Tremulava livre na Presidente Vargas

Tremulava livre na Presidente Vargas

Vejo várias afirmações e questionamentos sobre os recentes protestos no Brasil que me parecem equivocados, como “tem que ter foco”, “não aceitar partidos e fascismo” e “tem que ter um líder”.

Na minha opinião o fenômeno está sendo analisado frequentemente pelo foco errado, trata-se de um movimento de manada que integra uma infinidade de pessoas, e não de grupos, que se indignou com um excesso: a violência do estado contra cidadãos que foram às ruas para exercer seu direito de manifestação.

Tenho usado uma comparação com o futebol que me parece uma metáfora quase perfeita.

Cartaz

“Cansei de só estudar história, resolvi fazer parte dela”

O Brasil era um estádio vazio onde o governo, partidos políticos, corporações e mídia fazem o seu jogo sem platéia, e o jogo é uma copa do mundo. No campo cada um veste a camisa do próprio time e não a do Brasil, faz sua jogadas pensando em interesse próprio e não do jogo. Os jogadores não tem qualquer carinho pelo time ou pela seleção e mudam de lado guiados apenas por quem paga mais (estou falando dos políticos e dos partidos, claro).

Um pequeno grupo de torcedores decidiu ir ao estádio, viu o que estava acontecendo, não gostou, começou a vaiar e a resposta foi a violência da segurança que os enxotou do estádio “fora daqui, não é para vocês assistirem”.

Acontece que os torcedores hoje tem muitos amigos, estão separados entre si por menos de 4 graus e, a cada partida, mais gente ia para o estádio para reclamar da forma que o jogo estava sendo conduzido, para cobrar que o time usasse a camisa do país, para ver se o juiz estava ou não sendo comprado.

Então o estádio encheu! A multidão cantava o Hino, fazia imposições ao técnico, aos jogadores, apontava táticas ruins e exigia troca de jogadores.

Cartaz

Até quando você vai ficar sem fazer nada? #vemprarua

Foco e e líder são conceitos que simplesmente não se aplicam a tal multidão. É claro que individualmente há focos e líderes, mas eles se diluem no meio da voz coletiva e isso não é ruim, ruim é se não houver líderes e focos individuais.

Para preencher essa lacuna vemos no campo comentaristas esportivos (uns animados por finalmente alguém estar de olho no jogo, outros percebendo que se não agradarem os torcedores, podem ficar sem emprego) passam a apontar a necessidade de foco, de líderes e, pode ter certeza, o torcedor apaixonado vai formar sua torcida organizada, vai estudar as sutilezas do futebol e isso contamina os torcedores menos apaixonados, isso alimenta uma horda de torcedores cujos gritos de ordem podem não só animar o time, como também apontar direções a seguir e erros que não podem acontecer, afinal… tem gente de olho.

É simples assim: o povo brasileiro está começando a torcer pelo time, vai se organizar em torno de partidos que podem amadurecer muito no processo e se reaproximar da população que será partidária quando os partidos tiverem foco, são eles que tem que ter foco e não a massa total da população, o foco dessa é ser ouvida, ser respeitada e, finalmente participar do jogo.

Sai do Candycrush

Sai do Candycrush e #vemprarua

Só não podemos nos enganar, mesmo que fosse um milhão no Rio de Janeiro na quinta-feira, 22 de junho de 2013, e não 300 mil e milhões no Brasil inteiro ainda estamos longe de ver todos os torcedores no estádio! Muitos estão no radinho em casa e outros tantos sequer dão atenção ao que está acontecendo.

Temos muita estrada pela frente e é importante que não nos deixemos contaminar pelos desdenhosos orgulhosos que, como não foram eles que se mobilizaram, correm para dizer que a torcida é burra, manipulada e ignara (ok, burro e ignaro é usado para praticamente a mesma coisa, mas quero parecer mais inteligente que sou também).

Sugiro que evite principalmente o mito de que a mídia de massa controla o povo, que ver esse ou aquele programa estúpido torna a pessoa estúpida. Esse é um recurso de quem não encontra conteúdo próprio pois o que nos torna idiotas é o bom programa que não vemos, o bom debate que não temos o movimento que não fazemos.

Além disso vivemos em um país onde, felizmente, os maiores grupos de mídia vivem de nós, consumidores e não de recursos do governo e isso ficou bem claro na forma como a mídia se viu forçada a reconhecer a legitimidade das mobilizações: seu faro mostrou que não era uma demanda dos poucos milhares ou milhão nas ruas e sim da população como um todo. Se continuarmos assim ela será uma aliada e é necessário atingir a mídia de massa para fazer um movimento de massa.

Tá na hora de lavar esse país

Tá na hora de lavar esse país

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