O título acima e o texto a seguir são de uma conhecida. As pessoas estão com receio de se expor, e com alguma razão, mas eu já estou exposto de qualquer forma, então me ofereci para guardar e replicar relatos vividos hoje ou no passado.

Acho que o ano era 1984. O Brasil vivia a agonia da ditadura, já pelas ruas se ouvia a voz cada vez mais alta bradando “Diretas já!”. Eu estava na faculdade de Biologia, lá pela metade do curso. Portanto, sou velha o suficiente para me lembrar. E eu me lembro bem.

Lembro de ter crescido com pais, tios, amigos da família dizendo para se ter cuidado com o que se falava na rua. Lembro que só os mais próximos eram realmente confiáveis. Lembro de ter medo. Lembro de ter colegas de curso com parentes fugidos para o Uruguai. Lembro que na faculdade tínhamos o centro dos estudantes com uma espécie de “despensa” escura e trancada, lugar sujo cujo apelido maldoso era DOI-CODI (pesquise pra descobrir a relação desse lugar com o Ustra).

Também lembro de ter nascido apressada (antes dos nove meses) e rebelde. Minha família quase inteira era esquerdista (pra você que acha que essa palavra me ofende, ela apenas diz que acreditávamos na igualdade e na liberdade de expressão e em direitos humanos) e eu sou feminista desde que me lembro de existir. Mas essa é uma outra história.

Pois bem, lá por 1984 a população em peso clamava por eleições diretas. Foi organizada uma passeata em Porto Alegre, e a notícia se espalhava boca a boca e nos murais das faculdades. Junto com meus colegas saímos da Sarmento Leite, sede do curso na época, e fomos indo, já em passeata, em direção ao centro. Algumas pessoas iam se juntando à manifestação pelo caminho, engrossando a cobra de gente que serpenteava pelas ruas. Gente que trabalhava no centro da cidade, que estava por ali passeando, gente, enfim. Não posso afirmar com certeza, mas acho que precisávamos de autorização para fazer uma manifestação. Isso, no entanto, não importava. Éramos jovens e a chama da justiça, da liberdade e da democracia corria quente sobre a nossa pele, dentro das nossas veias.

Gritando slogans pelas eleições diretas, fomos descendo a Rua da Praia (que não tem praia nenhuma, o nome oficial é Rua dos Andradas), em direção à Praça da Alfândega, aquela onde acontece a famosa Feira do Livro de Porto Alegre. Lembro de ir ao lado de um colega, inventávamos slogans na hora, que rapidamente se espalhavam pela multidão. Seguíamos pela rua, nos aproximando da Rua da Ladeira (essa é uma ladeira mesmo, mas o nome é Rua Gen. Câmara), quando uma tropa da cavalaria da Brigada Militar nos barra o caminho. Os cavalos, nervosos com a multidão, vinham pela frente e pelas ruas laterais. Estávamos cercados, e eles chegaram batendo os cassetetes na multidão. Multidão que não era de ladrões, de delinquentes, éramos o povo e estudantes. Mas eles vieram com tudo, sem perguntas, sem explicações. Rapidamente a multidão se dispersou e eu corri subindo a Rua da Ladeira, sem fôlego. Outras pessoas subiram a rua também, mas seguiram adiante, os cavalos começando a subir atrás. Eu, apavorada, entrei numa barbearia daquelas bem antigas e tradicionais, cujas poltronas nunca foram trocadas e onde os clientes, bem velhos, se reúnem mais para conversar do que para cortar o cabelo ou fazer a barba. Eu devia estar com uma cara aterrorizada, pois os velhinhos logo perceberam a confusão do lado de fora. Um deles me chamou para o lado da cadeira dele, estendendo aquele avental branco enorme, que se prende no pescoço e que mais parece um lençol. Agachei ao lado dele, tremendo, e ele me cobriu com o seu “lençol”. Passou a cavalaria, que olhou, mas não me viu. Depois, um soldado a pé, que abriu a porta e logo saiu, já que, na visão dele, os clientes não eram ameaçadores.

Ainda fiquei um tempo ali, agachada e coberta pelo avental, até eles me avisarem que não tinha mais movimento suspeito na rua, a barbearia toda num silêncio incomum. Levantei, olhos arregalados para os velhinhos e agradeci um “muito obrigada” que mal saiu da minha garganta. Olhos agora cheios d’água, saí correndo pela Andrade Neves até meu ponto de ônibus, que ficava na Borges de Medeiros e fui pra casa, ainda estremecendo.

No outro dia, na faculdade, perguntei pelos colegas. Alguns tinham sido presos, fichados, tinham apanhado, passado a noite na delegacia e soltos no dia seguinte, apenas por terem participado de uma manifestação pela democracia.

Se você acha que isso é motivo para apanhar e ir preso, que não é coisa de “gente de bem” lembre-se que agora você pode se manifestar e até pedir pela volta da ditadura porque estamos numa democracia. Eu torço pra que eu, você, seus filhos, todo mundo, continuemos tendo a liberdade de nos manifestarmos, mesmo que as nossas ideias não sejam as mesmas.

E a cada dia me lembro mais daqueles velhinhos-anjos da barbearia, que com suas asas de lençol me abrigaram e me protegeram para que eu não fosse pega e apanhasse, e que me ensinaram que não existe “gente de bem”, existe “gente DO bem”, gente humana acima de tudo, do jeito que a gente deveria tentar ser todo dia.

*A barbearia ainda existe, aí a foto dela no Google Street. Nem nome tem.

Roseli Dornelles – Facebook

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