A última vez que falei em ciberpunk aqui foi em 2010 registrando uma fala que fiz meses antes na Intercon, mas na ocasião defendi que nós já éramos pessoas ciberpunk ao usar extensões tecnológicas como carros, óculos e celulares. Eu não pensava ainda nas implicações geopolíticas e em distopias ciberpunk, mas agora é hora. Já passou um pouco e tenho falado nisso fora do site faz um tempinho.
O termo ciberpunk foi inspirado na obra Neuromancer, de William Gibson e outras distopias caracterizadas por cidades repletas de luzes neon, arcologias, roupas de couro, guetos habitados por ciborgues fixados em óculos de realidade virtual e repletos de implantantes cibernéticos, mas nada disso aconteceu, ou pelo menos não aconteceu de um jeito que fique claro para nós, afinal as TLs infinitas não são tão diferentes dos vícios cibernéticos daquelas obras.
A estética ciberpunk das obras de ficção não aconteceu.
Entretanto, a essência das distopias ciberpunk não é a estética, mas características como:
- Enormes corporações com mais poder que governos;
- O contraste com alta tecnologia acessível até mesmo a partes da população vivendo em condições precárias. Como alguém que tem celular e não tem saneamento básico;
- Sub-emprego servindo a conglomerados tecnológicos. Como pessoas que perderam seus empregos para IAs e agora são usadas para “treiná-las” mascarando as limitações dessas tecnologias.
Você pegou a visão, né?
Poderia acrescentar aqui, como disse a Sussekind no Instagram (link no final), que “a exaustão coletiva tomou o lugar da revolução” e citar declarações distópicas das grandes corporações, seus líderes e seus políticos, mas toda hora surge um exemplo pior que o outro.
O que nos importa aqui é que o paralelo com as distopias ciberpunk, muito embora talvez não possa ser defendido academicamente, é evidente e pode ser útil para estabelecer estratégias para permanecermos no controle do nosso próprio espaço.
Sempre há um caminho
É contra os meus princípios apresentar um problema sem trazer soluções.
Nesse caso pode nem mesmo ser um problema estarmos vivendo uma distopia ciberpunk.
Penso que temos uma visão distorcida disso: distopias e utopias. Nós as vemos como um ponto em que a história da humanidade se paralisa nem uma ou em outra. Do jeito que eu vejo nós estamos vivendo o tempo todo e simultaneamente tanto em uma distopia, quanto em uma utopia.
Me identifico muito com a visão taoista do círculo em que Yin e Yang se alternam. Um trazendo a essência do outro.
A todo momento a nossa civilização é utópica e distópica.
Já fomos dominados por deuses faraós, reis que representavam poderes divinos, ao mesmo tempo que desenvolvíamos tecnologias incríveis para plantar, morar, nos distrair. O poder absoluto da Igreja plantou a semente da prensa de Gutenberg, que viria a trazer a democratização do conhecimento.
Assim como estávamos presos a senhores feudais no passado, hoje parte significativa da humanidade está presa e trabalhando de graça para Google, Meta, Microsoft, Oracle (tem uns que a gente nem percebe que estão lá), Amazon (tem uns que não sabemos que estão em muitos lugares) e outros grandes feudos, digo, big techs.
Só que, ao contrário do feudalismo quando não tínhamos como ir para uma terra que não tivesse um senhor feudal sem fazer grandes sacrifícios, hoje, em menos de 2h, podemos criar o nosso próprio território cibernético, um site como esse aqui, por exemplo, ou nos unir a grupos livres no Fediverso.
A enorme maioria das pessoas e empresas pode se libertar das big techs quase sem esforço. Trocar o sistema do seu computador da Apple ou da Microsoft para o Linux, seu conjunto de aplicativos de produtividade para o LibreOffice, etc. é trivial se comparado com o esforço que um país precisa fazer, e eles estão fazendo (pesquise principalmente na Europa), pois eles têm percebido que, em uma civilização ciberpunk, ter autonomia e soberania digitais não são caprichos, são necessários para a sobrevivência.
Países precisam fazer grandes movimentos coordenados, mas, no espaço individual, a liberdade pode ser conquistada aos poucos:
- Um grupo de amigos que levamos de uma mídia social da Meta para um espaço livre como o Signal, o Delta (bem usado na Europa), o XMPP daquela pessoa nerd / ciberpunk que você conhece;
- Colocar o Linux Mint ou Zorin naquele computador antigo que não dá conta do Windows, mas roda Linux lindamente;
- Mudar seu email para um provedor cujo negócio não é vender os seus dados (existem vários e surgem mais a cada dia);
- Buscar as informações e estímulos em vez de se permitir buscar por eles.
Pequenos passos que podem abrir as portas da Grande Internet.
Sem falar em retomar os espaços offline! A gente pode sentar na praça por um tempo para ler um bom livro e conversar com outras pessoas! Inclusive, recomendo a trilogia Neuromancer, Count Zero e Monaliza Overdrive.
Conclusão
Tratar o nosso mundo tanto quanto uma distopia ciberpunk, quando com uma utopia tecnológica que existem ao mesmo tempo, nos ajuda a estabelecer estratégias para convivemos com esse mundo com menos estresse, mais tranquilidade, produtividade e foco.
Afinal, ciberpunk, capitalista, feudalista ou qualquer que seja o sistema, somos vistos e nos sentimos valiosos quando produzimos.
Se você conseguir dar um passo além e conseguir viver dentro da civilização cibernética e ciberpunk preservando o valor que encontramos em nossa mera existência e privilégio de existirmos para experimentar o mundo e a consciência creio que sua vida será ainda mais rica.
Links
- Argumentos da Sussekind no Instagram
- We’re living in a cyberpunk dystopia – as predicted by the greatest sci-fi novel of all time – The Telegraph
- Ainda não analisei profundamente:
- An analysis of selected “”cyberpunk”” works by William Gibson, placed in a cultural and socio-political context – Blatchford, Mathew (2005)
- The Poetics of Pattern Recognition: William Gibson’s Shifting Technological Subject – Alex Wetmore (2007)


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