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A esquerda e direita estão subestimando muitas coisas nessas eleições: o papel das plataformas cibernéticas (Meta, Alphabet, Oracle…), a anatomia da estratégia que molda os dois campos políticos, a importância das ruas, do offline como fronteira de manutenção do tecido social, a natureza, a origem e o futuro da polarização que enfraquece a direita tanto quanto a esquerda.
Vou retroceder para os primórdios do papel das redes sociais online na vida pública, ainda nos anos 90 quando BBS e blogs preocupavam o status quo ainda que a enorme maioria das pessoas nem fizesse ideia que essas coisas existiam e, um pouco antes, já existiam IRC, newsgrups etc. Mas não vou mergulhar na história da humanidade cibernética. Esse parágrafo tem um objetivo: lembrar que um recorte ínfimo da sociedade tinha sua voz potencializada online e disparava alertas em corporações.
Nada contra corporações, mas elas tem muito contra os nossos salários, poder de consumo e direitos; então ter voz é importante.
Em 2009 já me perguntavam Como manipular as pessoas na Internet? E respondi na esperança de ser mais escutado pelas pessoas na Internet do que por quem pretendia influenciá-las, mas claramente acharam pessoas até mais qualificadas que eu para traçar estratégias já que nunca tiveram a cara de pau de me convidar para isso.
“Dois lados” é uma falácia. A humanidade é construída na diversidade mesmo levando em consideração o maniqueísmo, um dos nossos pontos mais fracos, que nos faz ver a realidade pela dicotomia entre bem e mal.
No entanto existem duas “civilizações” na Terra: Nós e as corporações. Guy Debord tinha uma boa visão dessa divisão, que não é maniqueísta, é simplesmente formada por pessoas que trabalham e leviatãs que usam o trabalho. Até mesmo as pessoas que se acham donas dos leviatãs são escravizadas por eles em grande medida, mas isso é tema para doutorados e aqui vou me ater aos efeitos.
Os efeitos são a divisão da sociedade, o rompimento das conexões das famílias, amizades, relações no trabalho e o “inimigo” sequer é uma entidade consciente ou uma pessoa, é um “jeito como as coisas são”. Como no questionável, mas útil como metáfora, experimento da prisão de Stanford: as pessoas agem de acordo com o que acham que as regras determinam.
E quem faz as regras?
Bem. Até pouco tempo elas eram forjadas lentamente por interações das mentes coletivas de quem trabalhava e de quem contratava, cada qual tentando servir da melhor forma possível o sistema em que se inseria.
Pois agora temos um problema: Inteligências Artificiais. E não me refiro às generativas ou mesmo às agênticas (assistentes de IA ou como se venha a chamar), mas às dos algoritmos que constroem as nossas TimeLines e os resultados das buscas que fazemos nos mecanismo de busca, que um dia foram tão úteis. Elas já estão soltas nos modelos atuais há pelo menos 12 anos.
Agora pense em quando a polarização da sociedade foi se tornando cada vez mais intensa e rígida.
Hoje pessoas que você ama, que são gentis com você e com quem vc é gentil, defendem um projeto de sociedade monstruoso. E isso é importante; preste atenção: seja você “de direita” ou “de esquerda” a afirmação está correta. Pelo menos aos seus olhos.
Todos querem as mesmas coisas: respeito, prosperidade, descanso, se desenvolver.
O que nos separa é uma ordem dada a máquinas que fazem milhões, bilhões de simulações e testes para encontrar caminhos para cumprir o comando. Por isso agentes de IA “se rebelam” e fazem o inesperado, eles simplesmente fazem tudo que podem para cumprir o comando.
E qual é o comando dado para Facebook, Instagram, TikTok, Threads, X, Google e todas as outras plataformas que visam lucro, mas se escondem atrás da gratuidade?
É possível fazer uma engenharia reversa, mas tudo parte de um comando: dê lucro. Ele tem subcomandos como “faça as pessoas desejarem esse produto que me pagaram para promover”, “faça as pessoas ficarem o máximo do tempo”… esse leva as plataformas a plantarem tanto ideia de que não há outro mundo possível, quanto a polarização que prende a nossa atenção em um fluxo infinito de absurdos “do outro lado”. A narrativa é da divisão da sociedade.
