Cartazes no protesto no Rio

Palavras de ordem e causas

O tipo de protesto que estamos vendo no Brasil tem suas particularidades, mas segue uma linha de protestos globais.

Desde o movimento Indignados na Espanha temos visto a aceleração das mobilizações populares espontâneas, mas já vemos o mesmo padrão em 2005 na revolta na França.

As principais características são:

  • Organização principalmente feita de boca a boca online através de eventos criados no FB e palavras de ordem propagagadas nas timelines (murais) e mensagens de outras redes além do velho email.
  • Não há como identificar os organizadores por não haver um único, mas centenas ligados apenas por algumas causas em comum ou eles se diluem quando a mobilização ganha volume e centenas de outros organizadores. Caso do Brasil como falarei mais abaixo.
  • Aversão às estruturas formais como partidos, mídia, governo e até o sistema econômico. Os indivíduos que participam podem não ter essa aversão e até ser filiados a partidos políticos, mas não levam isso para os protestos juntando-se ao descrédito generalizado.
  • Pluraridade das exigências. Os protestos são no sentido de inserir a população nas decisões políticas, econômicas, ambientais (ainda muito discretamente) e portanto abraça todas as causas reunindo até indivíduos que discordam entre si, mas concordam que “o povo precisa ter voz”
  • Se identificam automaticamente com outras manifestações semelhantes ao redor do mundo e são reconhecidas e apoiadas por cidadãos comuns em outros países pois eles também carregam a semente desse tipo de mobilização ainda que permaneçam em estado apenas potencial aguardando um estopim como foi o aumento das passagens de ônibus no Brasil.
Concentração entre a França Brasil e o CCBB 19h10

Concentração entre a França Brasil e o CCBB 19h10

Elas transbordam para o espaço offline nas conversas entre amigos, colegas de trabalho, bares ou até filas de mercado. É óbvio para muitos, mas ainda é necessário lembrar outros que não há fronteira entre online e offline. Tudo suficientemente forte que acontece em um se transfere para o outro.

Há anos observo o crescimento disso que venho chamando de fenôneno Occupy, mas somente nos úlitmos dias tivemos um afloramento significativo no Brasil (fui ao Occupy Rio, mas não chegou a tomar corpo significativo ainda que possamos identificar ali um ensaio) e fomos pegos de surpresa há dois dias por uma manifestação de grandes dimensões (esperava-se 10 mil e foram 100 mil apenas no Rio).

Recapitulando para contextualizar

Camera 360

Desde sexta-feira (três dias antes) a maior emissora do país, a Rede Globo, mudou o tom que vinha dominando as coberturas jornalísticas colocando em seu Jornal Nacional os manifestantes como pessoas comuns do povo e os políticos de São Paulo e Brasília como forças prontas para reprimir o direito de livre manifestação.

Alguns atribuem isso a “assumir as dores dos seus jornalistas mal tratados pela polícia”, mas não me parece que os grupos de mídia sejam tão emotivos e acredito mais que o faro dessas corporações lhes mostrou que se tratava de um movimento legitimamente popular (calma, vou falar sobre isso mais adiante) e, como toda empresa, se colocou ao lado dos seus consumidores.

Qualquer que seja o motivo provavelmente isso foi determinante para o crescimento das mobilizações ainda que a violência da repressão policial que disparava balas de borracha, gás lacrimogêneo e spray de pimenta indiscriminadamente contra manifestantes sentados, idosos, crianças, jornalistas e quem mais estivesse no caminho.

Desde segunda feira houve uma mudança completa na ação da polícia que passou da repressão desproporcional para a ausência deixando de proteger os manifestantes e o patrimônio público quando pequenos grupos de menos de 100 pessoas buscaram enfrentamento violento chegando a invadir e saquear lojas e bancos além de atacar prédios históricos. Há até relatos de que policiais indicaram aos manifestantes onde deviam ir para participar da baderna.

Vamos evitar teorias da conspiração por hora e ficar com a explicação da perplexidade das instituições diante de uma mobilização nacional dez vezes maior do que o esperado e com uma estrutura de coordenação difícil de entender.

