Esse é um site sobre cibercultura e, de acordo com o senso comum, fala-se das empresas, que estão à frente das novidades. Vivi isso por décadas até 2010, mais ou menos. Todos esperavam ansiosos as novidades da Microsoft, que anda menos pop, já notou? Agora os Google IO e WWDCs (da Apple) movimentam mais a mídia, mas, olhando para o passado aqui desse blog, vê-se que raramente comento esses eventos, se é que comentei alguma vez! E não é por causa das práticas de vaporware da Microsoft, que a Apple pelo jeito vem adotando com a Apple Intelligence.
O fato é que, para mim, cibercultura é o que você e eu fazemos com as cosias que as corporações cibernéticas colocam à nossa frente.
Um exemplo bom é o reconhecimento de voz, os comandos de voz, os assistentes de voz que já foram o grande hype, lembro até de uma propaganda em que crianças jogavam um celular para o alto e outra, lá em cima, pedia uma pizza quando ele chegava perto dela. Era uma propaganda da Google/Alphabet (ainda não era Alphabet na época se não me engano).
Agora me diga: comando de voz é uma das coisas principais que você usa no seu dia a dia? Que as pessoas usam? Eu praticamente só uso para ativar alarme para não queimar comida. Não é que ninguém use, mas com certeza é muito mais presente na vida das pessoas a rolagem das mídias sociais, as formas como elas enchem suas cabeças… ou menor, como as mídias sociais definem os conteúdos que vão encher as cabeças das pessoas.
Ou seja: Por mais legal que pareça a gente poder escrever ou falar para uma IA “Trace uma roda para chegar na casa de fulando passando pelos Arcos da Lapa” (como em um dos exemplos mostrados no WWDC 26), será que a gente vai usar ou será que vamos só abrir o app de mapas e fazer manualmente simplesmente “porque sim”? Ou mesmo que usemos a IA para várias coisas, será que serão essas coisas que vão definir as nossas experiências cibernéticas diárias?
O que realmente me importa é como a civilização cibernética nos impacta e como podemos ter algum controle sobre esse impacto. E o marketing das corporações cibernéticas tem outros objetivos.
RoneyB – jun/2026
Mas… vou comentar o WWDC!
O que mais me chamou a atenção positivamente:
A Apple continua mostrando preocupação com privacidade e segurança. Não estou dizendo para confiar nela, nem que é uma missão espiritual dela, e sim que é um dos princípios da estratégia de posicionamento de mercado dela. Em um mundo que nos vigia cada vez mais, em que o dono da Oracle/TikTok/Paramount diz que o fim da privacidade trará submissão, digo, ordem; que a Meta coloca identificação facial em seus óculos sem avisar, que o Google… Bem, a base do negócio da Meta e da Alphabet é vender a sua privacidade. Dispensa comentários.
A Apple se coloca como a única empresa que navega contra essa corrente e isso tem algum valor para o zeitgeist. Mas vale lembrar que não é por nada que ela não pode habilitar a Apple Intelligence na China e na União Europeia ainda.
Onde mais vemos essa estratégia de marketing é na abordagem da proteção das crianças e adolescentes, deixando para os pais a tarefa de definir as contas dos filhos no ecossistema Apple de acordo com a idade e o que consideram que os filhos e filhas podem fazer. A maioria das empresas fala orgulhosamente em confirmação de identidade para definir quem é e não é criança. Isso quer dizer que a Apple não fará isso? Não! Ela certamente fará, mas procura se afastar desse discurso.
Nós precisamos de alguma tração no valor da privacidade e da segurança que venha de “Big Techs” (que prefiro chamar de mega corporações cibernéticas)”
Acabou, só isso me chamou a atenção positivamente! Ah! Tá! A insistência em dizer que tudo no Apple Intelligence roda localmente ou, quando vai para a nuvem fica protegido até dos olhos da própria Apple também é legalzinho.
A tal Apple Intelligence
Talvez você tenha notado que a tal Apple Intelligence fica sendo adiada fazendo muita gente pensar que a empresa entrou na onda do vaporware tão praticado pela Microsoft em décadas passadas: a empresa promete recursos maravilhosos para desestimular a migração para concorrentes.
No caso da Apple suspeito de outra razão: O “Mercado” está indo com tudo nas IAs como a nova “A Coisa” que revolucionará o mundo, mas receia que essa revolução não aconteça, que não tenha como cumprir as principais promessas e vem adiando para evitar que a bomba exploda também nas suas mãos.
Dito isso, me parece que os anúncios das capacidades da Apple Intelligence são até modestos:
- Extrair datas de um flyer digital e colocar na agenda. Afinal a pequena Internet das mídias sociais digitais não tem links, não tem textos. É uma Internet que parece duas décadas, então isso até faz sentido. Capturar a tela do celular para extrair o conteúdo que devia estar no post. Em 2010 existia uma coisa chamada Web Semântica, que ainda existe na Grande Internet, a que está livre das mega corporações cibernéticas, mas basta de ativismo pela Internet Livre;
- Mudar a perspectiva das fotos é até simpático, mas é um uso discreto e cauteloso, assim como remover objetos das fotos ou expandir as bordas;
- Indexar todas as nossas informações espalhadas por chats, emails, documentos, programas de produtividade etc… bem, por mais que eles praticamente gritem “NEM A APPLE VÊ! FICA TUDO CRIPTOGRAFADO NA NOSSA NUVEM” dá um certo medo. Além disso, leia com carinho: a gente ganha muito mais desenvolvimento o hábito de organizar o nosso conhecimento em vez de indexá-lo externamente e sem a nossa gerência;
- Meio que é só isso mesmo…
Mesmo que você discorde e goste das propostas fica uma sensação desagradável de que não será exatamente como mostrado, que escolheram exemplos perfeitos em um ambiente controlado e que, no dia a dia, vamos acabar descobrindo que não atende as nossas necessidades, que falha, que soa estranho, que não acha os dados mais importantes…
Resumindo
Tenho falado em seis áreas que devemos dominar para viver na era cibernética: Redes e Mídias sociais, IA, Marketing, Autonomia e Soberania digitais, mas gerenciamento de informações e privacidade/ segurança são os primeiros passos e estão mais ameaçadas.
Se, por um lado, a Apple insiste em destacar a privacidade e segurança das suas novidades, por outro não nos apresenta suas ferramentas como instrumentos para desenvolvermos a nossa capacidade de conhecer, filtrar e organizar o fluxo de estímulos, informações e conhecimentos que se impõe a nós e acaba por nos prometer, como a maior parte da indústria de IA, ceder justo as funções que são mais importantes para que tenhamos autonomia e soberania na era do conhecimento.
Espero que, a privacidade, pelo menos, ela realmente esteja empenhada em nos proporcionar. Não ponho a minha mão no fogo.
Imagem
Foto de Tim Mossholder na Unsplash


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