Em novembro do ano passado, provocado por @lisandramaioli, e Gil Giardelli, falei sobre a ética e a estética ciberpunk e sua crescente influência em nossa civilização e desde então sinto que devia escrever mais sobre isso.

Em primeiro lugar nós sempre fomos ciberpunks se assumirmos que a utilização de tecnologia para estender as nossas capacidades é a essência do ciberpunk.

Nós usamos exoesqueletos para nos transportar (carros), lentes óticas para enxergar melhor (óculos ou lentes de contato) e, claro corações mecânicos quando o orgânico deixa de funcionar. A lista de implantes orgânicos ou não é enorme, mas o fato é que gostamos de usar nossa engenhosidade para expandir nossos horizontes.

O mesmo vale para nossa forma de ver e conceber o mundo.

Mesmo que toda nossa tecnologia nos fosse arrancada subitamente ainda assim a forma como interagimos uns com os outros e com o nosso ambiente continuará sendo um resultado da nossa tecnologia.

Isso acontece porque não é verdade que nossa consciência é fruto da nossa tecnologia, mas sim a nossa tecnologia é fruto da nossa consciência, o que na verdade é bem óbvio.

Apesar disso falamos no mostro das novas tecnologias da informação e seu impacto em nossas vidas quando o que deveríamos discutir é a nossa consciência e as tecnologias que ela cria para se modificar.

No universo ciberpunk a máquina parece ser um tipo de monstro que procura nos absorver como os Borgs de Star Trek ou, mais brilhantemente construídos, os Cylons de Battlestar Galactica e Caprica.

Isso acontece provavelmente porque não compreendemos e muito menos ainda somos capazes de controlar nossa consciência e ela certamente não está sujeita aos interesses dos nossos genes.

Em algum ponto da nossa evolução a consciência suplantou o poder instintivo pacientemente construído pela seleção genética, provavelmente em algum ponto entre o surgimento da fala e a criação da escrita.

Note que falo em surgimento da fala pois não creio que ela tenha sido desenvolvida por nós.

E de onde vem esse impulso no sentido de uma consciência não genética? De uma consciência memética?

Talvez possamos olhar para o Universo não como um fenômeno físico, mas um fenômeno informacional. Com isso quero dizer que não são forças magnéticas ou quânticas que formaram esse fantástico arranjo de 11 dimensões que chamamos de Universo, mas a propensão natural da informação para se organizar de formas exponencialmente mais complexas seguindo um processo de seleção.

As mais recentes teorias de supercordas de certa forma reduzem toda a realidade a informações em cordas, vibrações que geram quantas e partículas sub-atômicas.

Sem poder modificar as partículas a “informação” as combinou criando os diversos elementos químicos também incapazes de sobrer mutações e portanto criar hereditariedade e registrar informação de maneira rica.

Assim nasceu a vida, átomos organizados de uma forma tão intrincada que não é possível enxergar semelhança entre uma pedra e um urso sem o conhecimento científico que acumulamos nos últimos milênios.

Da mesma forma surge a consciência, um tipo de arranjo de memes. Totalmente livre das limitações da matéria tornando-se capaz de se multiplicar, reproduzir e modificar em razões exponenciais jamais imaginadas pela matéria.

Carl Sagan, em sua obra póstuma Bilhões e Bilhões nos alerta para o poder do crescimento exponencial. Onde nos levará a evolução descontrolada dos memes? A novos e melhores humanos ou a um novo passo evolutivo? Uma nova espécie consciente alimentada pelos Temes sugeridos por Susan Blackmore?

A corrida evolutiva da informação, dessa estranha forma de consciência, o Pó de Fronteiras do Universo, é anterior a nós, é anterior à existência do próprio sistema solar e temos sido seus instrumentos inconscientes.

Gosto da raça humana apesar de me fascinar pela consciência esteja ela em humanos ou em outras formas, e desejo que sejamos capazes de evoluir para um destino como o de Babylon 5 e não para o colapso de Battlestar Galactica.

Depende de nós escolher a vida em Cáprica ou finalmente assumir as rédeas da nossa evolução tornando-nos o melhor receptáculo possível para a consciência.

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