A esquerda finalmente “quebrou” o algoritmo da Meta? A Meta perdeu?
Esse é um tema espinhoso em tempos de polarização e de pós verdade, mas é necessário, portanto pedirei que, qualquer que seja o seu “lado”, procure manter uma mente científica e aberta.
Posso ajudar dizendo que dialogo com pessoas em cada lado da polarização e todos querem as mesmas coisas, mas pensam que essas coisas só podem ser oferecidas pelo lado da polarização em que se encaixaram. Além disso procurarei não entrar na questão de que lado está correto, inclusive porque vejo falhas de percepção da realidade ao longo de todo o espectro político da polarização.
O que esse post aborda é:
- Por que as percepções da realidade estão colocadas posições diametral e irreconciliavelmente opostas;
- Qual é o papel, não só da Meta, mas de outras oligarquias cibernéticas, techno feudos, big techs ou como queiramos chamar e que incluem Anthropic, OpenAI, Alphabet etc?
- Se os dois “polos” da sociedade querem a mesma coisa o que pode ser feito para que possam perceber isso e, em fez de se enfrentarem se unirem pelo bem comum
Sobre os mecanismos espontâneos da polarização
Antes de entrar nesses tópicos é importante lembrar que “polarização” sempre existiu no sentido de que há pessoas com viés mais conservador, pessoas com viés mais mutante e um largo espectro entre os dois e geralmente há diálogo, exceto entre os extremos, e mesmo assim em extremos radicais, quase dogmáticos se apelarmos para uma terminologia religiosa.
É possível estabelecer um fluxo “taoista” ou “Ying/Yang” em que compreendemos que os os diversos campos interagem e chegam a consensos. E não falamos aqui em algum tipo de utopia, mas simplesmente de como era a política e a sociedade aqui mesmo no Brasil até uns 10 ou 15 anos. Aliás, no Brasil e no mundo pois, pois o fenômeno não é local, mas global.
Já escrevi posts como A Prisão Invisível que Ameaça a Civilização (em2021) e O móbile da fragmentação da sociedade brasileira (2023) que abordam os mecanismos sociais espontâneos da sociedade que podem ser usados para catalisar a polarização. Em 2016 escrevi Por que a operação Alethéia é irrelevante antecipando e explicando o que viria a acontecer somente esse ano.
Já em 2009 escrevi:
Nossa cultura massificada é construída de forma a nos transformar a todos em objetos que consomem e são consumidos. Essa cultura nos prepara para “coisificar” o próximo e infelizmente a cibercultura pode não ser um antídoto para isso, pode até ser um instrumento para acelerar e aprofundar a desumanização.
Raízes da violência: marco dois, a desumanização
Como despolarizar
Começando pelo terceiro ponto: O que pode ser feito para percebermos que a polarização radical que vivemos é uma divisão artificial e que pode ser revertida.
Por isso senti necessidade da sessão anterior. O primeiro passo é percebermos que estamos em um estado emocional e cognitivo frágil por causa das aceleradas mudanças que a civilização tem passado em seu caminho para se tornar cibernética e cognitiva e que esse estado está sendo catalisado por corporações que tem interesse em nos dividir o máximo possível. A propósito, até mesmo pessoas nos mesmos campos (preconceitos, vieses políticos, etc).
Entendo que é muito difícil imaginar que é possível se reconciliar com aquele parente fascista ou aquele comunista, e esse é um ponto em que vejo os dois “lados” desconectados da realidade assumindo que o “lado” oposto é uma amalgama cimentada que tem os mesmos desvios morais absurdos.
O amor, a gentileza, a empatia, a alteridade, escutar, laços de amizade e família, qualquer que seja a sua posição no complexo hiper-cubo de características do pensamento, sentimento e manifestações humanas, estão entre as coisas que mais importam na vida.
O amor é o principal caminho para despolarizarmos, junto com a consciência de que isso não está vindo de nós.
Por que parece irreconciliável?
Vamos para o primeiro ponto!
É porque virou guerra santa. Simples assim.
Mas é bom desenvolver porque é difícil perceber que estamos em uma Cruzada.
Me lembro de Gen, de pés descalços, um mangá de um artista japonês que viveu a Segunda Guerra mundial quando era criança e viu soldados japoneses desfilarem pela rua com um “demônio do ocidente” dentro de uma jaula com sua pele vermelha para que todos vissem que o inimigo era o mal encarnado.
Está no “DNA” genético e memético da humanidade, diante do medo, eleger um inimigo ou ameaça clara onde possa depositar todo o mal e criar uma linha de ação.
