O professor colocou na prova:

Segundo a grande pensadora contemporânea Walesca Popozuda, Se bater de frente:

a) É só tiro porrada e bomba

b) É só beijinho no ombro

c) É recalque

d) É vida longa

A reação foi fogo em palha: alastrou-se como um relâmpago pelas redes sociais online, offline e pela mídia. Estava no sorriso incrédulo na roqueira às 7 da manhã na padaria do bairro ao ver o telejornal, estava nos papos de família e nos botecos.

O grito geral era o absurdo de uma escola colocar como grande pensadora a cantora popular de funk que não escreve e nem fala o Português culto cometendo erros generosos de concordância para dizer o mínimo.

Estaria clara a falência da escola pública e a estupidez dos alunos e professores do ensino… Bem, que ensino mesmo? Público? Fundamental? Universitário? Quase ninguém se interessou em saber, muitos sequer perceberam que se tratava de uma prova de filosofia e se perguntaram o que a pergunta estaria fazendo ali.

Não importava pois, e esse é o ponto central, é óbvio que Funk não é cultura e uma mulher funkeira e voluptuosa não pensa. A mera referência a isso é o horror! O horror!

A pressa com que o caso foi julgado e concluído por boa parte das pessoas é, em minha opinião, reflexo de uma competição memética maior.

De um lado temos uma enorme maioria de brasileiros que estão cercados pela cultura do funk, pela realidade das ruas, do transporte público, da escola e da saúde fornecidos pelo Estado gratuitamente, mas, acima de tudo, estão inseridos no que é chamado de povão.

Eles são os nens, os que ouvem funk no celular sem headphone, que tem a pele negra, fazem rolezinho nos shoppings porque agora eles, em conjunto, compram mais do que os outros, a elite.

Vejo muitos torcerem o nariz para as histórias distópicas como Jogos Vorazes e Divergente, mas nós vivemos o mesmo abismo entre facções e talvez por isso tais obras façam sucesso.

Olhando através dos vidros entreabertos dos carros, das janelas dos prédios, dos hospitais que mais parecem hotéis de luxo temos a chamada elite.

As classes definidas como altas enxergam a si mesmas como bem instruídas e politizadas, mas mostram sua docilidade e alienação quando respondem à falta de qualidade do serviço público pagando por ele duas vezes: uma ao pagar impostos e outra quando compram carros, colocam seus filhos em escolas particulares e investem fortunas em planos de saúde e previdência privada: alienam-se do ambiente político, social e econômico vivendo em um Estado paralelo enquanto o chamado povão vive com um Estado ausente.

Os dois grupos naturalmente tem seus caldos primordiais meméticos onde sua cultura germina e se desenvolve.

O do “povão” é a laje, o da elite é o shopping center ou o boteco com preços #surreais. Um come cajuzinho, o outro cupcake. Um ouve funk o outro trilhas internacionais ou belas menininhas fazendo cover de divas americanas.

Veja bem. Aqui não há qualquer julgamento de valor entre as duas cultas, tento traçar apenas os dois mundos que convivem, de um lado a “Capital” de Panem, de outro os “Distritos”.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil e inspira inclusive filmes como Distrito 9.

No entanto temos aqui uma oportunidade de auto-crítica e de reflexão.

Por que a indignação?

A viralização da indignação sem qualquer reflexão reduzindo milhares de adultos, nas palavras de um dos alunos que fez a prova, ao “Estágio Intuitivo ou Simbólico de Piaget. Esse é aquele estágio em que a criança possui uma inteligência egocêntrica, sendo assim ela sente, pensa e age a partir de si mesma e não se coloca no lugar do outro.”

É sintomática. Trata-se ao meu ver, de um impulso de defesa territorial. Não se deseja que o ambiente memético do outro interfira e ameace o próprio.

Por isso a “horda de pretos” que invade shoppings assusta como ouvi outro dia num papo entre senhoras. Por isso não se aceita que uma mulher, voluptuosa e funkeira possa ser, em qualquer contexto, chamada de pensadora, muito menos de grande.

Não se admite que a cultura popular possa ter qualquer teor “nobre” ou de “alta cultura” (ainda estou para entender o que é alta cultura).

