Pouca gente, se é que há alguém, pode dizer que esperava o que viria a acontecer quando a polícia foi usada para reprimir com violência os protestos contra o poder em torno do transporte público no mês passado.

Os fatos e eventos que vem se sucedendo desde então provavelmente continuarão a desafiar tanto a previsão quanto a análise por muito tempo e estou entre os que se encontram meio congelados diante da perplexidade.

Por isso não tenho escrito, mas, lembrando que um blog é um espaço de experimentação, decidi buscar um caminho para a reflexão escrevendo mesmo com o risco de errar.

Vamos começar tentando fazer uma lista de fatos e eventos que podem ser úteis para entender a dinâmica das massas, mas antes disso percebo que é necessário definir as massas envolvidas conforme meu ponto de vista.

As Massas envolvidas

Todos sabemos de uma das massas: a população.

Ela é claramente composta por universitários e intelectuais, jovens atraídos pela oportunidade de exercer sua natureza contestatária ainda que não saiba bem o que está contestando, cidadãos das classes C e D em menor número (aparentemente) e grupos de algumas dezenas de vândalos de acordo com as declarações da polícia (tipicamente entre 30 e 50).

Vale a pena uma análise subjetiva dos vândalos o que é difícil pois poucos os viram de fato restando algumas imagens para analisar e os testemunhos de amigos que sugerem que há saqueadores, pessoas revoltadas depois de serem atacadas, pessoas perturbadas que agem isoladamente e o que vou chamar de vândalos organizados que tanto podem ser os tais agentes plantados (pelo governo, pela oposição ou sabe-se lá por quem já que não há investigação divulgada sobre esses grupos) quanto pessoas comuns de caráter mais bélico que se organizam em resposta à violência do estado para combater fogo com fogo.

Existe outra massa que suspeito que a maioria não vê como massa, mas do meu ponto de vista é um grupo quase tão heterogêneo e desgovernado quanto a massa popular: o próprio governo.

Chegando aqui percebo que talvez massa não se aplique pois dificilmente esse grupo age sem um núcleo diretor enquanto nas massas esses núcleos se perdem na profusão de grupos diretores que se reúnem.

No entanto vejo um comportamento de massa nas ações do governo que parece não refletir sobre as consequências das suas decisões e nem ser capaz de controlar seus vários braços como os supostos agentes infiltrados na multidão que acabam alimentando a ira dela e atraindo cada vez mais cidadãos contra o governo e a favor dos chamados manifestantes.

É claro que o governo pode simplesmente não concordar comigo que essa tática de violência agirá contra ele, mas vamos a isso mais para frente. Por hora ficarei com a seguinte hipótese:

“A mente coletiva do governo (e portanto um tipo de mente de massa) desenvolveu nas últimas décadas a crença de que a violência é o instrumento para calar o povo e segue usando-o contra camadas que reagem à violência de outra forma”.

Mas estou me adiantando e colocando hipóteses antes das evidências.

Vamos aos fatos e eventos (evidências)

