Este post contém spoilers, tem todos os spoilers que você puder imaginar! 😉 Só leia se já viu o filme ou não se incomoda com spoilers!

Watchmen, a revistaOs quadrinhos Wachmen em que o filme se baseia foram um marco na segunda metade da década de 80. E foi um divisor de águas junto com Cavaleiro das Trevas e Maus.

O que torna essa obra em quadrinhos de Alan Moore (ilustrada por Dave Gibbons) especial é que ela é uma das primeiras a ecoar a consciência que heróis não salvam o mundo, que não há esperança para a humanidade enquanto esperança não for um objetivo comum a todos.

Na visão ácida de Alan Moore os heróis não tem propriamente super poderes e sequer tem alguma super moral. Seus heróis são promíscuos, sádicos, estupradores e provavelmente se tornam heróis não por amor à humanidade, mas para compensar sua baixa auto estima ou algum outro desvio de personalidade.

Na obra original vemos tres heróis com valores morais, digamos, mais elevados.

Batman, o cavaleiro das trevasO Coruja é uma versão mais políticamente correta do Batman, um homem que acredita na verdade e em manter a ordem para que as pessoas possam viver em paz, no entanto se sente ridículo por ter sido um herói fantasiado. Sendo certinho demais acaba não passando de um joguete nas mãos de quem não tem pudores.

Adrian Veidt (Ozymandias) é o ser humano mais inteligente do planeta e percebe que a única forma de impedir que a humanidade continue em conflito é criando um inimigo maior para ela enfrentar, algo que ameace toda a humanidade e, para fazer isso, mata milhões de pessoas em uma trama bem sucedida já que realmente os conflitos humanos encerram imediatamente.

Primeiro quadrinho vencedor do Pulitzer

Primeiro quadrinho vencedor do Pulitzer

Rorschach é o único herói a compreender que o impulso de busca pela paz deve ser uma opção consciente da humanidade e não a reação a uma outra ameaça. Rorschach é o maior herói da trama ao defender com a vida a crença de que os fins não justificam os meios quando esses meios são o sacrifício de vidas inocentes e a manipulação da verdade. Rorschach também é um psicopata que mata com crueldade e sem qualquer emoção ou remorso. Ele

é a muliplicação do Batman de Frank Miller com o Curinga de Heath Ledger.

Curinga, digo Batman, o Cavaleiro das Trevas

O filme faz juz aos quadrinhos

Assim como a revista rompeu com a linha narrativa, estética e ideoologia corrente o filme nos choca com extrema violência das imagens e do texto, uma estética incomum e um roteiro que parece arrastado graças ao peso das frases e das imagens, mas que segue uma rota alucinante de informações até a revelação final (que já revelei parcialmente mais acima).

Watchmen não é um filme para você se divertir! É uma obra que pode te fazer perder as esperanças na humanidade muito embora possa inspirar justamente o contrário, mas a altos custos.

Várias cenas dos quadrinhos foram trazidas com fidelidade para o filme, o destaque vai para o Rorschach sendo avaliado pelo psiquiatra na prisão. É onde conhecemos a extensão da sua psicopatia.

Outras cenas foram maximizadas ao serem feitas com pessoas reais. Como disse, não é um filme para se distrair. A propósito, acaba de me ocorrer que há algo de Dogville em Watchmen.

Talvez a única crítica negativa seja para a maquiagem do Comediante que poderia tê-lo envelhecido mais para a cena inicial.

O desenlace da trama também foi alterado, mas foi uma alteração bem vinda e necessária.

A ameaça que Ozymandias cria para dar para a humanidade um inimigo maior a combater não é uma raça alienígena, mas o poder absoluto de um homem com tecnologia, mas sem humanidade, o Dr. Manhattan. Explico mais adiante porque gostei tanto da mudança.

Assim como Curinga, digo, Batman O Cavaleiro das Trevas é um marco apontando uma estética realista para os filmes de heróis de quadrinhos, Watchmen poderá será um divisor de águas entre os heróis que prometem curar o mundo e os que nos ajudam a perceber que só a mobilização coletiva pode de fato mudar alguma coisa.

Mensagem

Algumas pessoas não absorvem arte que retrate os ângulos obscuros da vida e fazem bem: alguns de nós precisam manter a utopia bem vizível diante dos nossos olhos, mas outros devem iluminar os guetos escuros para entendermos seu papel em nossa evolução.

Watchmen é isso: um mergulho na alma negra da humanidade. Não há um herói que não seja moralmente questionável e alguns são plenamente condenáveis. A própria humanidade é retratada como incapaz de se unir pela conciencia, sabedoria ou amor. A única forma de obscurecer as diferenças seria criando um falso inimigo comum.

Somente o ódio ou o medo poderiam nos unir…

Isso é como tem sido até hoje, é a solução encontrada por Ozymandias.

No entanto lá está Rorschach para destruir a farsa, sempre há alguém ou alguma coisa para revelar as mentiras mesmo sem ter uma verdade para sugerir no lugar.

Watchmen termina com o editor de um jornal contrariado com a paz artificial criada pelo artifício de Ozymandias, mas que não foi fruto de uma mudança interna. Em uma cesta o diário de Rorschach com as pistas que destruirão a mentira, nos céus a presença onisciente e provavelmente fascista da falsa verdade criada por Ozymandias.

Watchmen não nos aponta claramente o caminho para um mundo melhor, ele nos mostra que a paz armada ou a verdade ue vem de fora não são caminhos viáveis. Fica a seu encargo pensar no que faria o mundo melhor.

Quanto a mim continuo acreditando que é maravilhoso estar em um mundo onde essas questões ocupam uma posição central em nossa produdução cultural e creio que

Um dos caminhos para uma sociedade mais justa e pacífica está em admirar (em vez de apenas tolerar) as nossas diferenças e entender que as verdades relativas são uma das melhores (talvez seja a única) formas de respeitar todas as verdades, direitos e necessidades individuais que nos fazem merecer o título de humanidade

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