Editorial
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O período entre o primeiro e segundo turno das eleições de 2026 já é objeto de estudos e especulações:
- A esquerda aprendeu a usar as mídias sociais?
- O papel do grupo no WhatsApp foi determinante?
- A disputa de narrativa nas mídias virou o resultado do primeiro turno?
É inegável que o papel da equipe de comunicação da esquerda foi sensacional, mas crer que o domínio do espaço nas mídias sociais explica o que aconteceu ignora muitos fatores. Vou começar por dois que considero essenciais.
Em primeiro lugar a melhor estratégia de comunicação é inútil se não encontrar ouvidos e vozes que a repliquem. A grande vitória foi de coletividades que estavam prontas para se mobilizar diante do perigo real.
Em segundo lugar, infelizmente, a Meta na verdade venceu. Não só a Meta, mas as demais oligarquias cibernéticas porque mantiveram seu status de monopólio da Internet. Seus algoritmos foram vistos como uma inevitabilidade com que temos que lidar. Além disso… bem, preciso de um parágrafo intermediário antes e abordar o próximo ponto.
A mobilização progressista foi avassaladora online e nas ruas. Não apenas foram muito maiores que as do dito bolsonarismo, como se aproximaram de recordes históricos ou os superaram. O candidato Flávio era fraquíssimo, envolvido com diversos tipos de corrupção e mentiras sustentando-se pela proteção recebida dos algoritmos e do fenômeno social de períodos de transição civilizacional que favorece o conservadorismo. Some-se que sua campanha praticamente se calou no intervalo entre primeiro e segundo turno. Ainda assim Lula venceu por 2 pontos percentuais. Se o candidato da oligarquias fosse apenas um pouco menos fraco, se a campanha não tivesse se silenciado a vitória da esquerda dificilmente teria se materializado e ainda poderia perder “de lavada”.
Uma coisa a mais: a Meta é apenas uma das oligarquias cibernéticas movimentando esse tabuleiro composto ainda por Microsoft, Oracle, Alphabet, as de IA, Amazon e outras que mantém uma postura mais discreta, mas não podem ser esquecidas ou subestimadas.
Enfim: as Oligarquias cibernéticas venceram à medida que se mantiveram com o status de monopólio da Internet, moveram a janela de overton de tal forma que praticamente qualquer candidato de direita parecerá excelente. Além disso surgiu a ideia de que o algoritmo pode ser dobrado. Infelizmente não pode e não foi.
Vejo apenas dois caminhos e ambos precisam acontecer ou a esquerda perderá definitivamente em 2030 e muito além:
- A regulamentação das mídias sociais tem que obrigar a interoperabilidade, ou seja, as pessoas só precisam estar em uma das mídias sociais para alcançar todas as outras e também as redes sociais. Em termos práticos isso quer dizer que uma pessoa no Instagram deve poder seguir, comentar, curtir, compartilhar pessoas no YouTube, no TikTok, nas redes Mastodon, nas redes Friendica etc. A tecnologia existe e é simples de implementar, o Threads da própria Meta a utiliza, se chama ActivityPub, é aberta e está em plena operação há quase uma década;
- O governo, organizações, coletividades precisam voltar a povoar a Internet viva criando sites, redes sociais federadas, blogs, podcasts independentes, etc.
Isso, obviamente, no espaço online. Os espaços off-line também precisam ser recuperados. A polarização precisa ser desconstruída.
Organize o seu Conhecimento
Com alguma frequência alguém me diz que não tem tempo para o Fediverso porque já acompanha muita coisa nas mídias sociais.
Pense um pouco no que significa “muita coisa” no contexto das mídias sociais, onde os algoritmos impulsionam o fenômeno das “tendências” que geram uma infinidade de conteúdos praticamente iguais. É muita coisa de uma coisa só… ou quase isso.
