Você vê os ventos da mudança?

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Há quatro anos, logo no ano de 12022 se contarmos desde o início da civilização humana, atravessei uma barreira deixando muitas amizades do outro lado: decidi finalmente me afastar o máximo possível dos campos de confinamento da atenção cercados pelas mega corporações cibernéticas techno oligarcas.

Mega corporações cibernéticas tecnho oligarcas é uma classificação longa e que parece exagerada. Bem, parecia exagerada até poucos meses quando começou a ficar evidente demais para quase todo mundo que a percepção da realidade e desenvolvimento de viés das pessoas e das coletividades estavam sob um tipo de jugo de algoritmos de sequestro da atenção.

Fazer essa travessia abre a nossa percepção para novos mundos possíveis e, muito mais importante que isso, nos revela outros mundos que existem ao alcance de um clique! … tá, meia dúzia de cliques.

O mundo está sempre mudando febrilmente!

A gente olha para o que aconteceu no segundo turno das eleições no Brasil, olha para a onda de mobilizações ao redor do planeta e acha que foi repentino, mas é porque, a gente tem mais a fazer do que ficar de olho nas profundezas da sociedade.

Acabei de ver um documentário sobre as origens do KDE desde os anos 90 até hoje e… bem, você muito provavelmente não faz ideia do que é KDE, mas ele é importante pacas. Se você navega na Internet usando Safari ou algum navegador da família do Chrome então você está usando uma tecnologia que nasceu do KDE. Além disso, a maioria dos computadores mais críticos rodam Linux com a interface KDE.

Mas isso não importa, o que importa são os ventos que surgem de pequenos grupos de pessoas!

  • Teve os BBS no início dos anos 90, o primeiro tipo de rede social online a ter alguma popularidade. Já conheci um monte de gente, dividia o espaço com gente desbravadora. Depois veio veio o IRC, newsgrups etc. etc. Quase ninguém conhecia, mas foi de onde surgiram os ventos das redes sociais online, mais tarde sequestradas por corporações e transformadas em mídias sociais;
  • Teve a “guerra” dos navegadores e, ainda que os corporativos tenham vencido a certa altura a vanguarda sempre esteve e continua sendo mantida por punhados de pessoas idealistas;
  • O Twitter foi uma revolução que as pessoas que só o conhecem depois de 2013 não fazem ideia: A gente lançava o convite “cinema sexta?” abria um tweetpool e juntava fácil 30 pessoas. Redes sociais online sempre foram uma ponte entre online e offline. Depois que o Twitter passou a ser ferramenta de mobilização política passaram a sequestrá-lo também, mas foi a última rede social antiga a ser transformada em mídia social;
  • Teve as Campus Party com grupos indígenas defendendo seu direito a ter espaço, o primeiro robô open-source do mundo e uma diversidade cultural e de tribos deslumbrante. Até mais ou menos… 2010? Depois perdeu muito da sua espontaneidade.

A lista seria enorme. Me limitei somente às cibernéticas e não as esgotei. Para cada uma que parece ter sido perdida para quem não habita os becos do mundo cibernético surgem outras em reação.

O documentário sobre o KDE eu vi em um grupo XMPP, que é um pouco como os BBS dos anos 90 misturado com o WhatsApp.

O XMPP sozinho já é uma revolução de tirar o fôlego! É um protocolo, um conjunto de regras para criar sistemas de trocas de mensagens mais antigo do que qq outro que você conheça. É uma revolução por vários motivos, mas também por ser uma ferramenta de autonomia e soberania. Posso ser dono do meu servidor XMPP, você do seu e fulana do dela e todos vamos trocar mensagens e participar de grupos como se fosse um servidor só. Tem tudo bem explicado no IsaCloud.

Pensa nisso: é uma moça, uma única pessoa, dona do próprio “WhatsApp” e não só isso! Assim como o pessoal lá do KDE ela está desenvolvendo o próprio aplicativo baseado em outros que são open-source. Não entendeu? Normal! Quase ninguém sabe o que é software livre, FOSS, open-source etc. Muito embora absolutamente todas as pessoas dependam desses sistemas. É fácil entender: são programas que qualquer um pode ver como foi feito, alterar, melhorar, personalizar. Basta saber programar bem. Também podem ser usados para aprender a programar.

Corporações passaram a controlar nossas mensagens privadas, então resurge o XMPP para nos devolver a privacidade.

É, mas não para ai! Perdemos o IRC, os BBS (isso o XMPP já traz um pouco de volta) e as redes sociais dos anos 00 e 10, então, em 2018, decola o Fediverso!

