No Sete de Setembro de 2021 Bolsonaro faz um discurso direto e claramente agressivo a um dos pilares da democracia brasileira: o STF. Diz claramente que não acatará nenhuma determinação que parta de Alexandre de Moraes.

Menos de dois dias depois ele publica um “Manifesto de pacificação” (guardei também no clipping) orientado pelo (extremamente impopular) ex-presidente Temer.

É mais um evento de “promove caos e volta atrás” entre incontáveis outros e normalmente comento apenas o quadro geral pois é o que a minha abordagem memética permite além desses eventos serem mais fontes de distração pouco úteis para entender o que acontece.

Entretanto percebi que pode servir para fazer algumas considerações mais amplas e creio que nunca falei desses fenômenos aqui.

Se você não acompanha este blog pode ser útil (mas não essencial) ler o post em que defendo a hipótese de que governos como o de Bolsonaro se aproveitam de ondas de dissociação da realidade que os precedem e continuarão depois deles.

Algo em torno de 20 a 30% da população tem oscilado facilmente aos ventos do discurso de matriz fascista (que aterroriza com supostas ameaças externas, quebra de costumes, medo do diferente etc.), mas são diversos grupos sensíveis a medos diferentes, ou seja, alguns terão medo do comunismo, outros do diabo, de Deus da perda de liberdade etc.

Quem surfa essa onda acaba obrigado a trabalhar no caos de uma infinidade de tribos que muitas vezes não se comunicam. Não que esses “surfistas” não gostem de navegar no caos, mas é um caminho impreciso e que, inevitavelmente, mergulha cada vez mais no caos.

Quanto mais tempo um governo se desconecta de qualquer tipo de ideologia puxando a corda de um sino aqui, de outro ali, atiçando quem quer a ditadura militar, quem quer uma ditadura da elite do povo (e todos os segmentos precisam da ilusão de que são parte da elite para isso funcionar minimamente), quem quer uma teocracia (mas mesmo grupos cristãos tem dificuldade em encontrar pontos e comum), quer a supremacia brasileira, a submissão do Brasil a um modelo cultural estadunidense… Mais grupos ele contrariará, ou melhor, mais indivíduos desses grupos se sentirão traídos ou ficarão desconfiados.

Bolsonaro parece navegar bem o caos, mas só que não… O caos o navega na verdade. Ele se comporta como um menor assaltante nas ruas, aqueles que tentam intimidar pela agressividade, mas se retraem se enfrentados (eles pelo menos tem justificativas) e não tem coerência em seu discurso.

Isso não quer dizer que ele perderá eleitores agora porque seitas tem um caráter desesperado e os seguidores não deixam um mito enquanto não encontram outro (não caia na tolice de comparar com a admiração por Lula, que não tem caracteristicamente o fator “seita” ou desespero), mas quer dizer que a torre de Babel começa a desmoronar, grupos que nunca chegaram realmente a comungar de fato se afastam cada vez mais dificultando a comunicação com eles mesmo dispondo da segmentação por redes subterrâneas estabelecidas nos WhatsApp e redes sociais alternativas da vida online.

E como navegar esse caos uma vez que a população está vulnerável a ele? Quem se aproveitará do possível colapso de Bolsonaro? Como Bolsonaro pode voltar a “organizar” o caos a seu favor?

Se eu sei não vou dizer 😉 Ora! Não concordo com o terrorismo, obviamente, e não vou ajudar.

O que tenho a dizer é à oposição: fortaleça as instituições que equalizam os poderes (STF, STE etc) e, acima de tudo, busque a razão, busque uma abordagem científica que se baseie em fatos e que possa ser validada não por nossas convicções, mas pelo conhecimento histórico, geopolítico e pela lógica. A ciência é o instrumento da dissolução do caos e é tão poderosa que prevaleceu mesmo quando praticamente toda a humanidade era assombrada por demônios nos séculos passados.

Observação: este post está na sessão gotas, que normalmente é para comentários breves sobre algum conteúdo online, hoje quebrei o padrão, mas porque queria fazer apenas esses comentários sem maior aprofundamento.

Conteúdo útil

Fala do ministro Barroso, do STE:

Fala completa do ministro Barroso rebatendo acusações à Justiça Eleitoral

Pronunciamento do presidente do STF, Luiz Fux:

Luiz Fux faz pronunciamento após ameaças de Bolsonaro ao STF em atos de 7 de Setembro

Imagem: Torre de Babel por Pieter Bruegel – Wikipedia

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