O mito da Internet Morta

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Sim. Mito.

Não estou sendo leviano ou ingênuo. Em 2010 já falavam no fim da Web (que é a Internet que estão dizendo que está morta: o fluxo de bytes por IAs agênticas na Web é maior do que o fluxo por pessoas. Volto a isso mais adiante) para os apps. Na ocasião escrevi Web X o tornado dos aplicativos móveis, que posso resumir assim:

Web é um território de livre expressão e compartilhamento humano. Ao falhar em submetê-la ao funcionamento do Mercado, cria-se uma outra Internet, a dos apps, onde o conteúdo, a navegação e tudo mais pode ser controlado.

Isso há 15 anos. Eu mesmo não tinha pensado nos riscos dos algoritmos e na extensão que essa “outra Internet” atingiria. O que fiz foi aplicar uma estratégia de análise memética nas tendências de comportamento. E isso funciona muito bem.

Na época sugeri que a vitória dos apps na verdade era o fracasso da tentativa de submeter a Web, que continuou povoada por pessoas, ideias e interações livres.

O que não previ na época foi a quantidade de pessoas e instituições que seriam absorvidas pela “outra Internet”, que tenho chamado de pequena Internet em contraste com a Grande Internet porque a parte algorítmica da Internet é pequena em conteúdo e diversidade. Em geral as pessoas tem falado o contrário chamando a Internet humana de pequena (small web) pelo seu caráter mais intimista, próximo.

É muito ruim que tanta gente esteja presa na Internet das mídias sociais (rede social é outra história), mas nem a Internet, nem a Web estão mortas ou morrendo. Pelo contrário! Da mesma forma que não morreram e reagiram nos últimos 15 anos, continuam a florescer.

Quem não está percebendo isso é porque está ficando para trás, para citar o chavão do momento, quase sempre antes de uma declaração falaciosa: Não fique para trás! (inclusive preciso fazer um post sobre isso… me cobrem)

Mas vamos organizar direito as ideias, certo?

O que é, de fato, Internet Morta?

A ideia de Internet morta não tem a ver com o tráfego da Web, que é o alerta da semana por causa do relatório da Cloudflare apontando que mais de metade do tráfego da Web é feito por IAs agênticas (que já andei explicando no post sobre a do Alibaba).

Isso é um problema para sites, como esse aqui, que tem mais visitas de IAs que vem roubar meu conteúdo (apesar de eu instruir que não façam isso) do que de pessoas. Felizmente não tenho limitações de tráfego, mas é um problema sério para sites muito grandes, mas Internet Morta é outra coisa.

Quando a maior parte do conteúdo que acessamos foi gerado por IAs e controlado por algoritmos. Começou como uma teoria da conspiração em 2021.

De fato, na maioria das mídias sociais a quantidade de conteúdo produzido por IA já é tão grande que se torna exaustivo analisar cada publicação em uma fração de segundo para decidir o como observá-la. O mesmo acontece com muitos jornais, grande parte das propagandas e em diversas regiões comerciais da Web.

Já nas redes sociais o conteúdo feito por IA geralmente é proibido ou precisa ser expressamente identificado. Por redes sociais me refiro ao Fediverso, que é a única rede social de fato atualmente. É onde mais transito e na prática lá só existe Internet Viva.

Dizer que a Web está morta porque a maior parte do tráfego é feito por agendes de IA e por IAs roubando conteúdo de sites é o mesmo que dizer que não tem ninguém na rua porque tem mais folhas caindo das árvores no outono. As pessoas estão lá e é fácil vê-las. No caso da pequena Internet é difícil, mas ela é mesmo uma região cada vez mais morta, como uma avenida coberta de manequins e outdoors luminosos.

Refazendo as previsões 15 anos depois

Vou resgatar um trecho de 2010:

Assim como as corporações nos transformaram em pilhas da sociedade de produção e consumo de átomos a consciência coletiva nos transformará em CPUs que replicam, criam e transformam informação.

Esse é o estado atual, na minha opinião, da Internet morta a que nos expomos nas mídias sociais: vemos conteúdo de estranhos ou de IAs, qualificamos, classificamos, propagamos, participamos da perfilização que contribui para polarizar e desinformar a sociedade. Produzimos algum conteúdo também, mas ele é observado mais por robôs do que por pessoas e, quando chegam a pessoas, a maioria são desconhecidas e continuarão sendo. Motivo pelo qual, inclusive, mídias sociais não deviam ser chamadas de redes sociais.

Vamos invocar novamente o “não fique para trás” que leva muita gente a permanecer nas mídias sociais sem perceber que é isso que as está deixando para trás, é isso que está causando grande parte da sua ansiedade, falta de tempo, solidão, falta de perspectiva de futuro, pessimismo.

A Meta já sentiu que está perdendo almas e, já há tempos, evita divulgar a adesão a cada plataforma dela reunindo tudo em um grande “ecossistema Meta”.

Não se trata de migração para outras mídias sociais, mas simplesmente um grande afastamento do convívio online. Apenas poucas pessoas tem ido para o Fediverso, o que considero saudável por não achar que o convívio online seja uma prática positiva ou necessária para a maioria das pessoas.

A nova fronteira do sequestro de almas é a sedução das IAs generativas, que são vendidas como assistentes, parceiras, companheiras, amigas… e só piora.

Desde 2023 alerto para os problemas inerentes ao modelo GPT, sendo os dois principais que IAs não podem estar sob controle corporativo (e precisam ser opensource) e que o modelo é incapaz de ser inteligente de fato.

Nesse momento já vemos sites, jornais e produtores de conteúdo destacando que não usam IAs generativas, outros incluem páginas descrevendo como usam IAs e que restrições impõe ao uso delas. Não são apenas uns estranhos excêntricos.

Continuam existindo webrings, blogagens coletivas, RSS, IndieWeb, redes sociais de fato, movimentos de selfhosting, países (principalmente na Europa, mas não só) buscam cada vez mais por soberania e autonomia cibernéticas escapando às garras das bigtechs (que prefiro chamar de mega corporações cibernéticas, que nos remete muito melhor ao estado ciberpunk em que vivemos).

Talvez possamos dizer, como eu já disse em 2010: quanto mais matam a Web ou a Internet, mais surgem reações a isso. Está na natureza humana tanto quanto os dispositivos de ataque e fuga. Humanos *precisam* exercitar a mente criando, interpretando, resumindo, ressignificando coisas. As “criações” dos algoritmos são planas, limitadas, pasteurizadas e não produzem estímulo suficiente.

Claro que as mídias conhecem cada vez melhor as fraquezas das nossas mentes e tem usado isso muito bem para sequestrar almas e continuará sequestrando muitas, mas… você vai entregar a sua só porque muitas pessoas estão entregando? Percebe que se entregar é ficar para trás junto com todos os outros?

“Ficar para trás” é tão usado por um motivo: as mídias sabem que esse é um dos medos mais fortes e fáceis de explorar no momento, mas agora você sabe que o que elas tentam vender como “estar à frente”, na verdade, é justamente ficar para trás…

Conclusão

A web não está morta, a Internet não está morta. Elas estão à distância de dois cliques. Com mais meia dúzia de cliques e umas duas horas do seu tempo você pode construir o seu próprio jardim cibernético e fazer parte da Internet Viva. Só depende de você… vai ficar para trás?

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Foto de Miguel Pinto na Unsplash

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