“A gente ia ao cinema, jogava vôlei, passava no shopping, sentava na calçada para tocar violão e cantar, tomava um mate no caminho para o cursinho de inglês, ia num aniversário no início da noite ou na matinê e tudo num dia só sem se cansar!” – Estava vendo um relato mais ou menos assim no podcast da Vivi Maurey falando dos anos 90 (no Substack). Vale para os anos 70 quando eu tinha a idade dela nos 90.
Confesso que preciso ver como está o pessoal dos 13 aos 23 atualmente, mas a julgar pelos que vejo pela rua interagindo uns com os outros e com seus celulares talvez tenham uma vida diversificada como a das adolescências anteriores. Acho que meus pais também pensavam que tinham vidas mais ricas em experiências, mas hoje é inegável que uma grande parcela das pessoas passa um tempo enorme em mídias “sociais” ou até em joguinhos de azar ou “bets”.
Completando o ecossistema do cansaço temos as mídias jornalísticas e até a mídia de entretenimento caminhando no sentido da saturação dos sentidos e das emoções e nem vou falar das estratégias do marketing político, do firehosing (artigo de 2019 já citando Trump e Jair Bolsonaro).
Vivemos em um ecossistema do cansaço, que, no entanto, pode ser interrompido.
Como se forma?
A tentação é supor que esse ecossistema é resultado do planejamento consciente de um pequeno grupo de pessoas com muito poder e pouca humanidade, mas não creio que seja assim que ele se desenvolva (o que não quer dizer que não existam muitas pessoas com muito poder e pouca humanidade na estrutura ou se aproveitando, chegaremos a elas).
A humanidade está em um ponto de ruptura informacional.
A Internet permitiu que todas as pessoas se conectassem a todas as outras instantaneamente. Sem filtros. Sem moderação.
Humanos evoluíram para viver em pequenos grupos em que os indivíduos se conectam e tem posições sociais e funcionais claras, ainda que com uma certa mobilidade.
O desejo de ser “uno”, de ter um papel e uma posição na coletividade de 8 bilhões de pessoas, é um impulso natural. Era inevitável que surgissem métodos de conexão e a primeira onda… bem, a primeira onda se deu por tribos em newsgroups, IRC, BBS e nas primeiras redes sociais online, mas na época as exigências tecnológicas e econômicas restringiam esse universo a uma parcela ínfima da humanidade.
Então veio a Web e o barateamento dos computadores e logo muitas pessoas precursoras estavam criando seus blogs e, ao longo dos anos 2000, era cada vez mais comum conhecer alguém que tinha blog.
Outra característica fundamental dos humanos é a busca por recursos e por um abrigo seguro que nos permita desfrutar da vida. Atualmente são dois os meios para atingir esse objetivo: reputação e dinheiro. E tendo muito do segundo nem precisa do primeiro, muito embora possa se falar em crises de síndrome do impostor.
Juntando os dois impulsos; conexão e posição com reputação e dinheiro; chegamos à onda da Internet social comercial. Primeiro no fenômeno dos pro-blogers, ou seja, blogueiros e blogueiras comerciais (em torno de 2008).
Para quem é muito jovem pode valer a pena deixar claro: cada blogueiro era dono do seu próprio sítio na Internet, seu site. Como esse aqui. Logo surgiram coletivos de sites, mas o controle ainda estava nas mãos dos blogueiros… Bem, até a página um, afinal era necessário agradar os anunciantes para tornar o blog lucrativo e, com isso, já se perdia uma parcela da reputação dos blogs e a imparcialidade.
Um outro rio corria ao largo da blogosfera: as redes sociais online. Eram sites onde qualquer pessoa podia ser blogueira, como o Twitter ou o Orkut (abrangendo aí de 2004 em diante).
Bastava a pessoa criar uma conta na plataforma e começar a levar pessoas para lá ou a fazer novas amizades. Era parecido com as redes sociais online em IRC ou BBS 10 anos antes, mas muito mais fáceis de usar. E sim, as pessoas em redes sociais são blogueiras, somente com a diferença de não serem donas dos seus espaços e sim vassalas das terras de outros, ou “moradores de favor”.
Por muitos anos esse ecossistema foi livre, saudável e estimulante: blogueiros compartilhavam seus posts mas redes sociais ou pessoas compartilhavam e comentavam posts por lá. As redes sociais muitas vezes pautavam a mídia de massa como TV, rádio e jornais, afinal tinha cada vez mais gente interagindo nelas. Marcas criavam “personas” para interagir como se fossem pessoas. Temos o pinguim do Ponto frio e “O leitor voraz” como bons exemplos, mas eram dezenas, centenas de empresas se colocando lado a lado com gente, a comunicação deixando de ser vertical e se tornando horizontal.
Claro que isso se tornaria impraticável conforme centenas de milhares passavam a interagir com uma única empresa, ou que a coletividade se tornasse tão conectada quanto empresas. Vale lembrar aqui das festinhas exclusivas para quem tinha mais de N milhares de seguidores no Twitter ou da disputa entre Ashton Kutcher e um banco a CNN para chegar a um milhão de seguidores no falecido Twitter (ele ganhou e hoje tem 14 milhões no X).
