Recebi por email e não achei no site (linkado logo abaixo do título.

Tenho alguns tópicos a pontuar na ordem de aparecimento no texto.

A religião no segundo plano dos enfrentamentos políticos e econômicos talvez possa ser vista como a desculpa do estranhamento cultural, um artifício usado para justificar os confrontos e não uma fonte real de conflito. Somos muito vulneráveis ao pensamento religioso e ele pode ser usado tanto para nos unir quanto para nos separar. Ainda que consideremos que a religião é um anacronismo que devíamos deixar para trás dificilmente ela ocupa de fato um espaço no protagonismo do que estamos testemunhando.

Cinquenta milênios é uma boa escolha. Realmente temos hoje boas evidências que a nossa espécie, que existe há 200 mil anos, passou por uma revolução cognitiva entre 70 e 30 mil anos atrás, todavia também temos boas evidências de que sempre fomos mais violentos que hoje, nossos primos primatas são tão ou mais violentos que nós. Sobre a redução da violência recomenda-se a leitura de Os Anjos Bons da Nossa Natureza, de Steven Pinker ou sua fala no TED:

O que não quer dizer que a violência não seja um problema, mas é importante notarmos que o que está aumentando é nossa intolerância a ela, nossa rejeição aos conflitos por diferenças culturais. Algo que, alguns consideram, é um dos efeitos da aproximação entre culturas promovida pela imersão na Internet.

Acho cedo para falar em primavera latino-americana. Usamos recentemente “primavera” para movimentos que partiram da população interferindo na estrutura de poder e o que vemos hoje parecem mais articulações do sistema político reagindo preventivamente depois das mobilizações populares de 2013. E os avanços sociais citados no texto podem inclusive ser vistos como um movimento natural do nosso século, independente dos governos de viés de direita ou de esquerda. Sobre isso é interessante ver os dados estatísticos de Hans Rosling.

A debilidade da esquerda realmente abriu espaço para direita. Manuel Castells detectou isso brilhantemente em Redes de Indignação e Esperança (agosto 2013) mostrando que veríamos não uma vitória da direita, mas um fracasso da esquerda em se colocar ao lado do desejo de mudança da população com viés de esqeurda que passa a se revoltar com o sistema abandonando as urnas abrindo espaço para a parcela da população com viés de direita. Tenho defendido a hipótese de um retorno a governos mais à esquerda nas eleições seguintes.

Sobre a dicotomia entre direita e esquerda e a dita polarização da sociedade há bons motivos para considerar que ela é uma ilusão midiática. Temos sim, um grande hiato nas sociedades modernas, mas a polarização real pode ser entre os que tem e não tem voz e os que tem e não tem acesso aos recursos do capitalismo. Claro que parece ser uma divisão entre direita e esquerda, mas pode não ser bem assim. Guardei pelo menos um artigo sobre isso no clipping.

Muito bom do Gigante em Chamas em diante.

Avalanche de ódio

Orlando Senna – Blog Refletor

Uma nova modalidade de guerra, que antepõe o clássico embate entre exércitos a ações mortíferas e aterrorizantes de pessoas ou pequenos grupos que matam civis (onde se inclui homens-bombas, carros-bombas, casas-bombas), está convulsionando o mundo. Uma modalidade com poder de destruir alvos em qualquer lugar dos Estados Unidos (11 de setembro) e da Europa (je suis Bruxelles, je suis Paris, je suis Madrid). O ingrediente mais forte é a religião, é a “guerra entre civilizações”, situação negada até pouco tempo por muita gente e que agora se mostra como uma pavorosa realidade.

Alguns ingredientes das guerras tradicionais estão presentes, como petróleo, território, indústria bélica, mas em segundo plano, já que o epicentro do conflito é a cultura, é o fosso filosófico e comportamental entre Ocidente e Oriente jamais solucionado, um cânion que divide a humanidade — apesar de Jesus Cristo, que construiu uma ponte mas sabia que ela não ia funcionar, “não vim trazer paz à Terra, mas a espada, a divisão”. Vivemos um tempo em que valores ditos universais perdem o sentido, conceitos se invertem, palavras passam a significar o que antes era seu contrário, em que “epicentro” deixa de ter conotação espacial para ser temporal. O que me lembra Jorge Luis Borges, para quem os verdadeiros labirintos são no tempo.

Enfim, a sanha homicida/suicida do ser humano está alcançando um dos níveis mais altos em sua história de, pelo menos, 50 milênios. E a isso se soma (ou tem a ver, quem sabe) com os espasmos geológicos, as mudanças e ajustes do planeta que se aquece enquanto voa em direção a uma nova era glacial. Um cenário apocalíptico. No momento a guerra acontece nos Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e alguns pontos da África.

Primavera latino-americana

A América Latina não foi alcançada diretamente por essa guerra mas está imersa no cenário dantesco da atualidade, principalmente pelo que está ocorrendo no Brasil, nona economia do mundo, maior economia e maior país da região. A partir do ano 2000 a América Latina conheceu um fluxo de renovação e progresso humano intenso, com a inclusão social de milhões de pessoas, com políticas públicas focadas na elevação da qualidade de vida das populações carentes, com uma inédita expansão cultural.

Mas a dicotomia direita/esquerda foi também se elevando pouco a pouco até chegar a um grau de bestialidade. Por ações externas, como pressões econômicas e a mídia internacionalizada, e também por debilidades de governos de esquerda que comandavam essa primavera latino-americana, a direita avançou como um tufão. Uruguai e Bolívia resistem, mas um golpe derrubou Fernando Lugo no Paraguai, o kirchnerismo perdeu o governo da Argentina, o bolivarismo perde terreno na Venezuela e Equador e o Brasil sofre sua mais grave crise política desde o golpe de 1964.

Gigante em chamas

Os poderes constitucionais brasileiros travam uma batalha sem tréguas. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário já não conformam os três pilares que, harmonicamente, sustentam a democracia. O Executivo fragilizado, sitiado e perdendo popularidade progressivamente. O Legislativo com apetite por golpes de estado. Muitos políticos, de todos os partidos, envolvidos com a homérica corrupção que também incide (e destrói por dentro) nas maiores empresas nacionais. A classe média ocupa as ruas, aos milhões, pedindo o fim do governo do Partido dos Trabalhadores e do lulismo e com palavras-de-ordem conservadoras, muitas de extrema direita. O Judiciário, que era a esperança dos brasileiros no início da crise, porque podia acabar com a corrupção que está na raiz da conflagração, desandou com juízes vinculados a partidos dando ou negando liminares, com juízes agindo contra as leis, com ministros do Supremo Tribunal denunciando juízes de instâncias inferiores que não seguem a Constituição.

O mais triste de tudo é que o ódio, esse sentimento condenado nos livros sagrados de todas as religiões e que pontifica na guerra cultural que estremece o hemisfério norte, é o componente mais ativo na conflagração brasileira. Os posicionamentos políticos dividem famílias, transforma amigos em inimigos em um piscar de olhos, irmão deixa de ser irmão, casais se separam porque não comungam as mesmas ideologias.

E tudo com muita raiva, logo no Brasil que sempre se quis ver como um país cordial, amistoso e alegre. E que assim ainda é visto por pessoas que não estão testemunhando, in loco, o que está acontecendo ao redor do Cristo Redentor. Vamos cantar uma canção de Nelson Ned: “tudo passa, tudo passará”. Ou, talvez, sem pessimismo ou otimismo, lembrar de um sucesso de Doris Day em um filme de Hitchcock: “que será, será, whatever will be, will be”.

Por Orlando Senna

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