Acho desnecessário listar aqui estudos que mostram como as mudanças nas estruturas de poder, nos papéis sociais, nos estereótipos de masculinidade, feminilidade etc. nos deixam exatamente nesse estado de medo e necessidade de definir um “inimigo” porque são muito numerosos, fáceis de achar e por entender que temos que desenvolver o hábito da busca, mas se quiser um atalho é provável que você encontre boas fontes na minha página de recomendações que chamo de Memeroll.
A civilização cibernética é a esfinge que nos impõe enigmas para que possamos atravessar a transição e aprender a transitar pelo novo mundo cibernético.
Eu mesmo nesse momento
E o papel das oligarquias cibernéticas?
Em geral elas são chamadas de bigtechs, mas não sou eu que estou propondo passar a nos referirmos a elas como o que são: oligarquias tecnológicas, oligarquias digitais, oligarquias cibernéticas.
Faça sua busca por “[nome da corporação] fascismo” ou “[nome do bilionário] fascismo” no seu buscador, revista ou site sobre política de preferência. Os apoios sequer tem sido discretos. Para facilitar aqui vai o resultado da busca por “bilionários fascismo” no buscador StartPage.
Claro que mídias tradicionais, grupos financiados por corporações em ramos nada cibernéticos como combustíveis fósseis e alimentação também se aproveitam da oportunidade criada pela fragilidade momentânea da sociedade, mas hoje nada chega perto do poder de perfilização e influência da Alphabet, Meta, Oracle (que está assumindo o TikTok no ocidente além de controlar Paramount, Warner, CBS etc), Microsoft, OpenAI, Anthropic…
Ainda não vi estudo que determine o percentual de influência dessas oligarquias, mas suspeito que é muito mais alto do que se pensa à primeira vista e tenho defendido que, se houvesse uma diáspora em massa para fora dos domínios delas (um movimento mais fácil do que parece) a polarização se dissolveria em semanas.
O que quero dizer por diáspora:
- Migrar para um email fora do alcance delas
- Usar um navegador que garanta a privacidade
- Deixar as mídias sociais como o Instagram para fazer mídia, se anunciar, e levar os contatos sociais para sistemas de mensagem privados como Signal e XMPP e para redes sociais de fato e livres (post de 2024)
- Reforçar os contatos offline
Essa diáspora não deve acontecer ainda nos próximos anos, mas nada impede você, que chegou aqui nesse post, a começar a se movimentar. Garanto que sua performance comercial nos Instagram da vida melhorará e sua vida se tornará mais leve.
Nada disso elimina a necessidade de regulamentar as mídias sociais e existe uma medida muito simples que seria 80% do caminho para eliminar a polarização.
A cura para todos os males das redes sociais (mídias sociais): Regulamentar obrigando à interoperabilidade, ou seja, com apenas uma conta social, por exemplo no Instagram, seria possível seguir, ser seguida e interagir de todas as formas com contas no TikTok, YouTube, Bluesky e todos os milhares de redes sociais do Fediverso como se fosse uma única rede. A tecnologia não apenas existe como está em funcionamento há quase 10 anos e até o Threads da Meta a usa, chama-se ActivityPub. Com essa medida as pessoas ficam livres para estar em qualquer rede ou mídia social, com ou sem algoritmos, com ou sem anúncios, com ou sem privacidade.
Muito importante: para a Meta e outras oligarquias cibernéticas está tudo bem! As pessoas continuam presas em seus tecnofeudos e elas podem esperar 4 anos para eleger seus candidatos, elas podem pressionar os eleitos para ainda manter privilégios. Se não nos afastarmos delas a polarização continuará, nossas famílias e círculos sociais continuarão sendo esgarçados.
Vale lembrar que a esquerda teve que apresentar uma performance 76x mais rápida, muitas vezes maior que a da direita para conquistar apenas 3 pontos percentuais. A Meta perdeu por pouco.
Conclusão
O mais importante, ao meu ver, no segundo turno das eleições de 2026 não foi a virada da esquerda, não foi terem supostamente quebrado o algoritmo da Meta, foi a tomada de consciência da necessidade de mobilização da sociedade, de autonomia e soberania individual e nacional das formas de comunicação. Em um primeiro momento pela regulamentação (que realmente é urgente), mas também se vê movimentos para fora das mídias sociais hegemônicas tanto para o Fediverso quando para iniciativas paralelas.
Tudo depende agora de como essas mobilizações seguiram nos próximos anos, do sucesso da regulamentação das mídias sociais, do fortalecimento dos meios livres de comunicação (não esquecer da importância dos sites livres e blogs) e da recuperação do tecido social pela diminuição da polarização.
Tenho boa visão das possibilidades, como mostram meus posts antigos, mas não tenho bola de cristal e nem olhos dentro dos corredores do poder, mas grupos de mídia independente tem, fique de olho neles, jornais como The Guardian, Wired, Mother Jones, The Atlantic, podcasts etc.
Imagem
Foto de Corey Young na Unsplash


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