O detalhe mais importante: já não eram mais contatos, muito menos amigos, eram seguidores. Aí começa o ecossistema do cansaço. Não se tratava mais de pessoas interagindo, mas em corridas de popularidade, em disputa de atenção que resultam em cansaço.
O golpe de misericórdia no ecossistema do cansaço se dá quando o poder computacional permite a elaboração de algoritmos que prometiam a mágica de nos ajudar a interagir com milhares de pessoas ao reconhecer nossos interesses e conexões mais próximas além de serem capazes de pescar uma publicação de um contato nosso que nunca vemos, mas daquela vez escreveu sobre algo interessante para nós.
O fenômeno que transforma redes sociais online que conectam pessoas em mídias sociais online e todo um ecossistema de comércio da atenção se dá espontaneamente em uma sociedade humana capitalista sem a necessidade de uma articulação maliciosa.
… Mas nada impede o uso desse ecossistema por articuladores maliciosos, a começar pelos donos das plataformas e continuando por quem percebe a oportunidade rara em um “lugar” em que se reúnem bilhões (literalmente) de pessoas prontas para serem estudadas, influenciadas, comercializadas.
Passou a ser possível comprar pessoas. Já falei nisso, mas é simples: uma empresa pode comprar o efeito “deixar as pessoas ansiosas para assistir mais tempo ao meu streaming de séries e filmes” ou “polarização da sociedade distraindo a atenção do mal que faço enquanto irmãos se colocam contra irmãos”.
Resumindo o ecossistema do cansaço
- Acontece naturalmente quando as pessoas seguem seus instintos de socialização e busca de recursos dentro de um sistema sócio econômico capitalista;
- O espaço online passa a pautar os espaços offline, a presença de muitas pessoas no mesmo espaço online faz surgir a necessidade de ferramentas que possibilitem a conexão muito além dos 230 contatos que a evolução nos preparou para ter;
- A cultura de estímulos rápidos, fortes, com apelos emocionais que oscilam da euforia para a depressão em segundos se espalha para fora dos espaços online, passa a acompanhar até nossos pensamentos quando nos desconectamos
- Personagens oportunistas amplificam e se aproveito do ecossistema. Começando pelas próprias plataformas e continuando para políticos (que muitas vezes se colocam como servos das plataformas), empresas e golpistas.
Para tudo tem solução
Sair das mídias sociais parece ser um desejo comum, mas para a maioria não é um movimento fácil e pode ser muito melhor fazer uma transição suave aumentando aos poucos outras formas de convívio e até de “não convívio”, de reflexão, de desfrutar da própria companhia e silêncio um pouco cada dia.
Redes sociais de verdade são agradáveis, nos fazem bem, como as que encontramos no Mastodon e outras redes sociais do Fediverso, que são reais e livres.
E… bem, tenho uma reflexão que pode causar estranhamento: será que é natural ou mesmo positivo para humanos manter redes sociais online, mesmo que não sejam mídias sociais mediadas por algoritmos?
Pode causar estranhamento porque sou um ser de redes sociais online desde o início da última década do século passado e continuo sendo, mas realmente me pergunto se é bom para todo mundo.
Não que seja um fator de superioridade, de forma alguma! é um fator de diversidade. Tem pessoas que adoram interagir com muita gente, tem pessoas que preferem andar com poucas pessoas de cada vez, tem as que criam empatia imediatamente e as que precisam de tempo.
“Ah! Mas o exército anti-fascista que salvou a democracia?” Bem esse é um assunto que precisa de outro post, mas defendo que o que salvou a democracia foi a sociedade estar pronta para se mobilizar e, mesmo no ambiente hostil das plataformas que sequer escondem que se tornaram oligarquias cibernéticas, conseguiu se mobilizar e continuará se mobilizando quando necessário usando ambientes muito melhores como XMPP e redes sociais livres, mas, como disse, isso pede outro post.
O objetivo aqui é interromper o ecossistema do cansaço.
Reduzir o tempo de mídias sociais é importante, encontrar com pessoas é importante, ler e escrever é quase essencial, buscar melhores relações no trabalho e com o trabalho também (está difícil porque as empresas estão muito ruins).
Tenho sugestões:
- Contemplar os estímulos, aprofundar os assuntos, evitar fontes voláteis, cultivar tempo offline, cultivar hábitos de atenção (livros, filmes, conversas com outras pessoas, assistir o movimento das nuvens, das ruas
- É difícil mudar de hábito por causa dos nossos instintos, mas é essencial para que possamos encontrar tranquilidade e até nos tornarmos mais produtivos, afinal ainda precisamos ser produtivos.
- Parece ter pouco a ver com os 6 pilares que costumo citar, mas, antes de mais nada, os seis pilares são habilidades e hábitos que considero serem suficientes para nos mantermos à frente na era cibernética, segundo que não são apenas esses seis pilares e existem muitas outras habilidades e hábitos úteis;
- Ainda assim estamos falando aqui de um dos pilares: narrativa, afinal quando assumimos o controle do fluxo de estímulos, das fontes, da profundidade do conhecimento a que nos expomos estamos desenvolvendo o controle da nossa narrativa, quando não fazemos isso estamos cedendo o controle. Além disso “controlar o fluxo de estímulos” é outro pilar, a organização do conhecimento
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Foto de Luis Villasmil na Unsplash


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