez, 5% da população.

O terceiro e gigantesco grupo são cidadãos, em sua maioria das classes C, D e E, que estão além das nossas lentes. Moram, seguindo a metáfora da imagem desse post, em apartamentos sem janelas. Eles podem se perceber excluídos de toda a disputa dos dois últimos anos percebendo que nenhum dos grupos políticos promete entregar o que precisam. Para eles talvez a corrupção não seja a raiz de todos os problemas, mas um denominador comum com que sempre lidaram. Talvez esperem espaço para sua cultura, seu empreendedorismo, seu acesso a plantar, estudar, se desenvolver. Suas vozes estão nas expressões artísticas de periferia, apagadas da mídia e dos nossos olhos nos últimos tempos.

É claro que essa é uma visão desse blog sob a ótica de movimentos cognitivos e culturais, ou seja, meméticos.

A hipótese é que o século XXI é dominado por uma força nova, similar à que vimos depois da prensa de tipos móveis e a explosão de livros no século XVI (que nos trouxe inclusive a ciência moderna, que revolucionou nossas estruturas religiosas, sociais, culturais, econômicas, políticas…). Entretanto agora a revolução cognitiva é muito mais abrangente, ainda estamos longe de perceber sua extensão, mas podemos desconfiar dela ao ver jovens em tribos abandonadas obterem acesso ao conhecimento para gerar energia com moinhos de vento ou grandes massas populares se mobilizarem espontaneamente para pressionar seus governos disparando fenômenos como a Primavera Árabe ou o Occupy.

“É, mas as coisas só pioraram depois disso” você pode dizer. Com razão. No entanto de onde vem a ideia de que movimentos meméticos, ondas cognitivas que contaminam populações inteiras, tem o objetivo de criar um mundo idílico? Aliás, que tem qualquer tipo de objetivo?

O que temos são cada vez mais pessoas, cada vez mais conectadas derrubando barreiras culturais, ideológicas, sociais (já disse para esquecer essa tolice de bolhas, não é?) e o resultado disso é imprevisível.

Tudo que podemos fazer é tentar observar sinais que conectem um movimento a outro.

As manifestações de 2013 tinham claras ligações com o Occupy de 2011, que era um eco da Primavera Árabe. Esse sistema memético nesse momento está aparentemente adormecido.

Aparentemente pois as manifestações consideradas de direita que vem ocorrendo cada vez mais intensamente desde o ano passado mostram uma gênese similar, mas se propagando por grupos que observam o mundo por outro viés.

“Ah! Mas meu viés é de direita e eu estava nas manifestações de 2013!” tenho certeza que muita gente pensará. Outros dirão que não existe direita e esquerda, mas preste atenção que me refiro ao viés, que é uma forma de perceber a realidade. Se há uma coisa clara é uma parte das pessoas se divide entre essas duas abordagens e, assim como acontece com o espectro da sexualidade, não é uma condição binária e sim uma escala analógica. Podemos inclusive ser “viés fluidos”.

A essa altura você já deve ter percebido porque tenho demorado tanto para escrever esse artigo (e porque meu primeiro vídeo tentando sintetizar a ideia não deu muito certo): estamos diante de um verdadeiro desafio lógico digno de Einstein.

São variáveis demais para analisar e, para piorar, precisamos mais de alguma resposta que nos conforte do que uma visão mais realista.

Vamos tentar sintetizar:

  • O mundo passa por um fenômeno global de demanda por uma nova forma de democracia, mais participativa que a atual, onde a sociedade constrói uma voz coletiva que deve ser ouvida e considerada nos jogos de poder. Isso está tanto nos fenômenos sociais das últimas décadas (bem estudados por Castells em Redes de Indignação e Esperança), quanto na cultura pop, que é um dos nossos melhores sensores para medir memes que predominam na sociedade. O sucesso de Jogos Vorazes, Divergente e até de Batman X Super Homem tem algo a nos dizer sobre a nossa voz coletiva;
  • As mudanças nas estruturas de poder político, comercial, midiático impostas por isso são assustadoras para os protagonistas do paradigma do século passado. Não precisamos de teorias da conspiração para justificar o aparente “golpismo” de cada um desses grupos, basta que eles lutem instintivamente para manter sua posição para gerar o quadro que vemos hoje no Brasil e outros países;
  • A corrupção não é nosso maior problema. Não é o maior problema de praticamente nenhum grande país, ela é um dos sintomas de um sistema que precisa ser mudado, aliás, que está em transformação. Podemos tentar nos curar dela assim como podemos estancar o sangue de feridas que sofremos, mas é precisamos parar de nos ferir. Ou seja: o sistema precisa mudar.
  • O novo sistema é a pergunta para a qual ninguém tem resposta. Alguém anteviu a democracia moderna às vésperas da Revolução Francesa? O desafio é similar.
  • No entanto o relativo silêncio da maior parte da nossa população (vá lá em cima onde procurei mostrar que pró ou contra impeachment são uma minoria) sugere que ainda esperamos por uma promessa que nos pareça promissora.
  • Tenho dito desde o final de 2013 que não haveria giga-manifestações antes do fim dos Jogos Olímpicos, em parte porque desconfio que existe um consenso inconsciente de que o Estado não permitiria que a festa fosse estragada, em parte pela hospitalidade ainda inata do brasileiro e finalmente porque é necessário foco para surgir um novo meme com força para mobilizar as massas, uma nova esperança de mudança ou ameaça que gere indignação (como a imposição de um governo não eleito pelo povo);
  • Vemos então um móbile onde disputam basicamente quatro forças: nós (povo), mídia, políticos e corporações. Todos interligados pois o povo se alimenta da mídia que obtém recursos do povo e de corporação dependendo de políticos para permanecer em funcionamento, políticos que podem ser investigados e denunciados pela mídia que pode fazer isso a favor ou contra esse ou aquele grupo corporativo que também pode ser alvo de políticos e da mídia, mas que, a propósito, vende e é composto por pessoas do povo.
  • O fim dessa história só o tempo dirá, mas se a História nos ensina algo é que as liberdades, direitos e poderes do povo sempre seguem avançando e há uma razão memética para isso: quando mais autonomia e acesso a recursos econômicos, políticos, culturais a população tem, mais produzimos, modificamos e desenvolvemos nossa sociedade memética. Podemos observar isso pelo menos nos últimos 10 mil anos.

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