Tenho respondido que não tenho tempo para o Instagram porque a minha base de socialização online e de acesso a notícias e conhecimento é o Fediverso.
Isso é importante porque a nossa mente precisa de diversidade para construir cadeias de associações, desenvolver novas ideias e aprimorar as existentes.
Uma estratégia importante no Fediverso é criar timelines temáticas reunindo, no meu caso, uma só com fontes jornalísticas, uma de ciência, uma de segurança, uma de amigues etc. Isso é trivial na interface padrão do Mastodon e existem outras interfaces até mais adequadas para profissionais.
Redes e Mídias Sociais
Continuo vendo perfis na Internet morta (ou moribunda) lamentando a morte da Internet como foi no passado, quando navegávamos por ela descobrindo sites, blogs, páginas com design diferente, fazíamos amizades em redes sociais.
Assisto alguns até o final na esperança de vê-los perceber que não foi a Internet que morreu, foras as mídias sociais que conseguiram criar um senso comum tão forte de que elas SÃO a Internet que, até mesmo com a Meta condenada a pagar 25 bilhões de dólares por interferir nas eleições dos EUA em 2018 e acusada por todos os lados de interferir nas eleições brasileiras, as pessoas continuam cegas para o mundo gigantesco ao redor desses pequenos povoados online.
Chamo de pequenos porque podem abrigar bilhões de pessoas, mas são como casas moduladas em que tudo é igual e o diferente é ofuscado.
Existe tanta preocupação em ficar para trás e muitos não percebem que a fila andou, a humanidade já está em movimento de migração para onde ela é livre para pensar, criar, se relacionar.
Pode ser porque sou um velho mutante (tenho 60 anos) e meus amigos, quase todos, tem mais de 40 e perderam o fogo da mutação. Espero que as gerações mais jovens estejam mais ligadas.
Nós fazemos o marketing, ou o marketing nos faz
Ainda é necessário, em muitos casos, lidar com os algoritmos das mídias sociais, mas a cada dia mais pessoas começam a voltar seus olhos para a Grande Internet, para redes sociais livres, para sites e podcasts especializados.
As regras do marketing digital nessas regiões da Internet são totalmente diferentes daquelas colocadas pelos algoritmos, mas felizmente não são de todo novas.
Quem esteve fazendo marketing nos tempos das redes sociais originais, do problogging ainda deve lembrar que uma das rotas mais seguras quando não há algoritmo é a comunicação horizontal, e se colocar ao lado do cliente alvo, é abordar pontos focais (hubs) como comunidades de cada área, blogs, podcasts, sites que dialogam com o mesmo público alvo.
É de bom tom evitar os pontos focais que são exatamente do seu produto pois a reputação é comprometida quando o veículo recebe mimos ou dinheiro.
Para ir além das IAs
O que vai ficar depois do colapso da bolha (que realmente parece inevitável)?
A propósito o que deve colapsar exatamente? As LLMs deixarão de funcionar? Os códigos dos agentes ou assistentes de IA serão apagados?
O que entra em colapso é o modelo que centraliza o processamento de IA em datacenters imoralmente grandes.
Por exemplo, quando publico uma imagem no Mastodon, que acesso pelo servidor mantido por um amigo, uma pessoa com recursos econômicos como os nossos, ele roda uma IA que faz a descrição dela para pessoas com baixa visão.
Essa semana testei no meu Mac M1 o Biscotti, uma IA que roda totalmente localmente e faz a transcrição do áudio em vídeos identifica quem está falando e faz um sumário. Ela processou uma oficina de duas horas em pouco mais de 15 minutos com perfeição.
Tenho amigos que usam agentes (assistentes) de IA rodando localmente para ajudar no desenvolvimento de código, em tarefas administrativas repetitivas, etc.
Claro que nada disso apaga as questões éticas e morais de usar uma tecnologia que foi criada a enormes custos econômicos prejudicando a população, roubando e explorando trabalho humano, articulando tramas políticas para derrubar governos que protegem os próprios recursos naturais, mas depois do estouro da bolha muita coisa vai ficar.
