Contextualizando.

O artigo é de 2015, mas em fevereiro de 2017 ecoou pela Rede o debate sobre o uso do turbante por pessoas não negras e seu significado no esvaziamento da causa do orgulho negro, do empoderamento da etnia negra.

O assunto não é trivial e não deve ser levianamente rebatido sem reflexão pois é justamente esse o mecanismo da opressão: sou parte dos privilegiados e não vou gastar um segundo do meu tempo refletindo sobre os símbolos que os oprimidos querem reivindicar para si.

As reflexões servem para qualquer tipo de grupo buscando defender ou construir uma identidade cultural.

E, não, uma civilização global não é uma civilização onde todas as culturas são de todo mundo (isso é assunto para um post inteiro) e sim uma civilização onde a diversidade de identidades culturais e sua multiplicação são respeitadas e até comemoradas.

A história do uso do turbante nesse artigo demonstra, por exemplo, que ele foi em si uma apropriação de outras culturas e usado para demonstrar a superioridade de uns negros (com turbante e “embranquecidos”) a outros.

No entanto, desde a década de 60 do século passado realmente cresceu nos EUA a apropriação deles como símbolo de identidade étnica (os turbantes eram mais comuns entre os negros escravos de lá).
Os símbolos são dinâmicos. A qualquer momento um grupo pode escolher um símbolo novo para representar sua cultura, ou dar uma nova leitura a um símbolo antigo.

Não se pode exigir que toda pessoa do grupo social estude profundamente o significado dos símbolos que aprendeu como propriedades suas e há de se entender que todos tem direito a construir suas identidades e reagir pensando (ou dizendo) “Vou usar esse símbolo sem refletir” é, sim, uma manifestação de opressão. Seja o símbolo propriedade do grupo daquela pessoa que reclama ou não.

Sempre haverá exageros, pessoas ao defender a reapropriação dos símbolos apropriados por sua cultura (afinal cultura é viva como mostra o artigo mais abaixo), no entanto cabe a cada um de nós a maturidade e responsabilidade de entender que os exageros são… Exageros.

Assim estimula-se o debate e desenvolvimento do respeito e admiração da diversidade cultural.

Nos reconhecemos como opressores quando cedemos a falácias do espantalho anexando qualidades falsas à causa, como em “feminismo normal” e “feminismo radical”. Todo feminismo é normal e consiste no direito da mulher sobre ela mesma e a ter voz e igualdade de direitos. O “feminismo radical” é um espantalho que procura generalizar o feminismo à partir de atitudes ou ideias que são menos defensáveis (algumas até corretas ou, pelo menos, justas).

Enfim: seja uma pessoa séria e reflita tanto no caso de achar a apropriação cultural uma besteira, quanto no caso de considerar que é um direito inalienável da sua cultura.

Destaco apenas que cultura é um fenômeno memético e, como tal, ela naturalmente tenderá a ser reapropriada, compartilhada, resignificada pois, do contrário, ela se extingue. Com isso quero dizer que, se queremos manter um símbolo em nossa cultura devemos nos esforçar para usá-lo claramente e desenvolvê-lo em reação às suas reapropriações por outras culturas. Não é uma tarefa simples e nem é algo que podemos comunicar a todos os que seguem uma determinada cultura, é algo que temos que redescobrir empiricamente e pela propagação por Internet, mídia e boca-a-boca offline.

O turbante é para muitos símbolo de cultura e beleza negra, mas outros povos e culturas também utilizam esse acessório repleto de significados e funções.

Source: O que os turbantes tem a ver com a cultura africana? | ModaModaModa

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