Não conhece o Fediverso? Não tem problema! Assim como ninguém conhecia o Twitter em 2008 e menos gente ainda conheceu as comunidades que tornaram o Twitter possível.

Imagine que você perceba que a Meta está abusando do poder dela e decida criar uma rede social de verdade para as pessoas que você conhece e eu faça uma para as pessoas que eu conheço, certo?

Mas somos pessoas legais e antenadas, então pensamos assim: e se as nossas duas redes pudessem ser como uma? Ora! Email é assim, não é? A pessoa fulana@endereço.com pode falar com a pessoa beltrana@outroendereço.edu, então porque a pessoa@facebook.com não pode falar com a beltrana@youtube.com? Bem, por um único motivo: porque elas não querem.

O Fediverso, antes de mais nada é feito por pessoas exatamente como vc e eu. Esse site mesmo faz parte do Fediverso. Eu posso, da minha conta de microblog (Mastodon) deixar comentários, curtir, repassar (dar boost) no que é publicado aqui.

Parece meio complicado, né? A liberdade às vezes parece meio complicada porque não estamos acostumados a ela. Mas é simples. Você cria o seu perfil em uma rede federada como cria em qualquer outra e pronto! A diferença é que você pode interagir com pessoas em uma infinidade de outras redes sociais (milhares).

Parece que não vai ter tempo, que é muita gente, né? Mas quem está nas mídias sociais está em plataformas com literalmente bilhões de pessoas (o Fediverso tem menos de 20 milhões) e o algoritmo das mídias sociais nos enfia timeline abaixo uma infinidade de gente e perfis que não seguimos.

No Fediverso sua TL só mostra quem você segue e em ordem cronológica.

O Fediverso são as redes sociais online retornando ao seu período de ouro e evoluídas para serem mais resilientes e preservar nosso tempo e gentileza

E não é somente de interação social que vive a efervescência cibernética!

A gente precisa de email, videoconferência, aplicativos de produtividade colaborativos online (tipo Google Workspace) e um monte de etecéteras que só big tech oferece, né? Só que não!

Se prepara!

Uma pessoa comum com recursos financeiros de classe média, pode ser dona de um ecossistema como o bolha.io (link para a lista de serviços que ele hospeda, ele mesmo porque é o Guto que mantém tudo, assim como é a Isa que mantém o Isacloud que já citei).

Entre os sistemas que tem lá você encontra:

  • Cryptpad, que é um Google Worksapace privado;
  • Jitsu para reuniões em vídeo;
  • Libretranslate para traduzir textos;
  • Pusher para compartilhar senhas em segurança;
  • Psono para gerenciar senhas;
  • Rede social livres: Mastodon, Peertube, Pixelfed, Bookwyrm, Writefreely etc. Vc entra em uma e está em todas todas
  • Plane para gestão de projetos, como o Jira
  • Draw para fazer gráficos como fluxogramas
  • Penpot para prototipar sistemas, como o Figma
  • PDF stirling e BentoPDF para fazer coisas com PDF que você nem sabia que dava para fazer
  • Muito mais coisas

Pare e pense um pouco no que isso representa em termos de autonomia e soberania ao alcance de pessoas comuns, imagine para coletivos, organizações, governos.

Isso sem falar nos sistemas FOSS e Open Source disponíveis para praticamente tudo. Só para citar três que atendem 90% das necessidades de 90% das pessoas:

  • LibreOffice para substituir o Microsoft Office;
  • Você acha que o Chrome está vigiando toda a sua navegação para te enviar propagandas que mexam com as suas emoções e viés? – está mesmo – tem Vivaldi, Firefox, ZenBrowser, LibreWolf
  • O Windows tá pesado, enfia propaganda em toda parte, te espiona? Tem um Linux que é a sua cara

Estou dizendo que você precisa mudar sua vida toda agora? Não! De forma alguma! O que estou dizendo é que você pode! Se quiser. Quando achar que está na hora.

Só não se deixe abater porque parece que a Internet está morta, as pessoas são más, não tem esperanças de mudança: a humanidade está sempre em efervescente estado de mudança, é só procurar, é só escolher os caminhos que estão em movimento.

Joguei do nada aí em cima uma “Internet morta” e um “as pessoas são más” sem contexto, né? Bem, já falei do mito da Internet morta, mas vou ficar devendo um post específico e recente (tem uns antigos) sobre porque pessoas boas estão apoiando coisas horríveis.

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Foto de Saad Chaudhry na Unsplash

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