imagem: Wikipedia – Cueva de las manos – Argentina

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade tem problemas grandes, mas vou arriscar dizer que tem qualidades maiores.

Comecemos com os problemas pois, uma vez conhecidos, podemos tirar proveito das qualidades.

  1. Misturam-se dados, fatos, hipóteses, teorias e opiniões. Também tem alguns dados imprecisos como “humanismo trata o humano como divino”. Devemos ler com atenção e buscar confirmação dos pontos que nos chamarem a atenção e pretendermos usar para estruturar nossas próprias hipóteses.
  2. Apesar de ser acadêmico e cientista o autor frequentemente questiona as hipóteses de outros estudiosos colocando as dele como se prescindissem de comprovação. Hipótese sem teste vale tanto quanto opinião e está muito longe de ser uma teoria e mais ainda de ser fato.
  3. Existe um viés auto-depreciativo na obra. Nos definindo como destruidores do mundo. Essa posição é bem clara, mas paradoxal já que o livro se inicia destacando que somos animais como todos os outros. Infelizmente ele parece esquecer ao longo da obra que a vida (animais, vegetais, fungos etc) fazem exatamente isso: consomem todos os recursos até que algo as detenha. Muitas vezes esse algo é a falência do ecossistema local ou mesmo global.
  4. O livro parece ter um objetivo: nos seduzir para aceitar ao final uma ideia enviesada de transhumanismo e governo global. Coisas que devem acontecer, mas que estão bem além do alcance da nossa capacidade de testes para apresentar uma hipótese minimamente aceitável.

Esses pontos estão bem claros? Me preocupa pois tenho a impressão de que pouquíssima gente está vendo essa obra com desconfiança. Talvez por confirmar que

A humanidade é uma forma inferior de animais

Curiosamente essa é uma ideia muito sedutora para grande parte dos humanos pois cada um de nós tende a crer que somos especiais, que estamos além dos outros e que somente eles seriam seres destruidores da vida.

Vamos contrariar isso logo no início desse post usando o próprio livro pois esse ponto é vital. Se vemos erradamente a essência da nossa espécie (e de praticamente todas as outras formas de vida do planeta) construiremos uma visão totalmente incorreta do passado e assim não entenderemos o presente e falharemos em nos preparar para o futuro.

O que a vida faz?

Sapiens chama nossa atenção para o fato de que a vida faz o que precisa para se reproduzir mais. Mesmo que isso lhe traga desconforto e até que cause sua extinção.

Isso acontece porque a vida tem uma consciência e inteligência limitadas à sua esfera de observação.

Harari dedica bastante tempo a criticar o desenvolvimento da agricultura que nos levou a trabalhar muito mais, desenvolver doenças, nos empilhar em agrupamentos cada vez maiores criando estruturas hierárquicas, exploração, violência.

No entanto nenhum animal, nem mesmo nós, seria capaz de antever tudo isso. O que fizemos foi simplesmente desenvolver aos poucos técnicas que nos garantiam um suprimento de alimentos mais estável.

Deu muito certo. Nossa população começou a crescer há 10 mil anos e nunca mais parou. É isso que a vida faz.

Também é isso que a cultura faz.

O que cultura faz?

Sapiens simpatiza com a visão memética da cultura e da consciência destacando que podem dar outros nomes para o fenômeno, mas que a cultura se comporta memeticamente. Isso quer dizer que ela compete, se multiplica e se modifica permanecendo quando se mostra mais viável que as outras.

Quando uma cultura religiosa ordena aos seus seguidores “crescei e multiplicai-vos” ela não está se referindo à reprodução de corpos e sim de crenças. Essa observação não está em Sapiens, mas ele chega bem perto.

Aliás temos aqui um sexto ponto em que Sapiens é perigoso: ele considera “mito” tudo que é criado culturalmente. Essa abordagem implica, no livro, na consideração de que o impulso religioso é inevitável e essencial no ser humano. Essa é uma possibilidade, mas carece de demonstração. Em toda a história há grupos e sociedades que não tinham estruturas culturais míticas. Assumir que acreditar em mitos é inevitável limita nossa capacidade de construir hipóteses. Resista a isso 🙂

O que Sapiens nos dá de bom?

Em primeiro lugar ele nos dá uma boa perspectiva da nossa origem (se isolarmos quando ele se contradiz) como herdeiro de uma linhagem de 2 milhões de anos de caçadores coletores (nossa espécie tem apenas 200 mil anos no entanto) e que somente nos últimos 10 mil anos começou a se afastar vertiginosamente do mundo para o qual evoluiu mergulhando em um mundo virtual criado não por ter uma consciência ou inteligência sobrenaturais, mas seguindo os impulsos evolutivos aplicados à cultura (ou seja, memética).

Com essa chave podemos entreabrir várias portas para entender o nosso comportamento.

Há diversos insights muito úteis de Harari que partem dessa abordagem como o de que o estresse e perplexidade que nos assola é fruto de uma espécie que não está preparada para viver em um mundo que se inventa à revelia da sua própria consciência ao contrário do mundo natural que se modifica tão lentamente que na verdade praticamente não mudou nos 199.500 anos até a revolução da ciência e da indústria.

Encontramos reflexões muito interessantes sobre a formação de impérios, da economia, do capitalismo e das estruturas sociais modernas.

Volto apenas a chamar a atenção que são reflexões, insights, hipóteses (algumas vezes muito convincentes), mas não devem ser tratadas como fatos científicos (aqui entre nós o conceito de fato não combina muito com científico. Evidência seria melhor, mas isso é assunto para um post específico).

Uma bela linha do tempo

Outra qualidade do livro (na minha opinião) é a de estruturar nossa linha do tempo de uma forma bem interessante destacando pontos chave em cada período histórico que nos dá uma perspectiva de conjunto da nossa evolução que alimenta muitos bons insights.

Para desfrutar dessa qualidade sugiro que o leitor procure sintetizar cada capítulo olhando com desconfiança para os detalhes que são bem influenciados pelo viés e projeto do autor que parece ser nos convencer a aceitar sua conclusão final sem muita resistência.

Conclusão

Esse ainda é um post inacabado. Preciso refletir melhor e ouvir opiniões de outros que leram e de especialistas em algumas áreas que não domino bem e tenho dificuldade em identificar se estamos diante de uma teoria bem estruturada ou mera opinião do autor.

Ah! As mãos!

A imagem que usei para ilustrar o post é citada com um certo carinho no livro e gosto muito dela.

O que estariam pensando os humanos que pintaram suas mãos nas paredes da caverna? Era uma busca de afirmação das suas existências individuais? Um registro de sacrifícios feitos a uma natureza rude? Uma forma de senso? Por algum motivo a primeira hipótese costuma ser a mais sedutora.

Em vídeo

Para os preguiçosos acho que esse vídeo tem o essencial do que tenho a dizer do livro 😉

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