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Tenho escrito editoriais muito longos. Dessa vez serei breve apesar do assunto ser muito sério, mas é que a brevidade muitas vezes é mais eficiente.
Inclusive vou começar pelo final: o caminho para se libertar do culto ao apocalipse é retomar ou manter o hábito da leitura de ficção e técnica deixando de se limitar ao conhecimento cimentado em pílulas em mídias sociais, entender o valor do caminho e do tempo até o conhecimento, desenvolver as habilidades das suas área mesmo que IAs as repliquem, buscar informação na Grande Internet (podcasts, mídias independentes que criam para nós e não para algoritmos) em vez de esperar que os estímulos e informações cheguem até nós empurrados por algoritmos. Encontre mais com as pessoas. Encontre mais com as pessoas…
Essas são soluções. E o problema?
Há muito tempo vende-se a mensagem do fim do mundo porque é uma mensagem fácil de vender, principalmente quando o mundo anda difícil e o fim, em vez de temido, é desejado como forma de se libertar dos boletos.
Só que o mundo não vai acabar e se deixar levar por essa mensagem só nos conduz a não investir no nosso futuro a médio e longo prazo, nos deixa controláveis por causa do conformismo que se instala. Aceitamos qualquer coisa porque já não há esperança. Já dizia o Nada em História Sem Fim, do Michael Ende.
Acontece que o fim do mundo adquiriu dimensões de culto nos últimos tempos.
Desde 2023 o marketing das mega corporações de IA é nos convencer que a super inteligência que substituirá todos nós é inevitável e que ela destruirá a humanidade. Seja por delírio real de alguns multibilionários e pessoas do setor de tecnologia dos EUA, seja por estratégia, o fato é que ambas afirmações simplesmente são falsas.
Falo tanto do lugar de quem entende como os diversos tipos de IA funcionam, quanto de quem tem consultado as fontes mais qualificadas para falar de IAs.
A IA que se auto-desenvolve é o engodo da vez já que o consenso geral entre especialistas é que não há caminho para IAs gerais e muito menos para super inteligências com as tecnologias atuais, então, às vésperas de se lançarem nas bolsas de valores, as principais empresas impulsionam esse discurso.
Também é muito suspeito que o xuíte de um funcionário nada significativo repetindo o que é dito há anos alcance 150 milhões de visualizações em uma plataforma que coloca todas as fichas nas IAs (o X).
As IAs podem matar muita gente se forem colocadas em sistemas críticos simplesmente porque falharão onde pessoas não falhariam. Elas já estão matando muita gente de depressão, já estão causando danos a cidades inteiras com os mega datacenters, são usadas para espalhar desinformação, destroem o mercado de criadores de conteúdo de entretenimento, afastam as pessoas umas das outras.
Mas nada disso é realmente “feito pelas IAs” e sim pelas pessoas que criam as IAs e as comercializam. A grande ameaça para a humanidade são os homens (são praticamente todos homens) que estão impondo o culto ao fim do mundo.
E aqui tenho uma última observação: IAs podem ser úteis, IAs certamente farão parte do nosso futuro próximo e distante, mas não nesses modelos que nos tornam dependentes das empresas que as mantém.
Organize o seu Conhecimento
No meio do marketing das IAs tem crescido os anúncios de “IA resolveu problema matemático centenário” ou algo parecido. Tem links no clipping explicando como o trabalho de pessoas é sequestrado pelas empresas de IA e sobre o uso de especialistas humanos na surdina. Mas isso será assunto de post futuro.
O que devemos observar dentro da área de conhecimento é que o processo mais importante que o resultado. Me acompanhe.
Quando pessoas desenvolvem uma solução para um problema complexo, seja de matemática ou de qualquer outra coisa, elas experimentam e desenvolvem cadeias de raciocínio, de conexão de ideias e conceitos.
Albert Einstein, dizem, encontrou o caminho para sua teoria da Relatividade se imaginando sentado em uma onda de luz viajando junto com ela. Você e eu, quando pensamos em como organizar as nossas coisas, ou como apresentar uma ideia, fazemos a nossa própria jornada.