Isso precisa parar, mas não será odiando qq ser humano, nem mesmo o bilionário. Afinal é o sistema que precisa mudar (claro que bilionário criminoso precisa responder às leis e leis devem ser feitas para todes) e só teremos poder para mudá-lo quando passarmos a vê-lo como fenômeno da humanidade e não como construção de uma pessoa ou um grupo de pessoas.
Entendo que estou apresentando uma ideia de dar nó na cabeça e que precisa de aprofundamento, mas destaque pelo menos o próximo parágrafo para pensar e reajustar como você lidará com as pessoas que você encontrar “do outro lado” político.
Até muito pouco tempo a direita e a esquerda dialogavam, apresentavam suas razões e soluções votando para chegar a consensos que nos levavam a avançar e era perfeitamente possível uma pauta “de direita” ser defendida por pessoas “de esquerda”. Quem ganha quando direita e esquerda passam a ser sinônimo de mau e mau? Irreconciliáveis, incomunicáveis? É como no filme Cristal Encantado: temos que reunir as nossas abordagens da realidade novamente ou continuaremos a mergulhar em uma era de decadência.
Certo, mas enquanto isso não acontece creio que tenho que deixar clara a minha posição nesse segundo turno. Isso tem sido cobrado em geral e creio que é um direito. Voto contra a proposta de uma terceira via que não é nem de direita, nem de esquerda, mas de um tipo de oligarquia cibernética (haverá posts sobre isso, mas não é invenção minha). Voto 13 para preservar nossa estrutura política básica.
Organize o seu Conhecimento
Todo conhecimento é útil. Lembro de Steve Jobs, que fez um cursinho ou eletiva de tipografia, não lembro bem, e foi graças a isso que ele colocou fontes true type em seus computadores marcando um dos primeiros sucessos da Apple: ela dominou o mercado de editoração eletrônica de jornais e revistas por muito tempo.
No entanto a proporcionalidade de cada conhecimento que vamos acumulando é importante e o equilíbrio e diversidade do conhecimento a que temos acesso ficam comprometidos quando nossas fontes se concentram nos espaços pequenos criados pelos algoritmos das mega corporações cibernéticas, que infelizmente calibram seus sistemas para nos apresentar o mundo da forma como interessa a elas que vejamos.
O cenário piora quando percebemos que a mídia em geral acaba criando conteúdo para os mesmos algoritmos e não para nós e menos ainda para tentar refletir a diversidade da realidade.
Um caminho que tenho seguido é o de buscar revistas e jornais especializados pois eles quebrarão o tom monotemático dos algoritmos. Uma ou outra matéria de capa pode ser criada para chamar atenção, mas o miolo sempre, ou quase sempre, terá notícias e reflexões sobre outros temas. Falo de publicações como a Revista da Fapesp, a Scientific American, podcasts como o Xadrez verbal (e o site), The Verge e muitas outras fontes.
E como fazer uma coleção de fontes diversificadas?
Bem, podemos contar com recomendações de outras pessoas, como as que coloco na página Recomendo – Memeroll, podemos pesquisar diretamente por sites como “Revista de ciências biológicas”, também podemos olhar a home (página inicial) quando acharmos um bom artigo. Veja o “sobre” também. É importante entender os vieses das fontes.
Redes e Mídias Sociais
Estou em redes sociais online desde os anos 90 do século passado e existe uma característica vital em todas elas: fortalecem e estendem as redes sociais offline. Se não fazem isso se deterioram em mídias sociais, em culto ao ego, em algo social, mas que não nos faz bem.
Já falei e repito porque é cada dia mais importante: Cultive as redes sociais offline e crie novas. Não deixe as mídias sociais consumirem o tempo dedicado ao contato direto. Lembrando que o contato direto também pode ser online em chat ou grupos de chat.
Não é “a Internet” que afasta as pessoas, são as mídias sociais online, seus algoritmos e o viés que lhes é imprimido pelos interesses das corporações que as oferecem “de graça”.
Redes sociais online continuam existindo no Fediverso, como já comentei, mas até mesmo lá a polarização, a divisão da sociedade, chega porque se tornou estrutural e, a propósito, praticamente só as pessoas “de esquerda” andam por lá.
