Imagem: Ms. Marvel

Essa aí em cima é Kamala Khan, uma adolescente muçulmana de Nova Jersey que calhou de ser mais uma versão feminina de herói masculino. O Rafael Monteiro fez um ótimo artigo sobre representatividade lá no Nível Épico desenvolvendo o tema.

A questão aqui no Meme é outra.

Em 1977 surgiu a Mulher Aranha. E ela certamente não foi a primeira heroína mulher inspirada em herói homem, mas hoje parece que há hordas de homens cuspindo ódio a cada protagonista mulher que aparece. As mais recentes são as Caça-fantasmas, mas ainda há pouco tivemos a Rey de O Despertar da Força (que ainda teve um negro como co-protagonista) e a Furiosa de Mad Max.
Nos interessa aqui tentar entender porque alguns homens estão tão frágeis a ponto de ter ataques histéricos diante dessas personagens (lembrando que, claro, continua havendo uma predominância de heróis “machos”).Entretanto vamos começar com um ponto muito importante: Trata-se de hordas mesmo?Rafalei lembrou muito bem no artigo do Nível Épico que a indústria mira no dinheiro e, se faz mais protagonistas mulheres e homens que não se encaixam nos estereótipos de macho, é porque percebe que a horda é outra e favorável a visões menos estereotipadas (e agora estou adiantando um pouco o assunto… Estereótipos).É importante saber quem é a horda de fato por vários motivos que vão desde a auto crítica de perceber que está na horda “errada” até uma visão mais clara da nossa sociedade (habilidade essencial para quem produz conteúdo para as massas, ou seja, quase todo mundo já que o sonho da infância se moveu do jogador de futebol ou traficante para Youtuber).Isso nos ajuda também a entender a virulência e covardia dos preconceituosos guardiões dos estereótipos (olha aí estereótipos de novo).Vamos adicionar à receita mais uma coisa: mudança de paradigma.Quando um paradigma se torna obsoleto e outro começa a se formar tudo, mas tudo mesmo, muda. O chão onde estamos acostumados a pisar com firmeza se torna movediço: se antes sabíamos na infância a nossa história (escola, faculdade, emprego numa empresa por 40 anos, aposentadoria, morte) agora tudo é possível. Não só o que vamos fazer da vida, mas o que nós e os outros são na vida em todos os termos (morais, de gênero, sexo…).É o colapso dos estereótipos.Aí está ele novamente, o estereótipo.Nos paradigmas que dominaram os últimos… Cinco mil anos? Talvez mais… Colocávamos tudo em caixas. A aparência, cultura, família, sexo etc. definiam o lugar de todos. Hoje vemos a desconstrução dos estereótipos, a descoberta de que eles eram estruturas artificiais que não correspondem à realidade. Os estereótipos precisam acabar.O problema é que, para a maioria das pessoas, os pilares que sustentam nossa visão da realidade são justamente os estereótipos.Com isso não quero dizer que temos que ser complacentes com as pessoas que destilam ódio contra tudo que foge aos estereótipos, claro que não! Há uma grande distância entre sentir insegurança e medo diante da violação de estereótipos e agir cruel e covardemente contra outras pessoas.Esse é mais um daqueles problemas que poderíamos evitar com uma boa formação na abordagem científica: ataque ideias, nunca pessoas.Até hoje nossas culturas funcionaram muito bem equilibradas pelo atrito entre progressistas (que não se apegam a estereótipos e até gostam de desconstruí-los) e conservadores que se esforçam para manter as coisas “como sempre foram”. Eu mesmo já falei muitas vezes na importância desse atrito para evitar tanto a estagnação quanto um ritmo de mudanças desgovernado.Entretanto estou mudando de ideia. Assim como em Demian (de Hermann Hesse) fala-se na necessidade de não ter crenças ou estereótipos para sermos capazes de lidar com o novo mundo (sujeitinho de visão, né?) o atrito não pode ser mais garantido pelo conservadorismo, pela postura reacionária. Nós precisamos de uma nova dicotomia que tenha dos dois lados a consciência de que estereótipos simplesmente não funcionam.Enquanto não descobrimos esses novos vieses vemos dos dois lados o uso da violência, falácias e posturas fanáticas que acabam levando a medo e ódio.Antes que alguém diga que estou minimizando a importância das causas de alguma minoria ao dar uma explicação tão genérica para o fenômeno quero dizer que o papel da liberdade das mulheres e dos homossexuais é central nesse processo, tanto por serem questões seculares quanto por atingir a quase todos nós já que todos, de uma forma ou de outra, estamos envolvidos com essas “minorias”.

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