  1. O Movimento Passe Livre organiza protestos contra o aumento das passagens
  2. A violência policial contra as pessoas que faziam protestos levou ao engrossamento progressivo das pessoas nas ruas
  3. Polícia, mídia e as próprias pessoas nas ruas dividem os manifestantes em dois grupos: quem protesta pacificamente e quem vai para praticar vandalismo
  4. As linhas de comunicação subterrâneas (é como eu chamo o boca a boca) sugerem que entre os vândalos há pessoas revoltadas com a violência da polícia e agentes infiltrados
  5. As manifestações nas ruas encolhem em número (passam a poucos milhares), mas crescem em frequência
  6. A mídia de massa abraça os rótulos “manifestantes pacíficos” e “pequenos grupos de vândalos” e retrata os exageros da polícia com certa naturalidade
  7. Bombas de gás lacrimogênio são usadas a vários quarteirões de onde estariam os “pequenos grupos de vândalos” atingindo famílias, crianças, moradores em suas casas e até clínicas (2 vezes pelo menos).
  8. Com frequência a polícia faz prisões, mas não parece pegar nem saqueadores, nem vândalos de fato.
  9. São achadas caixas de papelão e mochilas cheias de coquetel molotov, mas suspeita-se que foram plantadas (e realmente é difícil imaginar um vândalo passeando abraçado a uma caixa de papelão cheia de bombas). São poucas as imagens de ataques com esse tipo de bomba.
  10. Atos de vandalismo são relatados nos protestos em frente ao Copacabana Palace onde acontece a recepção do casamento de uma das herdeiras de Barata (que controla 25% do transporte público no Rio). Tanto por parte das pessoas que protestam (pneus esvaziados, carros arranhados) quanto de um convidado não identificado que atirou um cinzeiro ferindo uma pessoa. A polícia só intercedeu para dispersar a multidão e não usou gás lacrimogêneo. Essa é uma evidência interessante por sugerir que o comportamento dos vândalos e da polícia muda quando o confronto seria ruim para quem comanda o Estado.
  11. Desde o início das manifestações a polícia tem atacado jornalistas de grandes redes ou independentes impedindo que trabalhem livremente.
  12. Diversos ataques policiais a pequenos grupos de pessoas que tentam deixar os locais das manifestações são reportados incluindo um que causou a perda do olho de uma mulher.

Hipóteses

Tenho que considerar que meu universo de evidências é limitado e parcial, mas terei que partir dele.

As duas hipóteses que escuto com mais frequência é que a violência policial é proposital e arquitetada por grupos políticos. Numa delas o objetivo é conduzir as massas para a direita exaltando o poder pacificador militar e na outra o objetivo é fortalecer a esquerda preparando um golpe.

A primeira hipótese é de amigos de esquerda e a segunda de amigos de direita. Isso já serve de pista para serem descartadas.

No boca a boca (principalmente de taxistas, há de se estudar esse fenômeno comparando-o ao barbeiro) divulga-se que partidos de esquerda financiariam os vândalos.

Teorias conspiracionistas deviam ser descartadas de per si, mas isso seria anti-científico.

Me parece improvável que a esquerda disponha de recursos ou poder para comandar a ação policial para incendiar o desejo de revolução na sociedade. Além disso manifestações violentas tem grande possibilidade de alimentar justamente o oposto nos milhões que não estão na rua: o desejo de um estado com o pulso forte e de direita para abafar os protestos populares. Há quem prefira a paz ilusória à liberdade.

Isso pode fortalecer a hipótese do plano de direita e acho bem provável que as ordens sejam para reprimir com violência justamente com o objetivo de semear o medo em quem está em uma vida estabilizada ou pelo menos acomodada e não entrou em contato com o que está acontecendo nas ruas.

Vou manter essa hipótese como parte da equação, mas não creio que ela seja o suficiente para pintar o quadro inteiro.

O que nos interessa saber é qual é a força dominante nos protestos e onde eles nos levarão.

Naturalmente a minha hipótese para essa força é memética (esse é um blog sobre cibercultura e memética afinal de contas).

O que estamos testemunhando é resultado da acumulação de dois fatores principais, um histórico (Carlos Nepomuceno é uma fonte excelente) e outro memético.

Os dois fatores produzem e alimentam a mudança da estrutura de poder e de comunicação que temos assistido mais intensamente desde o fim do século passado e, principalmente, com o crescimento da Internet.

De forma resumida temos um crescimento populacional e encolhimento do planeta (pelo crescimento da tecnologia de comunicação) que cria novas demandas sociais por participação e voz no poder administrativo da sua sociedade.

Nas entrelinhas de quase todas as manifestações lê-se democracia participativa e transparência. Princípios que não interessam nem esquerdas e nem direitas que planejem qualquer tipo de golpe e devemos supor que os dois grupos percebem isso.