A Globo intensificou seu apoio às manifestações afirmando que são pacíficas e um marco na história dademocracia do país e povoou toda a sua programação no dia seguinte (ontem) com notícias e entrevistas sobre o que foi sempre definido como protesto pacífico e legítimo. Os grupos que partiram para o enfrentamento foram mostrados como uma ínfima minoria que não representa e não se fez presente.

Nas redes sociais online nesse momento o clamor dá ênfase aos atos de violência, desta vez vindos de supostos manifestantes, que tomam principalmente a cidade de São Paulo e isso pode enfraquecer as próximas manifestações caso tenha sucesso em se transferir para o offline e, principalmente, a mídia de massa o que afastaria os cidadãos menos conectados por medo de se verem entre vândalos.

Amanhã haverá novas passeatas e veremos o que vai prevalecer: o apoio da mídia como a Globo ou a voz online que vem espalhando medo.

Três mentes funcionam melhor que uma, e sete bilhões?

Aqui entramos na análise memética do que está ocorrendo (e vou explicar porque não acredito em conspirações nesse caso).

É claro que uma pessoa sozinha encontra todas as limitações do ponto de vista único, dos vícios de raciocínio e perspectiva e pequenos grupos de uma ou duas dezenas de pessoas funcionam progressivamente melhor.

No entanto há um limite para isso. No occupy milhares de pessoas foram capazes de se manter eficientes graças a novas formas de organização que foram se desenvolvendo conforme o grupo crescia (como as assembléias e o megafone humano), mas quando 100 mil (na verdade esse é o número da polícia e há argumentos convincentes para considerarmos pelo menos 500 mil) se dirigem às ruas acompanhados pela Internet e TV por um número bem maior de pessoas o que temos é um tipo de mente coletiva caótica.

Existe um objetivo comum muito claro unindo todas essas pessoas e compondo o grito dessa multidão: voz ao povo e basta de desmandos.

No entanto essa mente coletiva não é capaz de se coordenar para apresentar caminhos para atender essa demanda, pelo menos não foi até agora e vejo grandes dificuldades para que ela seja capaz desse grau de organização e muito menos de consenso.

Isso não é realmente um problema pois a função dessa voz coletiva não é apresentar soluções e sim fazer o papel de uma torcida às avessas: no campo de futebol milhões de pessoas animam os jogadores, nessas manifestações milhões de pessoas são convidadas a participar dos processos políticos pois não estão sozinhas. Mas falarei melhor sobre isso mais adiante.

O grande problema é que, quanto maior a massa de pessoas, mais ela se torna vulnerável às emoções e as notícias de vandalismo, o ódio à Globo (a grande maioria das pessoas gosta da emissora e por isso ela é líder) e outras manifestações radicais podem tomar um corpo grande o suficiente para contaminar essa mente coletiva e pintá-la com tons obscuros para a maioria da população esvaziando o movimento.

Protestar para quê?

Cartaz anuncia invasão do Congresso

Conectados: Pouco depois de invadirem o Congresso em Brasília já havia cartazes anunciando no Rio.

Parece que o erro mais comum é considerar que a manifestação popular precisa vir com críticas e propostas consolidadas o que provavelmente não só é quase impossível como não se aplica a esse tipo de movimento.

O que estamos vendo são pessoas indignadas indo às ruas e ganhando número pois sua indignação é compartilhada por muitos.

É ao governo, instituições e corporações que cabe identificar quais são as pulsões que animam essas reuniões populares.

É claro que há quem acuse a orquestração de todo e qualquer movimento o que vejo como teoria da conspiração (sempre fantasiosas) ainda que, nesse caso, todos estejam dando forças para o Movimento Passe Livre que visa a redução da tarifa de transporte, é muito claro que esse apoio é fluido e circunstancial e diversas causas suplantaram a causa do estímulo inicial.

Caso o governo volte atrás é bem possível que os protestos se encerrem, mas não se pode incorrer no erro de concluir que a vitória terá sido a redução da tarifa, a vitória será a subjugação do estado pelo povo.

É para isso que as pessoas estão protestando: para que a voz coletiva, a opinião média do povo, tenha poder.

O Protesto Brasil vai dar certo?