O que nós precisamos é de redes sociais que derrubem muros, que nos mostrem que não tem outro lado, que todos temos muito em comum, incluindo nossos sonhos e projetos para o futuro da humanidade.
E essas redes sociais, pelo menos por enquanto, são offline e estão na capacidade de nos reaproximarmos daquelas pessoas de quem as mídias sociais nos afastaram.
Simplesmente não é verdade que metade da humanidade é má, e a outra também. Isso é uma construção artificial e imposta com grande fragilidade, que pode ser rompida como a névoa fina. Dê uma olhada mais abaixo em autonomia, soberania, narrativa.
Nós fazemos o marketing, ou o marketing nos faz
Nas últimas semanas temos visto reiteradas reclamações com o alcance de conteúdo que envolve política e claras preferências das plataformas e não apenas das mídias sociais, mas também buscadores e sistemas de inteligência artificial generativa.
Confirma o que vem sendo dito há tempos sobre o viés e extensão do controle da narrativas que essas plataformas tem, mas ainda vejo muita gente buscando estratégias para enganar os algoritmos. Não tem como enganar os algoritmos e isso não se aplica somente a conteúdo político, isso se refere a qualquer conteúdo; podem ser os seus docinhos que, por algum motivo, os algoritmos não gostaram, seja por projeto ou por erro.
A melhor forma de “enganar” o algoritmo é usá-lo para atrair pessoas para plataformas de mídia que você controla, como sua mala direta, rede social online real, seu site.
Sabendo para que perfil cada conteúdo será exibido pode-se fazer uma “landing page” específica e passar o link, por exemplo.
Para publicação em plataformas mais limitadas, como o Instagram, que só aceita links em stories, pode-se usar um encurtador de links.
Por exemplo, a publicação pode chamar atenção de trabalhadores a favor da escala 6×1 e a página mostrará argumentos planejados para esse recorte.
Até agora, nas campanhas políticas, não vi nenhum uso disso, na verdade raramente se vê esforço para levar a audiência para onde se tem autonomia e soberania digitais e onde podemos controlar a narrativa.
Para ir além das IAs
Considerando que essa é uma edição temática de eleições, vou falar dos vieses das IAs da Meta e da Alphabet (tenho pensado que é melhor usar o nome dos conglomerados) que, muitos tem reclamado, se recusam a gerar imagens promovendo um candidato ou gerar texto elogiando esse candidato, mas fazem para o outro.
Um parêntese: Faz algum sentido Meta e Alphabet promoverem um candidato pensando no nosso bem, ou será que estão pensando nos próprios interesses?
Bem, podemos pensar que o problema é a complexidade de criar salvaguardas e que funcionam intermitentemente, no entanto, por mais que eu aponte o problema da imprevisibilidade do processamento de IA, as salvaguardas são simples de implementar e podemos provar.
Eu não uso as “grandes” IAs por achar inadmissível entregar tanto poder a empresas privadas e com agendas políticas contrárias às nossas. Bem, raramente uso IAs porque não tem muito utilidade para o que faço, entretanto procuro testar IAs menores e que se propõe mais éticas para comparar resultados e salvaguardas.
Curiosamente os resultados delas para as atividades em geral são semelhantes ou mesmo melhores que os das grandes e as salvaguardas certamente funcionam muito melhor.
Tenho recomendado a Lumo, mas tenho mantido uma lista de IAs mais éticas no post IAs generativas, não sou obrigado
Segurança e Privacidade
Tanto as pessoas no espectro de esquerda quanto de direita temem o surgimento de um governo totalitário, mas são poucas as que fazem uma preparação mínima para essa possibilidade.
O mais irônico é que é muito fácil se preparar. Tudo que precisamos é:
- Ter um email seguro como o Proton ou o Tuta (alguns incluem drive online seguro)
- Usar buscadores que não nos rastreiam. O DuckDuckGo é suficiente
- Ter pelo menos um aplicativo de comunicação além do WhatsApp, o ideal é XMPP, mas SimpleX ou Delta Chat são boas opções. Não recomendo aqui o Signal porque não é um sistema distribuído, logo pode ser derrubado por decreto no país, os outros não
- Usar um navegador seguro como o Firefox com três extensões: Facebook Fence, Privacy Badger (da EFF) e U-Block Origin
Procure no MemeDeCarbono por segurança e privacidade. Tem vários artigos lá com dicas.
