Todo humano (e provavelmente outros seres também) é uma constelação mais ou menos incomensurável de características, mas por motivos que não vou tentar desvendar agora temos a tendência de reduzir as pessoas a uma ou outra qualidade.

A pessoa é criminosa, matou, furtou ou assaltou então está a um passo de ser um demônio sem alma que merece sofrer os piores castigos, afinal não é humano.

A pessoa escreve muito bem, é boa atriz ou esportista e pronto: trata-se de uma divindade acima dos humanos e tem obrigação de ser um exemplo para o mundo.

Estou falando nisso por causa do nadador Michael Phelps que teria sido fotografado fumando maconha.

Como ele é ídolo de crianças e uma celebridade está sendo punido exemplarmente sendo proibido de competir por três meses e vendo seu principal contrato publicitário ser cancelado.

O contrato publicitário é compreensível afinal várias grandes empresas usam trabalho escravo infantil ou promove genocídeos, mas não querem sua imagem associada a alguém que fuma maconha.

Não concordo entretanto com essa punição exemplar do nadador que se droga.

O cara é especial porque nada rápido!

Phelps não é político, juiz, padre ou monge. Tudo que ele precisa fazer, e faz bem pacas, é nadar rápido!

Ele pode cuspir no chão, apertar bunda de mulher vestida de coelhinha, contar piada sem graça, ser burro, ingrato, ateu ou fanático religioso, nada disso interfere naquilo em que ele é bom: nadar.

Isso não quer dizer que o cara não possa ser um sujeito fantástico! Ele pode! Talvez seja, mas não por nadar rápido, escrever bem, cantar bem, dançar bem, ser bonito ou inteligente.

  • Maiakovsky se matou e nem por isso seus poemas são piores;
  • Kierkergaard era totalmente desajustado sexualmente (morreu virgem à propósito) mas foi um filósofo brilhante
  • O sujeito que inventou a técnica de compressão de arquivos (o zip) que usamos até hoje (e lá se vão mais de duas décadas) morreu em um quarto imundo mergulhado em depressão
  • Alguns grandes artistas, cientistas e pensadores eram fascistas a favor do extermínio de negros ou judeus
  • Algumas das personalidades mais simpáticas e brilhantes do nosso tempo são acusadas de serem cientologistas (e por algum motivo isso é muito ruim)

Em nossa busca por modelos, depois que os antigos mitos religiosos se tornaram obsoletos, acabamos por reduzir as pessoas a um subconjunto das suas características endeusando-as ou demonizando-as. Voltamos lá à “coisificação” da moça que se vestiu de coelhinha.

Eu pergunto: porque se espera que alguém que nada rápido seja um modelo para crianças?

O fato é que não sabemos o que faz de alguém um bom modelo. Está na hora de saber.

Pense um pouco. O que faz de uma pessoa um bom modelo?

Pois eu tenho uma resposta formada desde o dia, há alguns anos, que uma amiga condenou Rodrigo Santoro por ter feito um filme que ela achou imperialista.

Nada faz de alguém um bom modelo.

Todo humano tem direito de viver sem o peso de ser modelo para os outros.

Podemos falar em exemplos de determinação, de abnegação ou de ativismo social, mas um modelo é algo que deveria permanecer sempre no universo do pensamento platônico. Podem até ser Deuses, santos ou anjos. Melhor assim do que conferir dons divinos à próxima celebridade arrancada de dentro do Myspace.

Estamos à beira de uma nova forma de sociedade cultivada entre as redes sociais da cibercultura onde o tempo já não faz mais sentido e os 15 minutos de fama de Warhol se transoformaram em 15000MB de existência online em que todos podemos ser exemplos uns para os outros e que sejamos exemplos mais vivos e vistos de forma mais integral do que a celebridade afônica e esquartejada entre as notas rápidas de jornais e revistas de fofoca.

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