Conhecimento não é uma linha de chegada, conhecimento é jornada. Sei que isso é lugar comum, mas tem sido esquecido.
Entendo que, nas relações de trabalho modernas, muitas vezes ninguém se importa com isso, com o conhecimento, com a construção de bases de experiência para as empresas (e anote: as empresas que desprezam o processo estão em desvantagem competitiva) que estão obcecadas com métricas de linhas de chegada.
No entanto, na sua vida pessoal, no desenvolvimento das suas capacidades profissionais e condições de competição no mercado, a jornada é o mais importante. Não deixe de investir nela sempre que possível.
Redes e Mídias Sociais
Acho que preciso comentar o desenlace do processo nos EUA contra a Meta / Instagram, né? Basicamente pagou 18 bilhões de dólares para colocar uma pedra sobre o assunto, mas assumiu alguns compromissos, ainda que eu ache difícil ela realmente se dispor a cumprir o último.
Do site do serviço de email privativo Tuta:
O acordo inclui a alteração das seguintes funcionalidades-chave (notavelmente, a segmentação de anúncios não está incluída):
- Limite de tempo diário predefinido de duas horas para utilizadores com menos de 18 anos, que só pode ser desativado com autorização dos pais
- «Gostos» ocultos nos perfis dos adolescentes e nas pessoas com quem interagem
- Suspensão das notificações durante o horário escolar
- Bloqueio das suas aplicações durante as horas críticas da noite
- Proibição de filtros de cirurgia plástica
- A possibilidade de desativar a reprodução automática de vídeos e conteúdos
- A possibilidade de escolher um feed que não seja orientado por um algoritmo
Nós fazemos o marketing, ou o marketing nos faz
Neobrutalismo.
Amigues webdesigners provavelmente torcerão o nariz, mas fiz até um post recente usando essa estética que consiste em cores contrastantes, bordas largas em volta dos textos, tipografia seca.
No entanto o ponto é outro, o ponto é que existe uma necessidade de voltar a ocupar a Internet viva, aquela fora das mídias sociais e buscadores de sites cada vez mais mortos e afogados em conteúdo gerado por IA e por hate bait. Sim. Se você ainda não notou essa necessidade tem sorte ou está ficando para trás.
Acontece que muita gente está condicionada aos super-estímulos breves da Internet morta e precisamos de estratégias para receber essas pessoas, para facilitar o acesso sensorial delas.
Fiz um experimento usando alguns princípios do neobrutalismo no artigo que escrevi sobre o risco de extinção por IAs intercalando com texto mais comum.
Durante a transição das plataformas mortas para as regiões vivas o uso de cores, textos curtos, tipografia mais legível, organização de cima para baixo começando pela conclusão e mergulhando nos detalhes podem ser ferramentas eficientes para reter a atenção das visitas ao mesmo tempo que lhes dá oportunidade para recuperar a capacidade de atenção mais prolongada e leitura crítica.
Para ir além das IAs
“10% de chance das IAs matarem todo mundo nos próximos dez anos” Isso é verdade?
Mais ou menos.
Muita gente está dando o alerta de que essa é apenas a continuação do marketing que Sam Altman já empregava em 2023 no início do boom atual das IAs generativas. Que a estratégia está se intensificando agora que OpenAI e Anthropic estão prestes a entrar nas bolsas de valores e querem se valorizar, etc.
Mas, e daí para pessoas como você e eu, que não vamos investir um bilhão de dinheiros logo no início do pregão e vender por 100 bilhões antes da queda?
O que importa para nós é que, no processo de inflacionar o valor das mega corporações de IA distorce-se ainda mais o que elas podem fazer, como fazem e o que fazer com elas.
A novidade agora é a sugestão de que os sistemas de IA já estariam se “auto desenvolvendo”, o que não é verdade e talvez sequer seja possível. Se for possível, dentro do contexto atual em que as empresas de IA carecem de ética e de responsabilidade, seria mesmo terrível. Não nível “vamos todos ser assassinados por robôs” terrível, mas nível “acidentes aéreos, de trânsito, colapsos de energia atingindo hospitais” terrível.