Autonomia, soberania, narrativa
Num passado já se tornando distante os programas que usávamos em nossos computadores eram nossos: nós comprávamos, instalávamos e podíamos usar pelo resto da vida. Existia autonomia. Não era muito soberano porque a enorme maioria dos sistemas eram estrangeiros (o Carta Certa era estranho, mas era nosso).
Agora até o sistema operacional Windows está a caminho de se tornar uma assinatura que se você não pagar para de funcionar. Outros sistemas dependem da Nuvem para funcionar, como o sistema de notas Notion.
Autonomia e soberania só são completas se o sistema funciona sem depender da empresa que o desenvolveu e se é FOSS, ou seja Free Open Source Software, mas não precisa se intimidar com a sigla, basta pensar que são programas em domínio público, que pertencem à humanidade e não a uma empresa. Muitos deles são melhores que os de corporações.
O mais importante deles é o sistema operacional mais usado do mundo, ele está em simplesmente TODOS os 500 maiores supercomputadores do planeta e, de certa forma em todos os celulares (Android ou iPhone). Ele só não é mais usado em computadores pessoais. Trata-se do Linux. Mas esse é o passo final (pode ser o primeiro se você quiser) na busca por um ambiente digital autônomo e soberano.
Vamos fazer um listinha?
(nem todos são FOSS)
- Navegador Web: Firefox, LibreWolf, Vivaldi
- Programa para gerenciar email: Thunderbird
- Pacote de aplicativos de trabalho: LibreOffice
- Edição gráfica, design: Affinity, Gimp
- Gerenciamento de conhecimento e notas: LogSeq, Obsidian, Joplin
- Faça sua sugestão de categoria de aplicativos
E a narrativa? Bem, só existe controle da narrativa online quando não existe algoritmo, então fica a dica para quem gosta de redes sociais online, o Fediverso, que inclusive funciona quase todo usando FOSS: https://jointhefediverse.net/?lang=pt-br
Ah! Claro, crie seu próprio site e publique lá antes de publicar em mídias sociais ou nem publique em mídias sociais. Um site é a garantia que você continuará existindo, sua voz continuará viva mesmo que a plataforma comercial te apague ou saia do ar.
Clipping
Os links abaixo são uma seleção dos últimos 15 dias. Em Links diários do Meme de Carbono você pode explorar o que achei relevante dia a dia. Hashtags ajudam a buscar tópicos do seu interesse.
- Tokyo Underground Club Turns Its Dancefloor Into a “Reading Rave” #rave #literatura #leitura #livro
- Apple changes full-disk access permissions to curb abuse from AI agents – Ars Technica #AI-Agent #IA-Agentica #IA #segurança
- Brasil se insere na nova era de exploração espacial #ciência #desenvolvimento #exobiologia #astrobiologia #agricultura
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- The next hurdle for AI agents: getting websites to let them in #IA #Agentic-AI #IA-agentica #AI
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- Nobel de Literatura vai para canadense Anne Carson #Literatura #Nobel #Cultura
- Morre Margaret Hamilton, cientista que possibilitou chegada do homem à Lua #Ciência #Lua #Nasa #RIP
- https://riseup.net/pt – Coletivo espanhol que “oferece ferramentas de comunicação on-line para pessoas e grupos trabalhando por mudanças sociais libertadoras.” #ativismo #privacidade #comunicação
- Clone do pacote da Adobe #vibecode #clone #design #engenharia-reversa
- IA generativa que funciona em um pendrive #iagpt #GPT #Autonomia #soberania
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- Análise e manutenção preventiva de sites WordPress: R$250 a hora (uma hora costuma bastar para fazer a profilaxia e manter o site saudável)
- Criação de site (a partir de 1.000 reais incluindo treinamento para ter autonomia)
- Estratégias de marketing em múltiplas mídias como mala direta, redes sociais, site, mídias sociais. Entre em contato para orçarmento
- Segurança, privacidade e autonomia para evitar golpes, roubo de senhas, perdas em caso de roubo de dispositivo, etc.
- Organização do Conhecimento para aplicar no uso de Inteligências Artificiais
- Consultorias, workshops, treinamentos para desenvolver uma visão global da era cibernética e manter-se à frente
Rodapé
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