Esse ânimo reestruturador do poder (que não é local e sim global permeando praticamente todas as mobilizações sociais nas últimas décadas) deve ser o suficiente para demonstrar que as duas primeiras hipóteses, ainda que possam ocorrer em algum grau, não são a força motriz principal do que estamos assistindo.

A hipótese nesse caso é que o fenômeno é espontâneo, ele vem crescendo nas redes de comunicação subterrâneas e eclode nas ruas diante de qualquer estímulo maior (sendo os recentes a revolta na Turquia e a violência policial no Brasil) voltando ao subterrâneo logo depois de um certo número de grandes manifestações.

É o momento que vemos agora: pequenas manifestações tomam as ruas organizadas por grupos com os mais diversos objetivos e graus de conscientização.

Certamente haverá entre esses grupos tendências à direita, à esquerda, à anarquia, ao saque e destruição vazios, ao protesto cirúrgico contra o poder exagerado dessa ou daquela empresa perigosamente mesclada ao poder político.

Todavia todos acabam alimentando no que chamo de rede subterrânea o questionamente à estrutura do poder.

Basta olhar qualquer timeline do Facebook para asssistir os diálogos febris sobre tudo, desde as empresas de ônibus até a visita do Papa.

A forma como a mídia de massa aborda os acontecimentos tem uma grande influência, é claro, entretanto é difícil medir se ela ainda é maior do que o poder das redes subterrâneas.

Não que essas redes propagadas por email, mensagens, posts em blog, bares na esquinas ou papos em corridas de táxi tenham alcance maior, mas porque são amplificadas pelo zeitgeist da nossa época.

Aqui entro em um tema que exigiria vários posts que ainda não escrevi, mas vou tentar resumir usando um exemplo que tem funcionado muito bem, os filmes de zumbi.

O que ocorre é que o espírito de uma época (zeitgeist) transborda em sua produção artística e, a cada vez que você assiste uma novela, um enlatado americano ou escuta uma música das paradas está bebendo os memes do seu tempo.

Podemos usar também o viral Harlem Shake que parece uma enorme tolice, mas nos fala sobre ir contra as estruturas formais e ser livres também.

Já o caso dos filmes de zumbi eles podem ser vistos como metáforas para a nossa relação com a multidão ao nosso redor nas grandes cidades. Nos últimos anos temos visto filmes e contos que humanizam os zumbis e até os mostram se curando ao recuperar o amor ao próximo.

Se observarmos toda obra de ficção de sucesso buscando que memes as marcam veremos lá também o desejo de transparência do poder e voz para o cidadão.

É por isso que, a despeito dos esforços desde ou daquele grupo organizado (político ou não), os rumos da massa e dos protestos devem seguir no sentido de cobrar novas estruturas de comunicação, de poder e da própria democracia.

Sim, vejo o medo de muitos amigos de esquerda quando canta-se o hino do país ou há uma procura pela bandeira como se os símbolos fossem cimentados e significassem sempre a mesma coisa.

Não vejo no uso dos símbolos nacionais a força do nacionalismo de extrema direita ainda que o fascismo seja uma sobra que deverá perseguir a humanidade por muito tempo ainda: é um dos nossos “bugs”.

Ainda não me atreverei a estabelecer uma teoria, mas seguirei com a hipótese de que estamos assistindo uma mobilização espontânea de um pequeno percentual da população que deseja (mesmo inconscientemente) e alimenta um novo paradigma que leva a outra forma de democracia onde a transparência se impõe e a representação é mais direta.

A semente plantada por esse pequeno percentual encontrará solo fértil nas pessoas ainda adormecidas entre casa e trabalho porque elas não partem dos manifestantes, elas estão mescladas em nossa cultura popular e somente afloram e se materializam através das mobilizações nas ruas.

Os rumos inesperados dos ProtestosBR, se eu estiver correto, nos levarão continuamente a um desenvolvimento de maior politização e podem tomar novamente as ruas com vastas multidões assim que houver outro estímulo externo (como os protestos na Turquia) ou interno (que ainda não vi surgir).

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