Os mesmos que reclamam da invasão fundamentalista religiosa no estado muitas vezes não querem admitir a invasão da cultura do povo na elite.

Trata-se de instinto de preservação memética.

Mas ganha o mais forte, esse é o jogo, certo?

Sim, claro, se estamos falando de organismos irracionais ou com percepção limitada das formas como sua presença interfere no futuro. Tais organismos querem apenas repassar seu gens ou seus memes adiante.

Quando falamos de seres dotados da capacidade de se colocar no lugar dos outros, compreender que uma sociedade mais justa é mais segura para todos, que indivíduos capazes de questionar sua própria realidade e reproduzir esse impulso em sua comunidade são vitais para o desenvolvimento de uma cultura que, em última instância, pode definir a diferença entre a viabilidade da nossa civilização ou seu colapso no futuro, então devemos buscar meios de mesclar os “caldos meméticos primordiais” onde as diversas culturas germinam e se desenvolvem.

No lugar de tolerância às diferenças devemos ter em nosso foco a admiração delas.

A moça de bota plataforma, roupas negras, maquiagem pesada, correntes amarradas na cintura e símbolos estranhos estampados na blusa não é uma aberração, é mais uma manifestação do vasto espectro memético da humanidade.

Foi de propósito?

“Ah!! – Talvez você diga – e você acha que o professor pensou nisso tudo quando fez a questão? Eu ainda acho que ele não tinha nada na cabeça e pensou em boas razões quando a coisa tomou grandes proporções”

Francamente? Não importa.

Lendo a os comentários de um dos alunos dele (nos links mais abaixo) vemos surgir a percepção de que a capacidade de pensamento e reflexão não é prerrogativa exclusiva  da Elite. Não se trata de uma divisão estanque entre as facções da abnegação (povão) e erudição (elite) e todos são divergente ou talvez convergentes.

O “negrinho” da periferia pode filosofar. Valesca Popozuda, que teve acesso ao mesmo sistema de ensino deles e portanto não domina a língua culta, pode inspirar sua música em aforismos de Schopenhauer (não que isso seja grandes coisas, mas é alguma coisa) assim como a Pitty já se inspirou em Hobbes e foi criticada por isso: ela também não pode fazer cultura.

Casos como esse sempre me lembram da fila de adolescentes de todas as idades e classes indo assistir Dostoiévski no teatro porque a atriz global estava na peça. Nas mãos de vários deles o texto da peça. Teriam ali o primeiro contato com a “alta cultura”.

Alta cultura nasce alta?

Surpreende também a falta de cultura dos cultos que parecem ignorar que Shakespeare, Dumas, Machado de Assim (o mulato), Van Gogh, Toulouse Lautrec e muitos filósofos, cientistas e artistas nasceram no fosso fétido da cultura pop, andavam entre prostitutas e pobres ou eram desprezados pela elite cultural.

Isso acontece porque cultura não é arte.

A arte perverte a cultura, desestabiliza alicerces para abrir espaço para novas estruturas, novos significados.

Duvido que Valesca Popozuda venha a ser uma Grande Pensadora, mas grandes pensadores são fecundados por milhares de tentativas mundanas.

Basta observar o próprio clipe da música Beijinho no Ombro (nome da música citada na prova) para notar que algo diferente está acontecendo no cenário da cultura funk.

Nem é necessário analisar se há na letra da artista sinais de uma representação mais segura e independente da mulher na cultura brasileira, apesar de achar isso discutível, pois há uma clara sofisticação da construção musical do funk, mas esse é assunto para estudiosos da música e de antropologia e não é foco desse rápido artigo.

Conclusão

O ponto crucial desse episódio talvez esteja no poder concedido ao jovem da periferia quando a cultura que o cerca é incluída na alta cultura do ensino escolar dando sinais de que podemos estar rumando para a solução do problema apontado por Castells na imagem mais acima.

Os comentários de um dos alunos que fez a prova também merecem a leitura atenta ainda que seja difícil para quem se apressou em condenar o professor, a escola e os alunos. O link está logo abaixo.

Links

 

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