Não, só que sim. 🙂

Não vejo fôlego e vejo forte contaminação de ódio nos discursos online o que deve ser suficiente para esgotar o movimento mesmo que não seja obtida vitória na causa da redução da tarifa de transporte.

Manifestante sobre poste diante do municipal exibindo seu cartaz.

Moça escala poste diante do Municipal para expor cartaz.

Por isso, mesmo que o governo volte atrás, creio que ainda não é dessa vez que o gigante vai acordar que é o que considero o objetivo que levou centenas de milhares às ruas até agora.

Temos vários quadros de sucesso/fracasso.

O melhor quadro para o governo e pior para a conquista de poder para a voz popular é as manifestações não conseguirem baixar as tarifas no Rio e São Paulo (o que pode apagar o sucesso em outras cidades).

Se isso acontecer fica o aumento da indignação popular junto com o sabor de ter participado de algo enorme o que poderá causar novas pequenas manifestações até que apareça outra causa capaz de unir a todos e que a tolerância aos desmandos políticos alcance um novo patamar.

Mas veja bem, colocar 100 ou 500 mil pessoas na rua já foi um sucesso totalmente fora das expectativas. Mesmo que nada mais aconteça essa rodada já teve um êxito além do que eu imaginaria possível há dez dias.

A violência da polícia ajudou muito, a surdez dos políticos foi determinante e o apoio da mídia foi o golpe definitivo para atear fogo à população, portanto não foi um ato totalmente espontâneo o que seria capaz de sustentar a multidão.

Por outro lado temos que pensar em outros quadros possíveis.

Se o governo volta atrás nas tarifas a massa terá o sabor da vitória e entenderá que tem poder (ainda que grande parte desse poder tenha sido injetado pela própria polícia, governo e mídia) e isso pode finalmente atear fogo à caldeira da mobilização popular e, nesse caso, terei errado no “não” no começo dessa sessão.

A revolta é popular?

Outra vez sim e não. A causa principal: a vontade do povo de ser ouvido, é uma demanda popular, mas os manifestantes não são.

Tanto quem estava dentro das manifestações quanto quem analisa de fora percebe que a grande maioria são estudantes (e mulheres, ainda não entendi isso) predominantemente das classes mais altas e já com um contingente considerável de universitários das classes C e D.

Como a maioria das mobilizações na história elas começam com intelectuais e jovens que estão na universidade (ou equivalente) e fazem parte de um grupo que não aprendeu a ter medo do poder público.

Quem vive na periferia e está acostumado a receber visitas do estado que entra em suas casas sem pedir licença observa de fora e só uma minoria toma coragem para participar.

Por enquanto.

Pelo que observei no Occupy há conexões cada vez mais fortes entre as diversas camadas sociais graças ao crescimento silencioso de grupos de ação social.

O Gigante Acordou?

Essa sessão se torna redundante depois da sessão acima, mas achei que ela tinha que existir para agradar ao Google e tem alguma coisa a acrescentar sob esse foco.

O que é o Gigante Acordar? Quem é o gigante? O que você espera que ele faça? O que te convencerá a fazer parte do corpo desse gigante?

E, claro, nós queremos que o gigante acorde realmente? Sim, pois o gigante acordar pode significar governar junto com a mediocracia das massas e não sabemos até que ponto a Internet permitiu que essa massa se torne sábia em um país onde a educação ainda está em crise.

Governar com a média pode causar sérios problemas.

Se o gigante acordar significa que o povo passará a se informar sobre política e buscar soluções para os problemas tanto da própria política quanto da educação, saúde, ciência e tecnologia deixando que o governo use a mente coletiva menor e mais eficiente (se houver essa vontade) para identificar e atender as demandas da mente coletiva disforme da população então pode ser um bom despertar.

De qualquer forma o que vimos foi um punhado de pessoas jovens, com boas intenções, bem informadas e engajadas chamando o gigante para acordar.

Atualizando em 19 de junho de 2013 – 18h28

Governos começam a ceder de acordo com a Folha de São Paulo (Paes fez anúncio idêntico)

Eu não contava que iam fazer isso. A mensagem é clara: se o povo pressionar o governo terá que ouvir. Deram a vitória para o cidadão ele vai querer mais.

