Imagem: Protesters “Occupy” an Oakland building after breaking in, Nov. 3, 2011. (Photo: AP)

Como sempre há muitos leitores novos (sejam bem vindos) é bom esclarecer rapidamente que o foco desse site é abordar a sociedade pela tal “big picture” ou visão geral. São dois os motivos para essa abordagem: primeiro que é uma forma de evitarmos os enganos causados por coisas que parecem grandes, mas não passam de pequenas ondas. Segundo que a abordagem que uso é mais eficiente assim.

Dito isso temos que tentar entender as manifestações que temos visto permeando várias sociedades e culturas nesse século e, mais emblematicamente, desde 2011 (daí a escolha de uma imagem dessa época).

De onde vieram essas manifestações? O que elas tem a ver com as que vimos no Brasil em 2013?

Para essas duas perguntas sugiro a leitura de Redes de Indignação e esperança de Manual Castells, mas podemos resumir como a combinação de uma massa crítica de insatisfação elevada ao patamar de indignação com esperança de ser capaz de interferir graças à sensação de poder gerada pelo grau de conexão em redes sociais (online e offline) e de recorrência do mesmo discurso e, principalmente, impulso de ação.

Tanto em 2011 no mundo quanto em 2013 no Brasil vimos grande dificuldade da mídia e cientistas sociais em entender o que articulou aqueles movimentos. Uns tentavam localizar “cabeças” enquanto outros, reconhecendo que tais estruturas era horizontais, criticavam a eficiência ou legitimidade de movimentos acéfalos.

No entanto aquelas manifestações, como as de 2013 no Brasil, não eram um movimento, eram um fenômeno. Um sinal de que ideias estavam disputando lugar na sociedade, se adaptando, evoluindo a tal ponto que causam afloramentos na forma de manifestações.

É isso que chamo de Manifestação que vale.

Claro que não significa que as outras são irrelevantes, mas tratam-se de um modelo antigo que parte de uma estrutura de poder de articulação e mobilização que parte de uma minoria contaminando uma maioria enquanto as manifestações novas invertem essa estrutura.

As duas formas tem efeitos diferentes: as novas são agentes de transição de paradigma as antigas atuam na manutenção.

Seria um exagero supor que as primeiras são necessariamente positivas, afinal elas conduzem a transformação pelo desequilíbrio e somente depois descobriremos que novas estruturas se formarão, e também é exagero atribuir as manifestações do modelo antigo meramente a articulações conspiratórias, até porque haverá grupos “conspirando” para fortalecer os dois tipos de manifestações de acordo com seus interesses.

O ponto principal é que massas são frequentemente influenciáveis, mas raramente manipuláveis.

Por que esse papo todo?

Comecei a escrever isso pensando na quantidade razoável de contatos comentando que a operação Lava à Jato parou e que a mídia deixou de falar nela:

O canal Democratize do Medium (de viés à esquerda se você quiser rotular) fez o trabalho de casa apontando que o que realmente teria acontecido é que os nós da Rede que alimentavam os compartilhamentos de notícias sobre impeachment e Lava à Jato teriam se desmobilizado.

Pois bem, isso vai ao encontro do que tenho observado desde o ano passado: que estamos vendo mobilizações  do modelo “antigo” infladas por esforços “top-down” e com caráter de manutenção do sistema.

Ao contrário de mobilizações espontâneas que se iniciam e encerram nos diálogos (que chamo de subterrâneos) que atravessam várias redes de contato como se fosse um tipo de “inconsciente coletivo” as mobilizações do modelo antigo se esvaziam quando cessam os estímulos externos.

Claro que pode-se dizer que a aprovação do processo de impeachment na câmara dos deputados pode ter satisfeito o desejo de catarse das fatias da sociedade que estavam se mobilizando, no entanto o processo também é um evento externo que não implica em qualquer ação dos manifestantes cujo papel era simplesmente de ir às ruas pedir pela troca de um governo por outro. Ambos são governos inseridos, alimentados e alimentadores do sistema construído no século passado e não mostram interesse de mudança.

Temos que observar que nem as mais numerosas das mobilizações desde 2015, mesmo fortemente estimuladas pela mídia e grupos online organizados, chegaram perto do contingente de 2013. O povo continua esperando o fogo que acenderá seu pavio.

É como uma revolução à moda do filme Matrix: mantém-se o sistema dando aos indivíduos uma ilusão de revolução.

O que as massas nas ruas pediam em 2013 não era ilusão, era mudança de estrutura e isso ficou bem claro para a maioria dos jogadores do tabuleiro político-econômico (na minha opinião) que decidiram fazer de conta que não entenderam.

E agora?

Duvido muito de quem se diz capaz de estabelecer datas para as coisas acontecerem.

Ok. Tenho dito que não teremos grandes manifestações espontâneas antes do fim dos Jogos Olímpicos, mas trata-se de uma hipótese: depois da truculência de 2013 formou-se um consenso de que o governo não poupará “sangue, porrada e bomba” para conter manifestações populares.

Com isso esvazia-se o elemento “esperança” da equação redes-indignação-esperança.

As redes precisam ficar muito mais fortes (e estão sobre ataque contínuo), a indignação precisa crescer muito (o que pode acontecer dependendo dos atos do novo governo após o afastamento da Dilma) ou precisa haver esperança das mobilizações terem efeito.

A esperança não poderá ser apenas em ser ouvido, mas em ter alguma estrutura proposta para assumir a transição do sistema atual. Talvez um grupo político que, até o momento, não vi.

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