Não se trata das IAs se rebelarem, se trata delas não funcionarem bem, de não serem previsíveis e portanto não serem controláveis (mas as empresas vão continuar tentando colocar a culpa “nelas” dizendo que “se rebelaram” ou “escaparam”).
Infelizmente os sistemas nem precisam se “auto desenvolver”, basta que a indústria, gananciosa por inflacionar as capacidades delas, convença pessoas, países e empresas que isso está acontecendo e que já está na hora de entregar tarefas críticas para esses sistemas.
E, para nós pessoas e empresas comuns, entregar o acesso aos nossos cartões de crédito, caixas de email, programas de trocas de mensagens etc. são tarefas críticas que podem causar colapsos financeiros, profissionais e de relacionamento.
Tem post recente sobre tudo isso no Meme: um comentando um artigo do The Atlantic e outro mais extenso explicando por que as IAs não vão “decidir” nos matar.
Só para não ficar de fora: a IA da Apple, a que ela anunciou no lançamento recente do iPhone 18. Vou destacar duas coisas que acho que podem definir o futuro do setor de IA. Uma que a Apple insiste no marketing da privacidade em nuvem zero knowlege (e isso é bom) e duas que ela investe em aumento da capacidade de processamento para rodar modelos localmente (também é bom). Se é verdade é outra história. É possível e espero que seja verdade.
Para mim, se há futuro para as IAs, é rodando, ainda que com menos recursos, localmente em nossos computadores ou até em pequenos servidores desenvolvidos pela China, que parece estar investindo nesse caminho.
Segurança e Privacidade
Em artigo recente o The Verge fala dos motivos dos emails da Amazon sobre compras não discriminarem mais os valores e produtos em detalhes. Um dos motivos é para que a Alphabet / Google não use esses dados nos próprios anúncios que exibe para quem está dentro do seu feudo (Gmail, Workspace etc).
Veja só, a Amazon se protege da Google. Você devia se proteger também. Temos muito mais a perder. A começar pela nossa paz.
É comum a gente pensar que não tem nada a esconder, mas não se trata disso, se trata do que essas empresas, que se tornaram parte do poder político, podem querer fazer conosco e com quem está no nosso entorno.
Empresas como Google, Meta e outras tem interesse e capacidade para mexer com o viés das pessoas à nossa volta, com o estado de espírito, esperança ou falta de esperança delas e… lamento, também faz isso com a gente.
Segurança e privacidade são tão importantes quanto ter controle sobre o nosso processo de conhecimento.
Acredite: mudar de navegador e de serviço de email é simples, pode ser feito com calma e já traz enormes resultados.
Autonomia, soberania, narrativa
Sempre falo em caminhos para conquistar autonomia, soberania e controle da narrativa no âmbito pessoal, mas estamos em ano de eleição e a gotinha de opinião que deixamos nas urnas e nas conversas com as pessoas que conhecemos faz alguma diferença.
Se informe sobre políticos na sua região que tem preocupação com soberania digital, que falam em FOSS (free open source software) ou software livre, que se preocupa com mega corporações construindo mega datacenters no nosso país, com os órgãos públicos dependerem de IAs estrangeiras e sistemas digitais estrangeiros.
A onda da IA passará, mas a onda da soberania digital não. Todo país deve investir na capacidade de construir os próprios ambientes de computação ao menos no campo do software já que existem componentes de hardware que estão mesmo além do nosso alcance, mas, ainda assim, a opção por sistemas abertos pode abrir espaço para hardware nacional.
Esse não é o critério mais importante na hora de votar, mas certamente é um que precisa da nossa atenção.
Clipping
Os links abaixo são uma seleção dos últimos 15 dias. Em Links diários do Meme de Carbono você pode explorar o que achei relevante dia a dia. Hashtags ajudam a buscar tópicos do seu interesse.
Rodapé
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