Imagem: Canal Bemvindo Sequeira

Aproveito o vídeo do Bemvindo Sequeira sobre a decisão dos deputados ontem a favor da continuação da abertura do processo de impeachment da Dilma. Ele apresenta vários pontos que pretendo colocar no meu próprio vídeo.

Vejo em minha TL um número razoável de pessoas lamentando a morte da democracia enquanto outro número igualmente razoável comemora um avanço no combate à corrupção.

Ambos provavelmente estão errados.

A democracia

A democracia não se limita a governos eleitos, ela é uma cultura de liberdade de expressão, de manifestação da maioria sem esquecer da minoria, ela é um exercício de empatia ao tentar resolver esse impasse. A democracia nasceu em um campo muito mais hostil que esse, ela continua avançando em campos dominados pelo ódio, pelo fundamentalismo e pela ignorância.

Vimos sim a democracia ser agredida por políticos que agiram em sua maioria em nome de algum deus, das próprias famílias e dos seus interesses admitindo isso para o olho que nunca se fecha da sociedade. Não se fecha e não se esquecerá. Não será esquecido que abriu-se um processo contra uma pessoa suspeita de corrupção enquanto se ignorava diversas outras cobertas de evidências de corrupção.

A democracia, quando ferida, se fortalece pois seus inimigos precisam se colocar à luz para efetuar os ataques.

Diz-se que o país está polarizado, mas esquece-se que há um terceiro grupo que supera em muito os números dos dois polos somados: os que observam sem se manifestar?

Estivessem eles iludidos pela ilusão da polarização teriam se juntado a esse ou aquele grupo.

A maioria percebe, então que, como disse Bemvindo, não há polarização e sim um sistema que não aprecia a diversidade e a justiça social. Sistema administrado por essa ou por aquela “diretoria” que luta com garras e presas para se agarrar ao poder… Mesmo que, no processo, precise congelar o país intensificando suas crises.

Evite a ingenuidade da morte da democracia. Basta um breve olhar histórico para perceber que é nas injustiças que a democracia se fortalece e nos tempos de calmaria se acomoda e fica vulnerável.

Democracia é o exercício da empatia como disse. Cada vez que nos chocamos com a falta de empatia do mundo estamos reconhecendo que a democracia precisa se mover novamente, mas não podemos esquecer que, se notamos o problema, milhões de outros estão ao nosso lado. Não somos melhores que ninguém e quem grita contra a democracia também precisa em seu âmago de empatia…

O avanço contra a corrupção

Assim como foram iludidos os que acharam que a queda de um governo é a queda da democracia, outros de nós foram iludidos a crer que o Lava à Jato era um processo contra a corrupção.

Bemvindo colocou bem: trata-se da disputa entre duas diretorias, duas chapas dispostas a tudo para manter o poder.

A que estava lá fez todas as alianças possíveis com aqueles que, gananciosos, agora dão passos para lhes tomar (retomar?) a posição.

O que assistimos foi uma corrida desembalada atrás de quem estava no poder ignorando-se no caminho as evidências (fortíssimas) que levavam aos corruptos “errados”.

Fomos enganados, mas vivemos em uma democracia e posso estar aqui dizendo isso, Bemvindo pode estar lá dizendo o que quer, corruptos cheios de contas no exterior provas contra eles podem dizer o que quiserem.

Essa é a mágica da democracia, um direito que foi capaz de crescer quando era muito mais fraca e os inimigos eram muito mais fortes. Quando há o poder da voz ela é uma força inexorável.

É muito provável que vejamos o impeachment se consumar no início do ano que vem depois de um longo período do país congelado nessa disputa entre dois grupos que anseiam pelo poder. Um presidente será escolhido sem que nós possamos votar e viveremos uma década, talvez mais, de consequências que, no entanto, provavelmente serão as mesmas caso o impeachment não se concretize.

Isso é ruim. É péssimo. Todos sofreremos.

Todos ganharemos.

Essa é outra mágica da democracia: ela sempre sai ganhando.

Mesmo que estejamos assistindo um bando de políticos mais comprometidos com a corrupção (de acordo com a imprensa nacional e internacional com base em evidências como informações de bancos suiços e vazamentos como o #PanamaPapers) tomarem o poder de outro cujo envolvimento foi mal demonstrado, o que é ruim, o sabor que fica, tanto para quem acha que a democracia morreu, quanto para os que festejam um suposto avanço na luta contra a corrupção, é o de que qualquer um pode ser processado, qualquer um pode ser investigado. Acabou a república da pizza.

Há 25 anos ou mais eu já comentava que tinha sido um erro fazer campanha política baseada em acusações de corrupção, que era um caminho sem volta.

Se hoje perdemos os principais corruptos e entregamos a eles o governo do país não é diferente da Revolução Francesa, quando a democracia moderna nasceu: aqueles que guilhotinaram serão guilhotinados em sequência (ainda bem que evoluímos muito e a guilhotina não é mais de metal).

De  uma forma ou de outra nós todos perdemos e ganhamos. Perdemos ao caminhar para as garras de um grupo corrupto com muito mais aliados e poder que aquele que é retirado (se fosse o contrário cairiam antes aqueles que tem muito mais provas contra eles), mas ganhamos a mobilização e a luz lançada sobre quem é quem.

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