Imagem: An allegory of Truth and Time – Annibale Carracci – 1585

Esse é um artigo em revisão. Toda colaboração será bem vinda.

A Operação Aletheia, que tirou Luis Inácio da Silva de casa para depor e tem foco em sua instituição e relacionamentos mais próximos tomou conta das TLs e das manchetes.

Meu primeiro impulso era o de ignorar o evento por simplesmente não ver como ele possa ter relevância no quadro geral, mas é claro que ele tem muita relevância imediata. Tem gente chorando de raiva e outros de júbilo.

É como aquela topada que você dá com o dedo mais frágil do pé ou vê uma pessoa odiosa dar: parece ser a coisa mais importante do universo naquele momento, mas pouco tempo depois você nem se lembrará.

“Irrelevante” é um certo exagero meu, é claro; o que quero dizer é que é irrelevante para o quadro em que esperamos que seja relevante:

  • Ela não significa que ninguém mais é intocável no Brasil
  • Não é o marco do combate da corrupção a sério no país
  • Não é o início do fim para o PT (pode ser um recomeço, chegarei a isso, continue lendo)
  • Também não é exatamente inédita pois a estratégia de acusação e pressão vem sendo bem usada nos últimos anos.
  • Também não é uma prova da independência da PF e do MPF.
  • Enfim, não é realmente relevante.

No entanto o episódio deve servir para várias coisas a curto prazo:

  • Pode ajudar a animar as manifestações anti-PT em 13 de março (mas para isso teria que acontecer no máximo dois dias antes) e alimentar o marketing político e alguma especulação na bolsa e câmbios de moedas
  • Se não forem apresentadas provas definitivas contra o ex-presidente pode alimentar sua imagem de mártir favorecendo sua reeleição logo mais (acho MUITO provável, infelizmente)
  • Alimenta o foco em política que temos visto crescer na população desde 2013 (com raízes discretas em 2011)

O que temos que evitar é a euforia. Tanto a que leva alguns a defender o PT, um partido que não está cumprindo seus compromissos com uma abordagem mais à esquerda e portanto não deve agradar nem quem é “da direita” e nem “da esquerda”.

Já falei nisso antes, mas tenho repetido porque é nem todo mundo lê tudo que escrevo: não existe direita e esquerda, mas nós, humanos, abordamos a realidade por um viés de direita ou de esquerda colocando-nos em algum lugar dentro dos dois extremos. Uso direita e esquerda como um tipo de mnemônico.

Continuando… Nem à euforia da vingança contra uma imagem pública que encarna o viés de esquerda o suficiente para atrair a ira de quem se opõe a essa abordagem da realidade.

Tenho visto muita gente lamentar a formação de “times” em torno das duas abordagens com torcidas cegas pela “direita” e pela “esquerda” e esse é mesmo um outro ponto que devemos evitar, pelo menos individualmente.

Meu viés é de esquerda, mas preciso ser capaz de me colocar empaticamente no lugar de quem enxerga o mundo pelo viés de direita para ter uma visão mais equilibrada do mundo e, não, assim como os estereótipos de gênero estão errados (fight like a girl!) você provavelmente também confunde as duas abordagens políticas com seus estereótipos. No entanto esse post não tem como abordar isso a fundo, apenas lembre-se que, se você rejeita a ideia achando-a maligna é porque você não soube se sintonizar com aquele viés.

Essa formação de “times” é universal há quase cem anos. Universal e totalmente ilusória.

O cabo de força não é entre PT e PSDB, entre Democratas e Republicanos. O cabo de força é entre minorias com poder e maiorias exploradas.

Não, esse não é um papo de viés de esquerda, é um fato. Uma sociedade com servos pode ser justa e mais eficiente do que outra em que todos tem direitos iguais. Na verdade a sociedade “de direita” muito provavelmente é mais feliz e pacífica que a “de esquerda”. Além disso uma sociedade “de direita” não precisa ser uma sociedade mais exploradora que outra de esquerda. Aliás temos vastos exemplos de todas as combinações possíveis justamente porque a realidade não é de direita ou de esquerda, ela é um móbile cujas peças se equilibram de acordo com as necessidades mínimas que vão se alterando de acordo com o acesso a informação que é o ponto chave de tudo:

A civilização humana é conduzida pelo fio da expansão do acesso e fluxo a informação e, periodicamente, é necessário uma reestruturação para que todos tenham acesso às informações mínimas necessárias para viver. Agora estamos entrando na era da leitura e do audio-visual full-duplex, ou seja, todos devem poder consumir e produzir conteúdo.

Espero que esse texto não esteja hermético, estou sintetizando muitas ideias em poucas linhas. Tenham fé (hehehehe) pois haverá mais artigos explicando o que está obscuro!

Dentro desse quadro da disputa pelo acesso aos meios de consumo e produção de informação (conhecimento, cultura, memes) é irrelevante que partido está no poder. Todos eles tem trabalhado para os mesmos grupos de interesse e vem sendo pressionados a dar mais ouvidos a essa massa auto-organizada chamada população, que se comporta como torcedores em um estádio, mas define pelos votos e outros meios quem poderá brincar com as bolas.

É por isso que a Alethéia é irrelevante. Ela é um movimento de peões enquanto, em outro tabuleiro, Reis, Rainhas, Bispos, Cavalos e Torres fazem seus movimentos em disputas de poder entre empresas que produzem átomos (combustível, banda de dados) e bits (protocolos, serviços). Esse é o grande palco da transição da civilização industrial para a digital (e, por favor, não seja uma pessoa binária que se apressa a dizer que a indústria continuará porque precisamos de átomos para fazer o fluxo de bits, é claro que ela continua, mas perde o protagonismo da história).

Acho essencial termos sempre em mente que o cenário político e midiático é o tabuleiro dos peões. Mesmo quando líderes de grandes corporações são criminalmente implicados, mas sem mudar a estrutura do jogo.

Também não podemos ignorar a importância dos peões. É possível ganhar ou perder um jogo de xadrez por um único peão.

Há uma série de perguntas que podemos fazer observando esse tabuleiro.

  • Faz sentido que a operação Alethéia seja uma estratégia de marketing para engrossar os protestos de 13 de março?
  • Esses protestos favorecem a oposição ou o PT?  Nas últimas eleições a associação a grupos radicais “de direita” já pode ter custado a eleição da oposição
  • Por que o PT não consegue exercer controle sobre as investigações implicando políticos de outros partidos?
  • Por que políticos que colecionam muito mais denúncias e provas contra eles continuam fora dos holofotes?
  • A mídia golpista e teorias da conspiração não parecem ser hipóteses razoáveis, então o que provoca a morosidade da mídia? Pode ser uma auto-censura por receio de se perder a governabilidade do país, por exemplo?

É… 2016 será um ano interessante, mas o século XXI certamente será muito mais desafiador e fascinante do que o XX, então é natural que cada ano se torne mais complexo que o anterior.

Depois de escrever esse post apareceu o vídeo abaixo do Bemvindo Sequeira com ideias bem parecidas:

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