Se vão repassar essa redução para outro lugar não importa agora: o povo sentiu o gosto do poder. Pelo bem ou pelo mal.

Já é tarde demais pois agora as manifestações já se concentram nos superfaturamentos da Copa e, com o sabor da vitória, possivelmente não vão parar enquanto cabeças não rolarem e quem sabe quais são as cabeças envolvidas?

O Edney lembrou bem que as pessoas estavam percebendo que qq um pode criar um protesto e esperar a causa ganhar adeptos e estão fazendo isso.

Tem estimativas de 25 mil pessoas agora fechando a ponte Rio Niterói. Isso muda tudo que eu pensava até aqui, que era muito cedo para revolução e estávamos vendo apenas protestos e manifestações.

Ouço o clamor da revolta ecoando por bandas digitais e de concreto.

Esse pode ser um teste de fogo para a nossa capacidade de organização com o mínimo de violência.

É crucial, mas realmente CRUCIAL que as pessoas que decidirem se manifestar contenham qualquer ato de vandalismo.

Atualizando em 24 de junho de 2013 – Baixa a Cortina

Dois dias se passaram depois da quinta-feira onde juro que estive entre um milhão de cidadãos protestando da Candelária até a prefeitura ainda que os números oficiais sejam de “apenas” 300 mil e menos de um dia se passou desde que a presidente fez seu pronunciamento e me parece que finalmente poderei completar esse post aproveitando para fazer a previsão de que as reuniões populares voltarão a se recolher das ruas para o espaço online (e isso é bom).

O que aconteceu? O que vai acontecer?

Depois da manifestação de quinta-feira (que foi linda) confrontos estouraram entre a polícia e diversos grupos diferentes, entre eles cidadãos, vândalos e criminosos. Pipocam na Rede diversos relatos de ataques da polícia a restaurantes, ao Circo Voador (onde ocorria um show) e a cidadãos que frequentavam a Lapa sem que se observasse qualquer foco de vantalismo ou agitação nas áreas.

Notava-se nas ruas que muitas pessoas, provavelmente a maioria, tinha a percepção de que os protestos terminavam em vandalismo ainda que a principal emissora (a Globo) continuasse a separar os protestos do vandalismo. Senti uma onda de medo de ir a protestos se espalhar entre a população que não é hipercnoectada e temi que houvesse uma reversão do sucesso das manifestações.

Por sucesso me refiro à reconquista do amor próprio e esperança do brasileiro que começou a crer no seu poder de pressionar os políticos através da mobilização popular e a cantar o Hino Nacional à capela nos jogos da Copa que está em progresso.

Temi que isso se convertesse em “Brasileiro não sabe protestar, tudo acaba em baderna”.

Depois que a presidente fez seu discurso (sem propostas realmente relevantes) passei a acreditar que as conquistas que considero importantes estão garantidas pois entre os blablablás escutei “garantir direito a manifestação”, “amadurecimento da democracia”, “transparência do governo”, “fiscalização do governo pela sociedade” que, em minha opinião, eram os pontos centrais (não conscientes) das manifestações.

Tenho a impressão que os protestos se reduzirão rapidamente em frequência e em número de cidadãos participando, mas isso é bom pois ajudará a preservar as conquistas e será substituído por maior troca de ideias no espaço online ou em contatos diretos offline.

Nós não nos tornamos magicamente politizados, já vemos em algumas pesquisas de intenção de voto que nada mudou em nossa consciência política, o que talvez mude daqui para frente é a qualidade dos diálogos políticos.

Também espero que os partidos políticos amadureçam no esforço de entender porque foram excluídos do direito de participar das passeatas (tão óbvio, né? A grande maioria do povo não se sente representada por eles). Também espero que as pessoas se interessem mais nos partidos políticos em resposta aos questionamentos que surgem sobre eles.

Aqui digo espero no sentido de “imagino que…” e não no de desejar ou sugerir simplesmente por achar que não me cabe desejar ou sugerir nada 🙂

Outras vozes

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Leitura recomentadada:

Capa do livro Cibercultura, de Pierre Lévy

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