Também ficam problemas como os riscos de confiar tarefas complexas a algoritmos que são absolutamente incapazes de pensar, raciocinar, sentir. Também fica uma cultura de mau uso em que atrofiando confiando a algoritmos atividades que nós deveríamos fazer. Mas creio que já falei bastante nisso.
Segurança e Privacidade
Temos que falar da Proton, que sempre indiquei para ser um ecossistema de email, VPN, armazenamento, agenda, gerenciamento de senhas seguros. Não indico mais.
Existe uma coisa chamada psicose de IA que, em alguns contextos, significa confiar a elas o que está muito além da capacidade delas.
Talvez onde isso aconteça mais é na programação, no desenvolvimento de programas e sistemas. Não que não seja possível usar IA para isso, conheço pessoas que fazem sistemas excelentes, mas são pessoas exímias programadas mesmo sem IA.
Tenho quase certeza que você já notou em um ou mais aplicativos que eles andaram piorando e aposto um post no meu blog pessoal em sua homenagem que a culpa é do mau uso de IA no desenvolvimento.
Recentemente o o CEO da Proton decretou que a empresa, já ano que vem, deve substituir engenheiros de software por “pedidores” de código para IAs (principalmente a Claude, que é muito usada para programação). De acordo com ele as próprias IAs revisarão o código.
Não tem como isso funcionar. Não confio que não surgirão falhas de segurança ou até colapsos da plataforma. E sou usuário pagante há quase 10 anos. Estou começando a replicar o que tenho naquele ecossistema (quase tudo) em outro. Haverá um post sobre isso no Meme de Carbono.
Autonomia, soberania, narrativa
Os acontecimentos eleitorais no Brasil podem ter reavivado um fogo que já se espalhava pelo mundo, justamente o fogo da autonomia e soberania digitais necessárias para que um país, uma coletividade, uma sociedade tenha domínio sobre a própria história e a forma como ela é contada, a narrativa.
Mas o que isso quer dizer realmente? Que as mídias sociais devem ser estatizadas? Que os Estados devem criar suas próprias redes ou mídias sociais? Que devem produzir a própria energia recorrendo ao Sol, ventos, hidrelétricas e até usinas nucleares? Afinal não existe autonomia e soberania sem energia elétrica, comida, remédios.
Há muito a ser discutido, planejado e executado e o espaço aqui é restrito, mas podemos procurar uma visão do alto e, por ora, observando apenas o digital/ cibernético, a parte “de xingar”, ou seja basicamente software.
- Redes Sociais estatais não parecem uma boa ideia pois coloca a população sobre um panóptico que pode ser sequestrado, o papel do governo poderia ser o de criar a sua própria instância federada para que instâncias sociais livres mantidas por povos originários, organizações civis, universidades, pessoas comuns e demais recortes da sociedade pudessem acessar em busca de uma relação direta com o governo sem a intermediação das mídias sociais algoritmicas;
- Free Open Source Software, o FOSS, ou seja sistemas que são propriedade da humanidade como Linux e quase toda a infraestrutura da Internet e dos sistemas computacionais mais avançados devem ser priorizados. Estamos falando aqui do Linux, LibreOffice, XMPP (para comunicação por texto, similar a WhatsApp) e uma vasta pletora de sistemas de código aberto (incluindo IAs)
Isso dá para o começo, mas não é trabalho para quatro anos. É necessário estabelecer políticas e compromissos públicos que garantam a continuidade do desenvolvimento de autonomia e soberania.
Clipping
Os links abaixo são uma seleção dos últimos 15 dias. Em Links diários do Meme de Carbono você pode explorar o que achei relevante dia a dia. Hashtags ajudam a buscar tópicos do seu interesse.
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Até a próxima,
Roney Belhassof


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